A dor é uma ilusão – Ainda bem - Parte 2

A dor é uma ilusão – Ainda bem - Parte 2

Aprenda (muito) sobre dor examinando uma simples ilusão de ótica.

“Metáforas podem encurtar a distância que separa você de mim.”

― Haruki Murakami, Kafka on the Shore
Num post anterior mostrei o empenho de neurocientistas em convencer pessoas com dor – dor crônica, especialmente –, de que a dor que sentem, seja no ombro, no pescoço, no joelho, na barriga… é o cérebro que faz. E como eles recorrem a metáforas para passar essa mensagem.

A metáfora comentada nessa ocasião se baseou numa ilusão ótica, conhecida pelo nome de Adelson Checker Shadow Illusion. Poderiam ter sido estas outras:

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Os círculos centrais são de tamanhos diferentes, certo? Errado, são iguais.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

As linhas verdes verticais são diferentes, certo? Não, são iguais.

Moral da estória: a visão traz imagens imperfeitas da realidade, e isso nada tem de ruim. Ocorre que o papel dado pelo Criador à visão não foi o de nos dar imagens perfeitas, mas sim suficientemente perfeitas para nos proteger. (Lembremos que há dois milhões de anos – aproximadamente, claro – quando o primata recém começou a enxergar, já havia tiranossauros e outros predadores no pedaço.)

Quando a retina envia imagens para a parte posterior do cérebro (o córtex occipital)

“…algo magnífico acontece: instantaneamente, e sem você saber, o seu cérebro convoca toda sorte de experiências: coisas que você aprendeu, coisas que você sabe que conhece e coisas que você não sabe que conhece, suas expectativas, outros inputs sensoriais, memórias explícitas e implícitas”.

Painful Yarns, Lorimer Moseley
Tudo isso provoca atividade neural no cérebro, a qual modula a informação enviada pela retina. Modificada, a imagem bruta perde sua perfeição. Contudo, atenção! a visão, mesmo assim limitada, não perde seu propósito, que é “enxergar para sobreviver”. A visão fornece ao cérebro o essencial, mas não o suficiente para este definir uma imagem capaz de levá-lo a tomar uma decisão. Para conseguir isso, o cérebro, convoca inúmeras outras informações numa questão de milisegundos. Noutras palavras, você não precisa saber se o motorista do ônibus que está prestes a atropelá-lo tem bigodes ou não. Basta com perceber o vulto para sair da frente.

A essa altura o caro leitor deve estar se perguntando, e com razão, o que tem a ver a visão com a dor? Resposta: ambos são um output do cérebro.

A visão modula a imagem real e é esse o papel dela, no intuito de dar ao proprietário chance de tomar decisões rápidas e corretas para se proteger do que quer que seja. A dor é exatamente a mesma coisa. Ela é um produto modulado pelo cérebro com base em inúmeras informações, capturadas e examinadas em nanosegundos no processo perceptivo. E, ao menos no caso da dor aguda, também tem função protetiva.

Duas conclusões podem ser extraídas do anterior.

Uma ilusão é uma percepção que não combina com a realidade física. A dor é, então, como nas ilusões, uma construção mental que algumas pessoas podem decidir desligar?

Interessante. Algo a se pensar.

Se a dor é uma ilusão do cérebro, então ele pode ser enganado.

Isto, no entanto, é um argumento concreto para convencer um paciente com dor crônica benigna que a recuperação é possível. Porque assim como o cérebro caiu na conversa da dor crônica, por que não poderia ser novamente enganado, agora para sair dessa condição?

Veja outros posts relacionados...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *