A dor da mulher é diferente da dor do homem. Isso faz diferença na hora de diagnosticar e tratar?

A dor da mulher é diferente da dor do homem. Isso faz diferença na hora de diagnosticar e tratar?
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Este post resume os resultados de uma enorme pesquisa a cargo de cientistas da Stanford University, apontando diferenças significativas entre “as dores da mulher” e “as dores do homem”. “O Paradoxo de EVA”, um ebook da minha autoria, cita dezenas de publicações científicas que comprovam isso, agregando, todavia, que essas diferenças não têm raízes apenas biológicas, mas também culturais. E que elas não estariam sendo levadas devidamente em conta pela medicina, seja na pesquisa ou no atendimento clínico, com consequências desastrosas para as mulheres, principalmente as portadoras de dor(es) crônica(s).

Um relatório recente do Institute of Medicine americano afirmou que o uso ineficaz de informações clínicas contribui para o subtratamento de subpopulações de pacientes – especialmente mulheres.

O estudo usou “escores de dor associados ao diagnóstico” arquivados no banco de registros médicos eletrônicos do Stanford Hospital and Clinics para mais de 72.000 pacientes, para documentar as diferenças entre os sexos em termos de dor relatada.

Foram comparados os níveis de dor relatados por homens e mulheres em relação a 47 doenças diferentes. A amostra continha dados de mais de 11.000 pacientes cujos escores de dor foram registrados como parte dos cuidados médicos de rotina. 

Houve diferenças?

Foram identificados padrões de dor diferenciados por sexo.

As diferenças mais significativas ocorreram em pacientes com distúrbios do sistema musculoesquelético, circulatório, respiratório e digestivo, seguidos por doenças infecciosas. Também houve diferenças sexuais específicas na intensidade da dor relativa a doenças não relatadas anteriormente, incluindo distúrbios da região cervical e sinusite aguda.

As descobertas foram consistentes com os resultados de estudos experimentais da dor e fornecem evidências robustas de que as mulheres relatam maior dor clínica em comparação aos homens em relação a uma série de doenças. 

E as causas dessas diferenças?

Embora os escores gerais de dor tenham sido mais altos nas mulheres em comparação aos homens, em média, as causas subjacentes a essas diferenças, que podem incluir fatores hormonais, genéticos ou psicológicos, não foram pesquisadas. Contudo, hormônios sexuais e fatores psicológicos podem ser as mais relevantes.

Os hormônios sexuais podem influenciar a sensibilidade à dor. Por isso, a fase do ciclo menstrual deve ser sempre considerada ao registrar os escores de dor feminina. Além disso, fatores psicológicos como efeitos de humor e falta de estratégias pessoais de enfrentamento, assim como a tendência ao catastrofismo, influenciam claramente a percepção da dor.

Tomados em conjunto, os resultados corroboram a concordância geral de que as mulheres relatam maior intensidade de dor nas doenças osteomusculares, e também sugerem diferenças nas doenças do sistema respiratório.

Nota do blog:

O ebook “O Paradoxo de EVA” cita dezenas de publicações científicas que comprovam o mesmo que os autores da pesquisa realizada com base nos dados da Stanford: ou seja, que há diferenças significativas entre “as dores da mulher” e “as dores do homem”. Os autores do artigo o concluem apontando haver “… a necessidade de mais pesquisas nessa área, como estudos que investigam causas mecanicistas e fisiológicas das diferenças de dor relacionadas ao sexo.”

O Paradoxo de EVA”, porém, demonstra que as diferenças em relação à percepção da dor – e a dor per se – que certamente existem entre os sexos, não têm raízes apenas biológicas, mas também culturais. As dores femininas não estariam sendo tão bem pesquisadas quanto as masculinas, e ainda por cima seriam rotuladas de “psicológicas” ou psicossomáticas pelo(a)s médico(a)s, e pela própria sociedade, por conta de um viés de gênero. E aquilo amplificaria a dor já existente.

Que a dor da mulher não é levada devidamente em conta pela medicina, é uma queixa que há tempo vem sendo vigorosamente ventilada em países desenvolvidos, desde os do Norte da Europa aos do Norte da América, além do Reino Unido e a Austrália. E não só por pacientes, mas também por profissionais da saúde e até pela mídia. De algo parecido, porém, não se tem notícia no Brasil, o que não deixa de ser intrigante.

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