50 tons de cinza da Covid-19: a distância social de mentira

50 tons de cinza da Covid-19: a distância social de mentira
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Como desde sempre as autoridades de saúde pública de todos os países têm recomendado uma distância social entre 1,0 e 1,50 metros, a medida foi confundida como um padrão ouro garantindo segurança total. Mas isso não reflete como realmente esse vírus se espalha, segundo vários pesquisadores citados neste post. Baseado nisso eu apresento uma diretriz nova, revolucionária, que pode salvar vidas em tempos de Covid-19.

Na última sexta-feira, o governador do estado de São Paulo, ao alertar os que já entupiam as rodovias, recomendou se manter a 1,50m de distância do próximo durante o feriadão.

Mas há evidências crescentes de que o novo coronavírus pode viajar mais de um metro e oitenta sob certas condições, já apresentadas aqui no blog dois meses atrás. Depois vieram outras que mostrei num vídeo.

A conclusão é a de que o distanciamento social atualmente tido como “seguro” pode não ser suficiente para impedir a disseminação do COVID-19. Na praia, talvez, porém não numa boite, ou no interior de um boteco.

Baseado nisso, após árduo estudo e pesquisa, eu desenvolvi uma diretriz anti-Covid válida para interações sociais de todo tipo, que pode salvar a sua vida. Acredite, mas tenha paciência. Ela será apresentada no final desse post.

Até lá, preste atenção aos mais recentes achados sobre o que atualmente vários cientistas especializados em transmissão de infecções pelo ar afirmam sobre o assunto.

Um artigo publicado na semana passada no The British Medical Journal (BMJ), aponta que os protocolos de 1,80 m são baseados em ciência ultrapassada e observações de diferentes vírus. A marca do 1,80 m seria apenas um começo – mas apenas um começo, alertando que mais espaço é quase sempre melhor, especialmente em áreas internas mal ventiladas.

No relatório, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e da Universidade de Oxford afirmam que outros fatores, como ventilação, circulação de ar, tamanho e densidade da aglomeração, tempo de exposição, o uso de coberturas faciais, e se as pessoas estão em silêncio, falando, gritando ou cantando devem fazer parte da avaliação se 1,80 m é suficiente.

A origem do 1,80 m

A sabedoria convencional por trás das separações de 1,80 m (seis pés) originou-se da pesquisa de um biólogo alemão, Carl Flügge, que no final dos anos 1800 sugeriu que era o máximo que as gotículas contendo micróbios podiam percorrer. Infelizmente, sua hipótese deixou passar partículas mais distantes, invisíveis a olho nu – em particular, as pequenas gotas de fluidos corporais e vírus que flutuam no ar como aerossóis.

A transmissão aérea do novo coronavírus ainda não foi comprovada de forma conclusiva, mas um número crescente de especialistas aponta evidências convincentes de eventos de superespalhamento que transmitiram o vírus a pessoas a poucos metros de distância da fonte de infecção.

“Acho que um metro e oitenta é um bom número, mas precisamos transmitir que este é um ponto de partida”, disse Linsey Marr, professora de engenharia civil e ambiental da Virginia Tech, que estudou vírus transportados pelo ar e não participou do relatório do BMJ. “Mais de um metro e oitenta não significa que há risco zero.”

Será?, você deve estar pensando.

Ora, já há provas disso. Em um ensaio de coral bem divulgado em março no estado de Washington, onde um cantor espalhou o coronavírus para 52 pessoas, a infecção atingiu uma pessoa a 15 metros de distância!

“A distância sozinha nunca resolverá o problema do aerossol. Se você estiver na mesma sala, pode se infectar”.

Dr. Jose Luis Jimenez. especialista em aerossol da Universidade do Colorado.

Ainda assim, 1,80 m, às vezes menos, continua sendo o padrão. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos definem o distanciamento social como “pelo menos seis pés (cerca de dois braços de comprimento) de outras pessoas que não são de sua casa em espaços internos e externos”. A Organização Mundial da Saúde recomendou pelo menos um metro ou três pés. Alguns países da Europa definem as distâncias sociais em 1,5 metros, quase cinco pés; outros a dois metros, ou seis pés e meio.

