A dor é uma orfã da medicina. E a educação em dor é o que, então? – Parte 1

A dor é uma orfã da medicina. E a educação em dor é o que, então? – Parte 1

O mantra da International Association for the Study of Pain (IASP) no ano passado foi o da Educação em Dor. Nos congressos profissionais focados em dor só se fala nisso, também. Todo mundo concorda: é preciso educar os pacientes em dor. Porém, em geral não é o que os profissionais da saúde fazem. Ponto. “Aquilo” não é ensinado na faculdade, não integra a descrição de cargo, não é pago pelos planos de saúde e, na opinião de alguns maledicentes, tampouco está no DNA do típico expoente da espécie. Você discorda disso? Então leia este post. Só para contrariar.

“Às vezes as pessoas não querem ouvir a verdade porque não querem que suas ilusões sejam destruídas”.

Friedrich Nietzsche

A dor, é uma orfã da medicina. A expressão, que aparece em “Symptoms and Science. The Frontiers of Primary Research”, um artigo escrito por um médico, e publicado numa prestigiosa revista médica americana , está se tornando corriqueira. Vários cientistas e clínicos se queixam de a dor não ser (aceita como) uma especialidade médica tipo cardiologia, ortopedia, dermatologia etc. pelo establishment da saúde. E também porque nenhuma dessas especialidades parece estar interessada em apadrinhá-la.

A Educação em Dor é pior ainda: ela é órfã dentro da órfã anterior. Nem tanto por falta de padrinhos, mas de praticantes, multiplicadores, educadores enfim. E quem seriam estes?

Os profissionais da saúde mais em contato com os pacientes – médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, fisiatras… Ou há outra opção?

Por uma série de motivos, no entanto, desse mato hoje (ainda) não sai coelho, no caso, o coelho da Educação em Dor. Cansa ouvir e ler isso de que “o médico é um educador” – até porque Hipócrates, o do juramento, assim o prescreveu – e, no entanto, a realidade mostra outra coisa: em geral os profissionais da saúde não educam seus pacientes em dor. