A depressão é curável? – Post 1

A depressão é curável? – Post 1

Depressão e dor crônica costumam andar juntas. Uma alimenta a outra e vice-versa. Pensando em termos de engenharia reversa conclui-se então que curando a depressão, cura-se também a dor crônica. É isso mesmo? Pode ser, porém… a depressão é mesmo curável? A partir dessa semana 17 médicos nos quatro cantos do planeta começam a responder essa pergunta. Veja aqui o que diz o primeiro da lista.

“Você diz que está ‘deprimido’…. Isso não significa que você está com defeito – apenas significa que você é humano.”

– David Mitchell

A depressão é curável? Pergunta mais incômoda que essa deve haver poucas. Para o profissional da saúde – e não somente um psiquiatra – que se vê impotente diante de um paciente ansioso. E também para este último, ao perceber que provavelmente a resposta desejada nunca virá. (Ou pior ainda, ao perceber meses depois que ela veio errada.)

A pergunta em questão foi respondida por 17 médicos clinicando em países diferentes, da Alemanha à Armênia, e entre eles, o Brasil.

E por que é interessante para alguém com dor crônica conhecê-las?

Porque a depressão e a dor crônica, é sabido, costumam andar juntas. E a dor crônica é o assunto do blog.

Doravante, então, e pelas próximas 17 semanas, eu irei postando uma dessas 17 respostas médicas por vez. Pode ficar meio monótono. Mas nem tanto quanto passar pela farmácia a comprar um antidepressivo que talvez nem seja necessário.

A CURA DA DEPRESSÃO E A FALTA DE BIOMARCADORES DA DOENÇA

1. Alkin, Turquia

A palavra “cura” significa eliminar permanentemente todos os sinais e sintomas de uma determinada doença, revertendo completamente os mecanismos patogenéticos subjacentes e, assim, restaurando o estado de saúde e o funcionamento pré-mórbidos dos pacientes. No entanto, isso dificilmente se aplica aos transtornos depressivos. Os sintomas residuais são a regra após a conclusão bem-sucedida do tratamento farmacológico ou psicoterapêutico, e sua presença tem sido correlacionada com maus resultados.1 Os resultados do estudo STAR*D (alternativas de tratamento sequenciado para aliviar a depressão) mostraram que a taxa de remissão cumulativa geral está longe de ser satisfatória e que, após 12 meses, a maioria dos pacientes recidivou.23

Embora existam vários tratamentos para os sintomas da depressão, não há cura conhecida como definida acima. Existem várias razões que contribuem para a ausência de uma cura instrumental real.

Primeiro, a depressão é um distúrbio etiologicamente complexo. Embora existam linhas convergentes de evidências sugerindo que as suscetibilidades dos pacientes são influenciadas por fatores neurobiológicos, como sistema de fator de liberação de corticotropina e anormalidades no eixo HPA, citocinas relacionadas à inflamação elevadas e neurogênese diminuída, conforme indicado por baixos níveis de fator neurotrófico encadeado (BDNF) pode estar associado à depressão, a patogênese exata dos transtornos depressivos não é totalmente compreendida.4

Ainda estamos aguardando biomarcadores de depressão para quantificar a mudança na condição fisiopatológica dos pacientes. Até que os biomarcadores validados e clinicamente interpretáveis ​​estejam disponíveis, ninguém será capaz de concluir se um distúrbio depressivo é inequivocamente “curado” ou “não curado”. Um paciente que parece curado com tratamento em andamento ainda pode ter um tratamento não detectado, ativo e de longa duração da doença. Por outro lado, em estudos clínicos, alguns pacientes que não atendem às definições de remissão baseadas em sintomas consideram-se em remissão.5

Segundo, sabe-se que vários processos de interação gene-ambiente (estresse) estão envolvidos na fisiopatologia da depressão e contribuem ainda mais para sua natureza heterogênea. A doença não é apenas heterogênea, mas também é frequentemente complicada com outras comorbidades médicas e psiquiátricas6 Não é realista esperar uma “cura”, se o estresse crônico do paciente não for tratado com intervenções psicossociais e ações sócio-políticas relevantes.

Terceiro, as opções atuais de tratamento não aliviam efetivamente os sintomas da depressão. Até o momento, estratégias alternativas e causais de tratamento psicofarmacológico além da inibição da recaptação de monoamina não estão disponíveis. Pesquisas recentes mostraram que a cetamina, um antagonista do receptor de N-metil-D-aspartato (NMDA), leva a efeitos na desregulação do sistema glutamatérgico.7 A cetamina em baixa dose provoca um efeito antidepressivo em pacientes com depressão maior. Essas descobertas estimularam esforços para elucidar os mecanismos subjacentes à ação antidepressiva da cetamina, bem como para desenvolver um novo entendimento molecular da depressão. Assim, o desenvolvimento de novos antidepressivos de ação rápida que produzam um resultado comparável à definição de “cura” deve ser uma prioridade mundial.

É claro que precisamos urgentemente de marcadores biológicos quantificáveis ​​para avaliar o estado subjacente da doença e a resposta ao tratamento e tratamentos eficazes que trarão um estado de bem-estar livre de doença. Até então, “atitudes orientadas à cura” para pacientes depressivos não farão muito sentido. 

O principal objetivo do tratamento deve ser “uma remissão completa e sustentada” ou “recuperação”, conforme definido por vários pesquisadores.8 Uma definição de recuperação com base nos sintomas e no funcionamento psicossocial deve ser buscada. Além disso, o conceito de recuperação deve envolver um papel ativo do paciente e levar em consideração seu bem-estar psicológico.9

Se “recuperação” significa “cura” em termos de variáveis ​​psicossociais e neurobiológicas deverá ser um tópico importante nos cuidados psiquiátricos no futuro.

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