A dor da mulher é diferente – e isso pouco tem a ver com genes

A dor da mulher é diferente – e isso pouco tem a ver com genes

“The Girl who cried Pain” (“A Garota que gritou Dor”), é um artigo-estudo famoso na história da dor feminina. “Apesar das evidências de que as mulheres são biologicamente mais sensíveis à dor do que os homens…”, aí se conclui, “… os seus relatos de dor são levados menos a sério”. E “levados menos a sério” por quem? Pelos seus maridos e cuidadores da saúde em geral. O que sustenta esse viés?

“As mulheres são como lances de um mágico. Os quais, para serem admirados, não devem ser entendidos”.

William Congreve
Num post anterior servi-me de um episódio relatado pelo Dr. Patrick Wall no seu livro PAIN, The Science of Suffering, para destacar o quanto as diferenças entre os dois sexos, no que se refere à percepção da dor feminina é influenciada por fatores físicos e também psicossociais. E o quanto isso é negligenciado pela prática clínica. Nesse post, eu lanço outros argumentos que suportam essa tese.

Estudos clínicos e de laboratório mostram diferenças entre os dois sexos no que se refere a respostas à dor: as mulheres são mais sensitivas à estimulação nociceptiva, e mais vulneráveis à dor persistente, que os homens. Fatores psicossociais e diferenças biológicas explicariam essas diferenças.

Em se tratando de dor crônica, especialmente, esses fatores influenciariam a resposta à dor de maneira mais determinante que as biológicas  – não apenas em condições clínicas, mas também no laboratório humano.

Você acredita no anterior? Se afirmativo, é você mais meio mundo. E eu inclusive, até ir um pouco mais a fundo no tema. Constatei que ali, afirmações taxativas abundam, mas nem todas se sustentam.

A Biologia

Comecemos pelo mais óbvio. As mulheres tendem a sentir mais dor simplesmente devido à sua biologia, que envolve processos dolorosos como menstruação, gravidez e parto. Suponho que isso nem se discute.

A Genética

“Há profundas diferenças genéticas entre os sexos”, diz o senso comum.

Porém, isso faz diferença em termos da percepção da dor? De fato, 6.500 genes, ou apenas um terço dos 20 mil que os humanos têm, se expressam diferente por conta do gênero. Eis a descoberta recente de dois pesquisadores israelitas, Prof. Shmuel Pietrokovski e Dr. Moran Gershoni do Weizmann Institute, publicada recentemente no BMC Biology, uma revista científica séria. Causou grande frisson entre os cientistas que estudam diferenças de gênero, mas não entre os que estudam dor. A razão? Nada diz sobre isso. Então continuamos sem saber se os genes diferenciam mesmo os dois sexos em termos de dor.

A Cultura

E seriam as mulheres mais sensitivas à dor que os homens por motivos culturais? Supõe-se, por exemplo, que homem-que-é-homem não mostra dor quando dói, enquanto a mulher pode chorar à vontade justamente porque se espera que ela faça isso? Apenas uma única experiência (de laboratório), porém, comprova a preocupação do homem em mostrar masculinidade demostrando estoicismo ante um estímulo doloroso, mas nada encontrei quanto a segunda parte, relativa ao comportamento choroso da mulher.

A Neurologia

E pelo lado dos neurônios? Aqui a pesquisa é mais promissora.

Pesquisadores descobriram que os processadores centrais de dor no cérebro feminino mostram uma atividade maior do que a dos homens que estão experimentando níveis semelhantes de dor. Outros estudos descobriram que mulheres e homens respondem melhor a diferentes tipos de analgésicos opioides, possivelmente porque esses analgésicos funcionam em diferentes áreas do cérebro.

As diferenças de gênero no que se refere a percepções da dor podem estar relacionadas à maneira em que os cérebros dos dois gêneros respondem a situações afetivas – algo que hoje pode ser visto em 3D. Enfrentados ao lado desagradável da dor, os homens preferentemente desativam regiões pré-frontais supressivas no cérebro, mobilizando assim circuitos destinados a controlar ameaças, enquanto as mulheres recrutam áreas cerebrais tipicamente relacionadas ao processamento emocional (ex.: amigdala). Ou seja, diante a possibilidade da guerra, o homem corre a vestir uma armadura, ao tempo que a mulher se retira a chorar pelos mortos que haverá. E isso está escrito no cérebro de cada qual.

Os Hormônios

A última, e mais clássica explicação para as diferenças de gênero em relação à dor é a hormonal. Andrógenos e estrógenos são, respectivamente, os hormônios sexuais masculinos e femininos. Mudanças nos níveis de plasma estrógeno, por exemplo, estão correlacionados com dor persistente e mudanças no ciclo menstrual, com dor temporomandibular, enxaqueca e fibromialgia. Uma tradução apócrifa postada no site da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor aponta mais sete efeitos dos estrógenos sobre a nocicepção. As fontes podem ser sérias, mas não é possível checá-las. Informe-se clicando aqui.

Os hormônios femininos também podem causar alterações neuroquímicas que intensificam as sensações de dor. Alguns dos produtos de degradação da progesterona impedem o funcionamento do neurotransmissor inibitório e os nervos continuam a “disparar”.

Pelo visto, sobram hipóteses sobre fatores explicando as diferenças de percepção da dor entre homens e mulheres. Algumas mais válidas do que outras. Apenas uma das hipóteses, a biológica, conta com evidências relativamente convincentes.

Por fim, também sobram evidências no sentido de que alguns – senão muitos – médicos acreditam que as mulheres relatam mais dor porque a sociedade as “ensina” a serem mais expressivas (escandalosas? sentimentais?) que os homens. E isso não seria um preconceito geral, assexuado, sobre o que pode estar influenciando a discriminação com que a dor feminina é vista e tratada?

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