50 tons de cinza da Covid-19 no Brasil: os recuperados de mentira

50 tons de cinza da Covid-19 no Brasil: os recuperados de mentira
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No fim do ano, a perspectiva de ao menos um milhão de brasileiro(a)s que se curaram da Covid-19 será a de enfrentar uma existência miserável nos meses seguintes, ou pelo resto da vida. Poderão ficar doentes, com problemas no coração, nos pulmões ou no cérebro por meses, em vez das duas ou três semanas previstas pela Organização Mundial da Saúde. Que a infecção com a Covid-19 pode deixar sequelas variadas e nada leves, vem sendo denunciado progressivamente por cientistas em todo o mundo. Mas por aqui parece que ninguém se importa.

“Peça a Deus para ajudá-lo. E continue perguntando quando ele parecer não querer responder.”

Ross Douthat, colunista do New York Times

Há três semanas, o Pseudo-Ministro da Saúde cujo nome nem sequer eu lembro, lamentou “profundamente” – aliás, isso foi para lá de comovente – “…as vidas perdidas que afetam famílias, amigos e etcétera”.

Depois agradeceu os profissionais da saúde da linha de frente e finalmente fez algo inusitado: exaltou o número de pacientes recuperados.

“O Brasil ocupa o primeiro lugar no mundo em número de pacientes recuperados, registrando mais de dois milhões de brasileiros curados”, afirmou.

Previsivelmente, meio mundo caiu em cima dele. Por trás da auto-apologia do que este governo supostamente teria feito por combater o vírus desde que o primeiro chinês infectado com o vírus foi registrado em Wuhan, ocultos ficaram mais de 3 milhões de infectados e 110 mil mortos.

Contudo, a declaração teve alguma serventia. Ao menos chamou a atenção para os pacientes recuperados, uma população desconhecida, esquecida e escondida atrás de uma estatística. A qual, aliás, pouco ou nada chama a atenção – 2 milhões, 3 milhões, 4 milhões, tanto faz – porque automaticamente associamos “recuperados” com “favas contadas”, “assunto resolvido”, “conta outra”. Enfim, sabemos nada dessa gente. Nadica de nada.

Duas semanas atrás postei sobre o assunto e passou batido. Foi como falar de Mao Tsé Tung, Lula ou a Guerra na Síria. Ninguém se importa.

Mas pense comigo:  qual seria o “real” tamanho desse grupo? Que faixa(s) etária(s) prevalece(m) nele? Qual o gênero mais característico nele? E “recuperados”, como assim? Será que todos estão igualmente bem, sem sequelas? E se alguns as têm, quantos são e quais as mais prevalentes e/ou as que os afetam mais?

Não sabemos. E de novo, provavelmente não interessa. Esse pessoal já está fora de perigo, não está?

Errado.

Depende do que entendamos por “perigo”. Se for o perigo de morrer nos próximos meses por causa da Covid-19, provavelmente sim, estão fora. Mas de enfrentar uma existência miserável nesse tempo, ou pelo resto da vida, disso eles estão. Em perigo, quero dizer. O risco de ficar doente, com problemas no coração, nos pulmões ou no cérebro além das duas ou três semanas previstas pela Organização Mundial da Saúde, vem sendo denunciado progressivamente por cientistas preocupados com a humanidade pós-Covid-19.

“Ao menos 10% das pessoas que contraíram Covid-19 ainda não estão bem após três semanas e 5% podem continuar doentes por meses. Centenas de milhares de cidadãos do Reino Unido provavelmente serão afetados e representam uma coorte amplamente ignorada de vítimas da Covid-19”.

Covid Sympton Study, Reino Unido

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças americano, o CDC, em cada 3 pessoas infectadas com a Covid-19 que nunca ficaram doentes o suficiente para serem hospitalizadas, uma ainda se sente mal após três semanas de doença.

São os long haulers – o nome dado aos infectados com a Covid-19 que se curam pero-no- mucho e que permanecem sofrendo com sequelas por bastante mais tempo que as duas semanas profetizadas pela Organização Mundial da Saúde. Gente que não têm apenas tosse persistente, mas que é atropelada por uma experiência sistêmica, com névoa cerebral, dor nos órgãos internos, problemas intestinais, tremores, febre recorrente, etc.

O diabo é que por aqui, no Brasil, ainda nem se suspeita se os long haulers são 1 em cada 3 dos curados, ou em cada 2, ou em cada 5… Impunemente, então, pode-se especular que se 2 milhões se curaram, e se o CDC estiver correto aqui, então no mínimo 666.666 atualmente estariam em maus lençóis. Projetando grosseiramente essa cifra até o fim do ano, o grupo ultrapassaria um milhão. Ou seja, potencialmente um milhão de mãos batendo nas portas dos hospitais, ambulatórios etc. do país em 2021.

Um milhão de bípedes sofrendo, convenhamos, não é café pequeno. Portanto, a falta de informação, e sobretudo de preparo para enfrentar o problema, é assustadora. Ok, a procura por uma solução seria responsabilidade do Ministério da Saúde, mas denunciar a sua inação hoje teria menos efeito que latir para a Lua. O que a mim mais assusta, porém, é a indolência ou incapacidade da população para cobrar dos seus eleitos alguma iniciativa relacionada a esse povo, os long haulers que, como vemos, constituem um grupo considerável.

Na França, Finlândia, Holanda, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos os long-haulers logo perceberam que estavam sozinhos. E tiveram que criar seus próprios grupos de apoio, e executar seus próprios projetos de pesquisa (sobre eles mesmos).  Um grupo britânico (LongCovidSOS) lançou uma campanha para pressionar o governo por reconhecimento, pesquisa e apoio.

“Todo esse esforço começou a surtir efeito. Mais jornalistas escreveram histórias sobre eles. Alguns médicos começaram a levar sua doença a sério. Alguns pesquisadores estão desenvolvendo programas de tratamento e reabilitação.”1

Nos Estados Unidos, até um deputado apresentou um projeto de lei para o estado apoiar pesquisas sobre doenças crônicas que seguem às infecções virais.

E por aqui?

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1 comentário
  1. Tive Covid em abril, sem necessidade de internação, ao contrário do meu marido.
    Um mês depois começou as dores musculares, muitas que as vezes me impossibilitava até de virar na cama, sentar, levantar e as vezes até de andar.
    Também fiquei com dores nas articulações, ombros, braços, fui ao médico que diagnosticou fibromialgia e artrite pós Covid.
    Entao desde abril, sinto dores na musculatura e articulações e todos, todos os dias sinto dores, dias mais, outro menos, mas são todos os dias.
    Medicação: Lírica 75mg
    Melatonina 5mg.

    Então o problema não é só a Covid que os médicos e pacientes tem que enfrentar, mas também as sequelas incapacitantes que a Covid deixa.
    Fica aqui o meu comentário
    nesse blog e que os médicos falem mais sobre isso na mídia e de que forma podem ajudar os sequelados.

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