A dor é estranha - Parte 5

A dor é estranha - Parte 5

Podemos jogar a dor para longe apenas pensando?

Se tudo isso for verdade… e é…1

100% do tempo, a dor é uma construção do cérebro.

Why Things Hurt, por Lorimer Moseley
… significa isso que podemos expulsar a dor construída no cérebro apenas pensando? Se o cérebro pode construir a dor, pode desconstruir? Sim e não, porque, como o Dr. Moseley explica, “a dor realmente está na mente, mas não da maneira que você pensa.”2 É uma boa notícia e uma má notícia ao mesmo tempo. Vamos tirar a má notícia do caminho primeiro.

A dor é um motivador. Existe para nos fazer agir. Nós nos machucamos quando nossos cérebros acham que devemos fazer algo diferente, por segurança… mas a segurança nem sempre é possível. A natureza do perigo nem sempre é clara, ou evitável.

E o cérebro se preocupa demais: de cutículas a fibromialgia, ele exagera o perigo.

E o cérebro não pode ser manipulado simplesmente desejando, por força de vontade, ou de uma boa atitude cuidadosamente cultivada. O cérebro, de forma poderosa e imperfeita, controla como experimentamos estímulos potencialmente ameaçadores, mas lamento informar que você não controla seu cérebro. Consciência e “mente” são subprodutos da função cerebral e do estado fisiológico. (Profundo, hein?) Não é a sua opinião sobre os sinais sensoriais que conta, é o que seu cérebro pensa deles que conta-o que acontece muito independentemente da consciência e do auto-conhecimento. O domínio do cérebro fica óbvio ao examinarmos algo como corar:

“Corar ocorre quando os vasos sanguíneos da cabeça e pescoço se dilatam e o sangue os inunda. É uma mudança física instantânea vista na superfície, mas que reflete um sentimento de embaraço ou de felicidade que é interno. Quando acontece, eu não consigo controlá-lo. Esse ponto é importante. O meu corar trai um sentimento e, mesmo quando ele aumenta o meu embaraço, eu não posso detê-lo.”

~ It’s All in Your Head, por Suzanne O’Sullivan
Mas o anterior também é verdade em relação a dor. Como Todd Hargrove coloca “A dor é às vezes imune à lógica”, porque a dor é tratada por uma parte do cérebro que não é facilmente passada a levar por outros “módulos” do cérebro.3 Como ele coloca em outro lugar:

“Os seres humanos não conseguem decidir o que eles acham ameaçador, estressante ou doloroso mais do que um gato faz. Essa decisão é deixada aos antigos sistemas inconscientes com os quais realmente não se pode encontrar razão.”

Seu cérebro modula a dor com base em fatores que estão completamente fora do seu controle. Ou que são bastante difíceis de controlar, ou até mesmo impraticáveis de controlar.

É por isso que muitos sábios, calmos e confiantes otimistas, ainda têm dor crônica. Aqui vão três exemplos de maneiras em que a mente definitivamente tem poder sobre a dor, mas sem muito valor prático: estar apaixonado, “de-magnificação”, e não olhar para as injeções.

Romance: graças a um estudo muito peculiar realizado em 2014, a ciência tem confirmado que estar apaixonado alivia a dor-um exemplo maravilhoso do poder potencial da mente sobre a dor.4. O problema é que “não há uma receita para o amor” – não uma que seja fácil de preencher, de qualquer maneira.5

“De-magnificação”: se você olhar uma mão dolorosa através de uma lupa, ela vai realmente ficar mais inchada e inflamada, ou seja, se você fizer parecer maior, ela vai se sentir como um problema maior.6 O reverso é verdade também! Use a óptica para torná-la menor, e o inchaço vai diminuir. Incrível, não é? Truques de dor Jedi! Mas… você tem algum aparelho para “de-magnificar” à mão? Onde você compra um desses, quanto mais um grande? (Eles realmente são difíceis de encontrar. Que tal olhar para trás através de binóculos? Não é uma grande solução. 7 E o que acontece se a dor não está em um lugar que seja fácil de ampliar, como a sua lombar?

O truque da ampliação é interessante, mas não uma abordagem prática para a maioria das dores. O efeito é real sob as circunstâncias certas, mas tentar usá-lo como um tratamento é como tentar levar um truque mágico para casa.

Não olhar: sofrer uma injeção realmente dói menos quando você não assiste.8 Fora da vista, fora da mente: se o cérebro não pode ver a ameaça, é menos sensível a ele. Isso é interessante, e como a experiência da mão ampliada, demonstra claramente que o cérebro modula a dor e que, nessa circunstância, podemos modulá-la. É fácil olhar para longe de uma agulha, mas com a maioria das dores crônicas, o que há para se evitar olhar? Normalmente não vemos a ameaça.

