A comunicação médico-paciente num pronto socorro: o outro lado

A comunicação médico-paciente num pronto socorro: o outro lado

A comunicação médico-paciente é um tema controverso. Não são poucos os que a criticam – em geral, pacientes. Outros tantos discordam – em geral médicos – mas na surdina. É muito raro um profissional da saúde ventilar publicamente uma opinião sobre os aspectos não técnicos da profissão. Então aproveite a ocasião que este post lhe oferece.

Fique sentado em uma sala de um Pronto Socorro por duas horas, e eu lhe garanto que vai ver coisas que irão deixá-lo ofegante.

Semanas atrás visitei o Centro Infantil Boldrini, uma dessas coisas que você nem acredita que existam no Brasil da LavaJato. Um primor de hospital e, principalmente, você vê por todos lados quem é o foco das atenções: a criança.

Porém não é isso que eu vou comentar nesse post. Uma das minhas anfitriãs foi a Dra Andrea Raya, subdiretora da instituição. Ligada há muitos anos ao hospital, ela sabe do que está falando.

E por isso, criticou francamente uma passagem do e-book A COMUNICAÇÃO CENTRADA NO PACIENTE, a qual, segundo ela, não faria juz ao papel da equipe médica de uma casa de saúde. (Para não perder de vista o contexto, saiba-se que depois daquela passagem o ebook mostra um rosário de depoimentos denunciando a má comunicação médico-paciente em diversos países.)

Os melhores defensores de uma determinada questão são aqueles que compreendem os seus dois lados.

Ah, a passagem… já ia me esquecendo… ela relata um episódio ocorrido no Pronto Socorro de um hospital britânico. Uma criança por lá teria sido mal diagnosticada e depois de ser enviada para casa, viria a óbito logo depois. Os pais processaram o hospital e ganharam a causa. Eu apresentei o caso como exemplo de má comunicação entre a equipe médica e o paciente (a criança e seus pais, no caso. Os pais provaram para o juiz não terem sido questionados o suficiente sobre os sintomas da menina etc.).

A Dra Andrea argumentou que isso podia suceder, sim, mas com atenuantes derivados, por exemplo, da jornada estressante de uma equipe médica. Ou seja, seria inadequado, senão injusto, ignorar “o outro lado”.

Eu a convidei a preencher esse espaço, então. Estranhamente – porque a meu ver isso é raríssimo no seu meio profissional – ela aceitou e cumpriu a palavra. Para benefício de todos nós, aliás. A sua resposta, sem cortes, é o que você vai ver a seguir.

Algumas lições que a comunicação centrada no paciente me ensinou

Dra Andrea Raya

Quando eu era adolescente e ainda nem tinha definido que profissão eu escolheria, uma amiga muito querida sempre me dizia: “Se os médicos soubessem de tudo, ninguém iria morrer…”. Hoje, após 27 anos de meu ingresso na faculdade de Medicina este é um ensinamento que nunca esqueço, pois ele vêm à minha mente sempre que me deparo com as situações clínicas e desafios que ficam diante de mim pelas limitações e recursos que dispomos, apesar de todos os avanços da ciência e recursos aos quais temos acesso.

Eu me sinto privilegiada por ter tido alguns professores, amigos e muitos pacientes, todos meus grandes Mestres, que me levaram a buscar a comunicação centrada no paciente. Quanto mais eu aprendo, me atualizo e me supero, tanto em conhecimentos técnicos quanto em empatia, compaixão, comunicação não violenta, escuta sensível, mais eu tenho condições de enxergar as limitações que temos em nos expressarmos com clareza sobre nosso raciocínio clínico e propostas terapêuticas. Nos atendimentos aos pacientes oncológicos, quando eu os atendo pela primeira vez, converso sobre o diagnóstico e toda programação da Radioterapia. Sempre finalizo o atendimento questionando: “Mais alguma dúvida?”. Ao longo das sessões, ainda encontro com eles nas “consultas de revisão”, feitas para acompanharmos o tratamento e, algumas vezes, no meio do caminho, na última consulta, ou até depois do término do tratamento, o paciente me pergunta se o tumor era benigno ou maligno. E hoje entendo que isso pode acontecer porque cada pessoa tem o seu momento de processar todas as informações sobre sua saúde e doença. Mesmo carregando e levando em todas as consultas pastas e envelopes com resultados de biópsias, exames laboratoriais e de imagem. Mesmo frequentando por semanas clínicas e hospitais em que todos os outros pacientes (adultos e crianças) têm câncer.

Além dos desafios da comunicação, a prática clínica me trouxe também um outro aprendizado, que nem sempre chega aos que procuram os serviços de saúde: a evolução das doenças, e o quanto uma pessoa pode evoluir com piora de seu quadro clínico num curto espaço de tempo. E para citar alguns exemplos, o leve mal estar da manhã que culmina num infarto fulminante, a sepse e falência de múltiplos órgãos que se iniciou com uma infecção urinária em tratamento há dois dias, a encefalite que se iniciou como uma cefaleia e febre há um dia, e que parecia ser apenas uma virose, a pneumonia que se iniciou com uma tosse há três dias, a dorzinha na barriga que evoluiu para abdômen agudo com necessidade de uma cirurgia de urgência e também a meningite, que pode se apresentar clinicamente como uma febre sem um sinal localizatório, e que em horas pode evoluir gravemente e que mesmo com o tratamento adequado alguns pacientes não irão sobreviver. Quando eu realizava os atendimentos em pronto-atendimento como Pediatra, sempre orientava aos pais ou responsáveis que o aparentemente parecia ser uma doença sem gravidade poderia piorar. E me lembro de uma mãe que trouxe a filha com 9 anos, isso há uns 20 anos atrás, com um quadro de infecção de vias aéreas superiores, com queixa de dor de garganta e febre. Eu a examinei, dei as orientações conforme achei que poderia ser uma virose e que retornasse se tivesse piora clínica ou persistência dos sintomas. No dia seguinte, retornou com outra colega e essa mãe estava furiosa e indignada porque a filha estava com amigdalite bacteriana e eu não tinha visto as placas de pus. Eu já estava tendo um grande aprendizado!

Quando eu me deparo com relatos de descaso e imperícia nos atendimentos, primeira coisa que penso é que há várias versões nestas histórias: a de um profissional (comprometido ou não) que tenta se defender, a de uma instituição que nem sempre oferece condições para um atendimento de qualidade, a dos responsáveis por uma criança, que nem sempre exercem seu papel nos atendimentos das necessidades básicas, e isso inclui o aleitamento materno e vacinação para doenças infectocontagiosas, e da mídia que pode divulgar um acontecimento com as informações distorcidas, e a versão verdadeira, mas esta nós não saberemos…

E com tantas histórias agudas e crônicas no meu currículo, eu tenho a certeza que a comunicação centrada no paciente é um dos pilares para cuidarmos daqueles que nos procuram, e que para o atendimento de qualidade é necessário enxergarmos o ser humano integralmente, cuidando do corpo,  da mente, do espírito, e compreendendo seus hábitos de vida e o ambiente em que está inserido.

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