A Grã-Bretanha, no início da pandemia, implementou um mandato de dois metros para comensais e bebedores. Mas – sob pressão de pubs que temiam que essa regra limitaria os clientes a números nada lucrativos – em julho, o primeiro-ministro Boris Johnson comprimiu isso para uma separação de “um metro”.

Ou seja, mais uma concessão temerária de cunho político, nada científico. O 1,8 m, todavia, não reflete como esse vírus realmente se espalha, insistem os pesquisadores.

Os fatores a considerar

Outro fator importante é o movimento do ar. Uma distância fixa é apenas uma das variáveis na equação que rege o nível de segurança de alguém em tempos de Covid-19.

“É muito importante pensar sobre o fluxo de ar. Não é apenas 1,80 m e todo o resto pode ser ignorado ou apenas uma máscara e tudo o mais pode ser ignorado ou apenas ventilação e tudo mais pode ser ignorado.”

Lydia Bourouiba, professora associada de engenharia civil e ambiental do Massachusetts Institute of Technology

Bourouiba e seus colegas criaram um gráfico para delinear cenários de baixo, médio e alto risco. O gráfico usa um código de cores para mostrar como ocorre a transmissão, com base em diferentes tipos de exposição no ambiente.

Convém distinguir entre a exposição de alto e baixo risco, disse Bourouiba.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Algumas evidências sugerem que o coronavírus pode viajar mais de 1,80 m em atividades como tosse e gritos. Nas situações de maior risco, como em ambientes fechados com pouca ventilação, grandes multidões, tempo de contato prolongado e sem cobertura de rosto, o distanciamento além de 1,8 m deve ser considerado. Os locais que se enquadram nesta categoria incluem bares, estádios ou restaurantes. Em cenários de baixo risco, como em espaços ao ar livre com poucas pessoas por perto, um distanciamento social menos rigoroso deve ser adequado.

“Esta é uma forma de sintetizar e, em certo sentido, traduzir noções complexas para o que esperamos ser um gráfico acessível com código de cores”, disse Bourouiba.

O Dr. Ezekiel Emanuel, um bioeticista da University of Pensilvannia, admite que: “Se você está ao ar livre, não no meio de uma multidão e não vai ficar com outras pessoas por períodos prolongados de tempo, isso provavelmente é bom”. Mas agrega: “É um cenário de risco zero? Nada é risco zero.”

A Dra Linsey Marr, que estuda como o vírus pode se espalhar por meio de transmissão por aerossol na Virginia Tech, chega ao extremo de dizer que, ao contrário das diretrizes oficiais, todos deveriam usar máscaras quando dentro de casa, mesmo que estejam a 2 metros de distância dos outros. E com maior razão, quando estivermos em ambientes fechados com outras pessoas fora de casa.

Ela reforça essa indigesta recomendação acenando com uma analogia: a nuvem de um fumante de cigarro.

“À medida que você se afasta, fica exposto a menos porque se torna mais diluído. A fumaça não para, porém, a dois metros.”

Linsey Marr, professor de engenharia civil e ambiental na Virginia Tech.

Finalmente, outra variável-chave no quadro da Profa Bourouiba é o tempo de exposição. Simplesmente passar pelo lado de outros dois fregueses mascarados num supermercado é uma exposição de baixo risco. Porém, deixa de ser se ficar conversando com um ou outro por alguns minutos.

Isso deveria inspirar as autoridades de saúde pública hoje soltando uma avalanche de diretrizes sobre as escolas por conta da volta às aulas. Mesmo se os alunos ficam sentados numa sala a 2,5 metros de distância – se o contato se estender por horas juntos, gostemos ou não, aumenta o risco.

A conclusão

Enfim, o que se depreende de tudo isso é que 1,0 m, 1,5 m  ou 1,8 m não são necessariamente distâncias “seguras” em relação ao novo coronavírus. São apenas diretrizes, e então aqui vai mais uma.

Qualquer que seja a distância social que você tenha adotado nesses vários meses de aprendizado forçado, o que a sua memória já deve ter transformado em hábito… sempre que possível, dê um passo atrás. São 40 centímetros, custam nada, gastam ½ caloria e podem lhe poupar muita encrenca.

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