Embora seja tecnicamente a prerrogativa do cérebro ignorar sinais dolorosos emitidos pelos tecidos, isso não significa que de alguma maneira podemos convencê-lo a fazê-lo-se houver um processo de doença destrutivo acontecendo, por exemplo, o cérebro geralmente não irá ignorar esses sinais! O sistema de dor evoluiu para reportar problemas, e você pode contar com ele para fazê-lo a maior parte do tempo.

Poder do sistema nervoso central, Slide 1

O gato de três patas Isaac, tentando arranhar-se com sua perna faltante:

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Agora um pouco para a esquerda…

Isso tem que ser super frustrante! A patética futilidade do ato de se arranhar cometida por Isaac não impede o cérebro de tentar. Pobre rapazinho. Seu cérebro tem uma imagem de como as coisas devem ser, e age de acordo. O impulso é como um trem de carga, mesmo quando é flagrantemente ineficaz.

Por isso, como muitas vezes acontece com a dor: se o cérebro acredita que há uma ameaça, você vai sentir dor, não importa o quão inútil é ou quanto intensamente você se concentrarem tentar ter sensações mais razoáveis e racionais. Na maioria das vezes isso não cabe a você.

Mas também não significa que sejamos completamente impotentes. A mente tem alguma influência sobre o cérebro.

No início do artigo, eu compartilhei um lindo vídeo australiano sobre a dor crônica. Suas mensagens principais são material crítico, e em geral eu lhe dou nota máxima. Mas me preocupa que alguns de seus conselhos sejam um pouco banais.

É certamente muito importante a psicologia da dor, mas o vídeo chega perigosamente perto de aconselhar os pacientes a algo como “se você não se preocupar, será feliz” e a fazê-los acreditar no mantra “está tudo na sua cabeça” – e isso não é realmente o que queremos aqui.

Sim, a dor é uma coisa do cérebro, mas isso não deve ser simplificado tanto ao ponto de as pessoas não terem idéia do que fazer com isso ou, pior, se sentirem culpadas por isso. Pessoas com dor crônica já se sentem mal o suficiente!9 Isso é complicado! “Há coisas tão divertidas na ciência da dor e na neuroimunologia que é escorregadio adaptá-las à prática sem ir longe demais”. (Sandy Hilton, fisioterapeuta).

Na medida em que o vídeo é encorajador, eu temo que o seja pelas razões erradas: ele retrata a dor como um problema causado por um cérebro disfuncional que pode ser “retreinado”, o que é definitivamente muito otimista. Os cérebros não são cachorros terriers. Embora faça sentido tentar, não há nenhuma boa evidência de que aquilo realmente funciona, e é praticamente certo que muitas vezes não funciona. Há muitas razões possíveis para tanto.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Por exemplo, fatores estressantes e distúrbios de humor (depressão, ansiedade) podem ser praticamente invencíveis. A maioria das pessoas com dor crônica não estão apenas um pouco estressadas, elas estão muito estressadas, e amiúde por causa de grandes desafios da vida e problemas sociais que elas literalmente não podem resolver.10 Mesmo quando seus problemas são teoricamente mais gerenciáveis, a maioria das pessoas acha extremamente difícil se meter a solucionar a sua própria saúde mental. Então, enquanto é correto dizer aos pacientes para “aprender a reduzir o estresse” e “considerar como seus pensamentos e emoções estão afetando o seu sistema nervoso”, tal conselho é impraticável sem mais e melhor informação. “Considere (isso ou aquilo)” não é concreto o suficiente.

A maioria das pessoas acha extremamente difícil solucionar sua própria saúde mental.

O ponto baixo do vídeo é uma recomendação para “reconhecer emoções mais profundas”-algo ainda mais impraticável, ao ponto que muitos pacientes vão descartar isso por ser uma conversa escamosa, muito melindrosa – por envolver sentimentos. Eu entendo o que eles (os autores do video) estavam buscando, e é a ponta do iceberg de um conceito importante-a cura pelo “crescimento”-que vou discutir abaixo, mas o vídeo o simplifica ao ponto do absurdo.

Eu certamente aplaudo a ênfase em fatores psicológicos e sociais, mas para manter a coisa real também é realmente importante torná-la prática. Porque, desde que adequadamente abordado, em algumas ocasiões é de fato possível “afastar a dor”, ao ponto de reduzir o estresse, o medo e a ansiedade relativa a um problema doloroso.

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