A dor crônica e seu bolso

A dor crônica e seu bolso

Você está com essa dorzinha nas costas fazem 3 meses e continua jogando tênis, ou vôlei, ou qualquer outro esporte, como se nada? Ou essa inflamação em um dos seus dentes que não passa, mas dá para ir levando sem ter que ir ao dentista? Nem sempre a dor aguda vira crônica, é verdade. Mas quando vira, custa caro.

“Se pudessemos vender as nossas experiências pelo valor que elas nos custaram, seriamos milionários.”

Pauline Phillips, jornalista
A probabilidade de se migrar de dor aguda para dor crônica é pequena: entre 10 e 20%. Em se tratando de dor lombar não específica – até 80% dos casos no atendimento primário – sabe-se que essa transição ocorre mais por razões psicológicas do que fisiológicas e geralmente sem a pessoa perceber.

Se ela soubesse do custo de conviver com uma doença ou dor crônica durante meses, anos ou décadas, a sua atitude talvez fosse mais atenta.

Quanto está custando a sua dor crônica? Já fez os cálculos?

Cinco são os custos, nada menos. Custos que você pensou, custos que você talvez tenha pensado, custos que ficou pensando depois que gastou, custos submersos e custos cidadãos. Nenhum contabilista admitiria a minha nomenclatura, mas quem se importa  Você vai entender.

Custos que você pensou.

Consultas médicas, exames clínicos e de imagem, sessões de fisioterapia, massoterapia, neurofeedback, (eventualmente psicoterapia), analgésicos opióides, anti-inflamatórios, antidepressivos, injeções de sei-lá-o-que, e as opções “alternativas” (mindfulness, ioga, pilates, tai-chi, Flores de Bach, candomblé, Santo Daime etc.), perfazem o custo que primeiro vem à mente do paciente com dor crônica. Nenhum convênio médico cobre sequer um quarto desse montante – e em todo caso a pessoa também precisa pagá-lo. (O convênio, quero dizer.)

“Existem mais de 9.000 códigos de cobrança para procedimentos e unidades de atendimento individuais num hospital privado (ex.: medicação, cirurgia, raios X etc.). Só falta cobrar as visitas ao banheiro. Mas não há um único código de cobrança para adesão ou melhoria do paciente, ou para ajudar os pacientes a ficarem bem. Já pensou nisso?”

Custos que você talvez tenha pensado.

Todas essas atividades implicam em movimentação, o que significa despesas com transporte, estacionamento, alimentação fora de casa e, dependendo da idade da pessoa, outras despesas adicionais (ex.: contratação de um acompanhante, alguns exames o exigem). Nesse custo indireto adicional, às vezes alguém pensa.

Custos que ficou pensando depois que gastou.

E tem mais. O Custo de Oportunidade é no que incorremos ao gastar tempo e dinheiro em algo – no alívio da dor, no caso – assim abrindo mão (renunciando) de investir aquilo em algo rendoso (oportunidade renunciada). Eis um custo em que você pensa – e se sentindo levemente idiota – enquanto está sentado na recepção da consulta do enésimo médico, deitado na maca do enésimo fisioterapeuta, ou fazendo respiração diafragmática pela enésima vez.

“Pense em todo o tempo, dinheiro e capital social ou político que você continuou a investir em uma má ideia apenas por não se atrever a desistir dela…”

Custos Submersos.

Ah, e agora é a vez dos custos submersos! Nesses ninguém pensa, até anos depois de ter deixado tudo para trás – se conseguir deixar. São os custos nos quais você já incorreu, e que por já ter incorrido neles, você se sente na obrigação de manter a aposta feita “naquele” médico, ou “naquele” fisioterapeuta, ou “naquela” terapia, ou “naquela” medicação… Esses custos funcionam igual às aplicações em bolsa, a pessoa compra 1 mil de Petrobras no dia 1, o papel cai 10% no dia 2, e volta-se a comprar em dobro no dia 3 – “para recuperar o perdido e fazer algum lucro”. (Não queira saber quanto cai no dia 4.) Qual a diferença com o paciente com dor crônica, cujo tratamento de fisioterapia não alivia sua dor um pingo após 6 sessões e, mesmo assim, ele compra mais 6 sessões!

Custos Cidadãos.

Por fim, tem os custos cidadãos – para não dizer “custos-dos-trouxas”. Aqueles que todos pagamos pensando que ocorreram noutro planeta, como os da corrupção, os da violência urbana, os do narcotráfico, os das subvenções à indústria automobilística, os das folhas de pagamento do Judiciário ou do Congresso… Refiro-me aos custos que a dor crônica representa para um país.

Então, quer uma calculadora aí?

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