A Covid longa no Brasil: alô, alô...tem alguém aí?

A Covid longa no Brasil: alô, alô...tem alguém aí?
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No momento, as incógnitas sobre as consequências de longo prazo da Covid-19 ainda superam em muito as conhecidas. Porém, é fato que não poucas pessoas que tiveram infecções leves de Covid continuam a apresentar sintomas muito depois de se recuperarem da doença aguda. E também que uma pessoa não precisa ter uma doença grave para apresentar sequelas que vão persistir por meses e, o tempo dirá, possivelmente por anos. Este post fundamenta essa apreensão e coloca a pergunta: o que no Brasil está sendo planejado para dar conta dessa população com a Covid Longa que cresce a cada dia?

“A verdadeira prevenção não é esperar que coisas ruins aconteçam, é evitar que as coisas aconteçam em primeiro lugar.”

Don McPherson

Depois de vários meses de olhar para outro lado, as agências encarregadas de proteger a saúde em vários países começam a se preocupar com os pacientes com Covid Longa, ou Long Haulers. A principal razão? São muitas. Muitas mais das imaginadas inicialmente.

Um estudo com 177 pessoas publicado no mês passado determinou que, 9 meses após a infecção com SARS-CoV-2, pouco mais de um terço delas ainda relatava sintomas como fadiga.

Isso mostra que, com 117 milhões de infecções por Covid-19 em todo o mundo até agora, o número de pessoas com esses sintomas pode ser gigantesco. (Ao menos 5 milhões calculam alguns.)

Três meses após oficializada a pandemia, quando surgiram relatos sobre infectados com a Covid-19 que não se recuperavam plenamente após os 14, 21 ou 28 dias de praxe, as queixas se concentraram na perda de olfato e paladar. Como ninguém morre disso, ninguém prestou muita atenção. Posteriormente, os sintomas aumentaram para fadiga, febre e falta de ar, bem como condições neurológicas como ansiedade e depressão, e incapacidade de concentração. O número de Long Haulers aumentou também. E começou a ficar claro que os sintomas não necessariamente apareciam de imediato, e sim semanas após a infecção. E podiam durar meses.

  • Entre abril e maio de 2020, 125 de 143 pacientes italianos com idades entre 19 e 84 anos ainda apresentavam sintomas relacionados à Covid-19 confirmados por médicos em média 2 meses após o surgimento do primeiro sintoma. Todos foram hospitalizados, com média de permanência em torno de 2 semanas; 80% não receberam nenhum tipo de ventilação.
  • Mais de um terço de pacientes com Covid não hospitalizados (outpatients) entre março-junho de 2020 não havia retornado ao seu estado normal de saúde 2 a 3 semanas após o teste ser positivo, escreveram pesquisadores no Relatório Semanal de Morbidez e Mortalidade.
  • Quanto mais velhos os pacientes, maior a probabilidade de eles dizerem que sua saúde pré-Covid-19 não havia voltado. Mas mesmo um quarto dos mais jovens, aqueles com idade entre 18 e 34 anos, disseram que ainda não recuperaram a saúde.
  • Médicos em um hospital de Paris relataram recentemente que viram uma média de 30 long haulers todas as semanas entre maio e julho. A idade média dos pacientes era em torno de 40 anos, e as mulheres superavam os homens em 4 para 1.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

E tinha mais, muito mais. Para encurtar a história, hoje essas sequelas são definidas por cientistas do University College of London, Inglaterra, como um conjunto de sintomas que duram mais de 28 dias. Sintomas que potencialmente somam mais de 200 ao longo do tempo, incluindo aqueles que afetam o coração, pulmões, sistema gastrointestinal, músculos e articulações, além de dermatológicos, neurológicos e neuropsiquiátricos.

Atualmente a Covid Longa já ganhou um lugar ao sol. As melhores publicações científicas123 têm dado atenção preferencial ao tema e o financiamento do seu estudo começa a aflorar.4

Em fevereiro de 2021, o Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde do Reino Unido anunciou que estava investindo £ 18,5 milhões (US$ 25,9 milhões) para financiar quatro estudos de Covid Longa. O seu sósia americano, o National Institute of Health (NIH), fez melhor. Para começar, batizou a coleção de efeitos como Sequelas Pós-agudas da Infecção por SARS-CoV-2, ou PASC, dá espaço a ela nos seus boletins informativos e vai investir US$ 1,15 bilhão para investigar a sua base biológica.5

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A ideia é descobrir o que torna algumas pessoas mais vulneráveis ao PASC do que outras; 40.000 adultos e crianças com SARS-CoV-2 serão rastreados para observar quem desenvolve efeitos a longo prazo e quem não. Um projeto separado registrará os efeitos da Covid-19 em vários sistemas orgânicos por meio do exame de autópsias.6

“Além do consenso geral de que o fenômeno é real, por enquanto tudo o que realmente sabemos são perguntas”.

Steven Deeks, médico e pesquisador de doenças infecciosas da Universidade da Califórnia

Não é o caso do Brasil, claro. Por aqui infelizmente os pacientes Covid Curta – que por sinal também são muitos e a conta aumentando – congregam toda a atenção. Contudo, alguma movimentação há. Pelo lado da ciência. Mês passado o portal G1 publicou um bom artigo descrevendo os possíveis 55 sintomas de uma Covid Longa, um vídeo básico e um voo rasante pelos (poucos) estudos pioneiros em curso no país.7

O médico intensivista Regis Goulart Rosa, e um dos líderes de um estudo desses, diz que o objetivo, no caso, é avaliar a qualidade de vida após a alta hospitalar em mais de 1,2 mil pacientes, em todo o Brasil. Entrevistado recentemente pela jornalista Cristiane Segatto, ele revelou alguns dados preliminares, como de a fadiga ser o sintoma mais comum, e afetar todo tipo de ex-paciente, tenha sido este severamente afetado ou não.8

Mas é só isso. Nada de uma política médica nacional capaz de prevenir, quando mais enfrentar, o “tsunami Covid Longa” que irá inundar os serviços de saúde nos próximos meses ou anos.

Obs: As informações neste post são precisas no momento da publicação. No entanto, em se tratando de Covid-19 é possível que alguns dados tenham mudado desde a publicação.

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2 comentários
  1. Eu tive covd, no mês, 7/2020, o tratamento foi feito.
    Só quê eu não me recuperar, eu pedi olfato, paladar..
    Relato isso quando vou ao médico, eles falaram quê é normal.
    Sinto MTs dores,, no corpo TD, tenho fibromialgia, e agravou o meu caso.
    Tenho depressão,, problemas de coluna, e falo aos médicos quê vezes em quando eu sinto os sintomas do covd, ninguém fala nada.
    Diz quê eles não sabem dizer pois é uma doença nova.
    Está madrugada, do dia 9/4/ para sua 10/04/ senti MTS dores cirmo, de cabeça, e garganta, minha boca era TD ferida.
    Do nada acontece isso.
    Eu acho quê nos com estas sequelas fortes teríamos dê ser monitorados e cuidados pelos médicos, ou pelas secretaria de saúde das cidades, gratidão!
    Fico no aguardo de alguma resposta.

    1. Maria Helena, preparei uma resposta para você, mas ela ficou tão longa que decidi publicar um post para hospedá-la, logicamente, preservando a sua privacidade. Será publicado nos próximos dias.

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