A depressão é curável? – Post 3

A depressão é curável? – Post 3
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Seguindo com a série de publicações sobre DEPRESSÃO, conheça a opinião do terceiro dos 17 médicos espalhados pelo mundo que respondem à pergunta sobre se ela é mesmo curável.

“É minha experiência que as pessoas sejam muito mais simpáticas se puderem vê-lo sofrendo, e pela milionésima vez na minha vida desejo sarampo, varíola ou outra doença facilmente compreensível apenas para facilitar as coisas para mim e para eles.”

– Jennifer Niven

A depressão é curável? Pergunta mais incômoda que essa deve haver poucas. Para o profissional da saúde – e não somente um psiquiatra – que se vê impotente diante de um paciente ansioso. E também para este último, ao perceber que provavelmente a resposta desejada nunca virá. (Ou pior ainda, ao perceber meses depois que ela veio errada.)

A pergunta em questão foi respondida por 17 médicos clinicando em países diferentes, da Alemanha à Armênia, e entre eles, o Brasil.

E por que é interessante para alguém com dor crônica conhecê-las?

Porque a depressão e a dor crônica, é sabido, costumam andar juntas. E a dor crônica é o assunto do blog.

Já foram publicados as duas primeiras opiniões a respeito – do Dr. Tunç Alkin (Turquia) e do Dr. Eugene Allers (África do Sul). Pelas próximas semanas, continuarei postando uma dessas 17 respostas médicas por vez. Pode ficar meio monótono. Mas nem tanto quanto passar pela farmácia a comprar um antidepressivo que talvez nem seja necessário.

DEPRESSÃO: HAVERÁ CURA SEM ENCONTRAR A CAUSA?

A resposta depende da definição de “cura”. A doença, no sentido estrito, é “curada”, eliminando sua patologia primária conhecida; isso também implica nenhum risco de recorrência e nenhuma necessidade de tratamento adicional. Na maioria dos distúrbios mentais – e de fato nas condições médicas mais crônicas, como hipertensão, reumatismo ou diabetes – apesar de muitas pesquisas promissoras (por exemplo, terapia genética), essa é uma possibilidade futura e não uma realidade clínica. Por outro lado, alguns críticos barulhentos consideram a depressão um mero construto social que “medicaliza” uma resposta psicológica natural – tristeza – a experiências adversas de vida em indivíduos saudáveis, e não um distúrbio real que precisa ser “curado”. Até que seja alcançada uma identificação clara da patologia cerebral primária dos estados depressivos, todas as terapias atuais tratarão os sintomas em vez de curar a doença.1 Infelizmente, na depressão recorrente, a chance de permanecer permanentemente bem sem tratamento de manutenção (ou seja, “permanecer curado”) diminui rapidamente com o número de episódios e dificilmente excede 10% durante um acompanhamento de cinco anos.2

A resposta aguda à farmacoterapia antidepressiva atual é geralmente encorajadora, mas longe de satisfatória. O objetivo comumente aceito no tratamento de curto prazo é a remissão (redução dos sintomas abaixo do limiar do diagnóstico, não mais do que “limítrofe”), não recuperação (sem sintomas depressivos, restauração completa da saúde pré-mórbida, “nada doente”). Os dados citados do STAR * D (alternativas de tratamento sequenciado para aliviar a depressão) mostraram uma taxa de remissão de apenas 32% a 36% nas primeiras 8 a 12 semanas, o que aumentou ainda mais para 67% com as otimizações subsequentes do tratamento.3 Estudos abertos e naturalistas às vezes relatam melhores resultados, alcançando taxas de remissão acima de 80% durante períodos de observação mais longos4; isso coincide com a experiência terapêutica de muitos médicos. Por outro lado, as verdadeiras taxas de recuperação (usando a definição mais estrita de HAM-D ≤3 [escala de classificação HAMilton Depression] por ≥120 dias) são tipicamente muito mais baixas, em torno de 25% a 35%, mesmo após 2 anos.5 A adesão proverbialmente pobre à depressão – menos de 30% dos pacientes tomam seus medicamentos por pelo menos 3 meses6 – também contribui para respostas abaixo do ideal e aparente falha terapêutica. A resposta terapêutica incompleta com sintomas residuais é comum e, sem maiores esforços para obter remissão total, geralmente prediz recaídas mais precoces ou recorrências mais frequentes. Por outro lado, o tratamento continuado adequado em pacientes remetidos pode manter o paciente livre de depressão por vários anos, reduzindo a taxa de recorrência “espontânea” (cerca de 80%) três a cinco vezes, até 10% – 25% durante o acompanhamento.789. Além disso, o grau da fase aguda da recuperação se correlaciona forte e quase linearmente com o período de tempo previsto sem recorrência.10

As evidências disponíveis sugerem que, em algumas populações de pacientes deprimidos, a psicoterapia pode produzir taxas de resposta e remissão semelhantes.11 Em comparação com o tratamento medicamentoso, a maioria das configurações de psicoterapia é inerentemente de longo prazo, permitindo a estabilização e manutenção de resultados precoces. Alguns dados de pesquisa, incluindo estudos de imagem funcional das alterações do metabolismo cerebral durante e após a psicoterapia e o tratamento medicamentoso, indicam mais semelhanças do que diferenças entre as duas modalidades.12 No entanto, nenhum dado empírico apoia o conceito histórico de que a psicoterapia é de alguma forma “causal”, enquanto a farmacoterapia é “apenas sintomática”. Ambas podem tratar com sucesso, mas nenhuma parece “curar” a condição clínica que atualmente chamamos de depressão.

A depressão é curável? A resposta científica rigorosa deve permanecer negativa até encontrarmos a verdadeira “causa” e os meios para erradicá-la. A resposta pragmática para os médicos é, no entanto, mais otimista: com o uso ponderado e persistente de nossas opções terapêuticas atuais, a maioria dos pacientes deprimidos responde de maneira significativa; a maioria obtém remissão e – com tratamento profilático – muitos pacientes continuam experimentando uma recuperação completa duradoura.

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2 comentários
  1. Luto contra a depressão por longos 17 anos, com várias remissões, mas agora percebo a importância da medicação na minha vida Eu tenho FÉ que tenha cura sim Muito prazer, blog, mas estou me divertindo e me distraindo agora que estou mais controlada, eu, acredite firmemente que estou “curada”, mas dependo do laudo médico, enquanto isto, vou investindo nos medicamentos, muito obrigada, beijos e até mais

    1. Quem dirige um blog pode optar por não publicar os comentários que lhe pareçam inconvenientes – ou medianamente movidos pelo ódio contra algo, seja o STF, a Humanidade, a vida… O seu comentário não é um desses. Embora transbordando gratuitamente sarcasmo e ironia, ele merece ser reproduzido. Por dos motivos. O primeiro, isso da liberdade de expressão etc. “Cada louco com seu tema”, reza o ditado. E depois, porque representa o pensamento da grande maioria da população que padece com uma doença crônica: melhor um fármaco na mão do que cem opções de meditação ou exercício aeróbio ou mudança de hábitos de vida, voando. De nada importa se a ciência hoje afirma que os antidepressivos geram dependência, causam diversos efeitos colaterais, e são ineficazes em um terço dos casos de depressão. E que o seu consumo já é um problema epidêmico de caráter planetário. Quando a dor pinta, é ela, a dor, que manda, e o que manda é passar pelo médico, pegar uma receita e daí direto à farmácia. Coisa rápida. A dor vai embora somente por algumas horas, dias ou semanas, mas quem se importa? Bem, talvez o organismo, a esperança e o autocontrole que vão definhando aos poucos, porém são detalhes, detalhes… Então, vamos lá, Dna.Márcia, obrigado pelo seu comentário, muito construtivo. Por aqui, neste blog, há lugar para todos. Continue feliz etc. E olha que eu não digo isso com sarcasmo ou ironia, mas apenas com um pouquinho de pena.

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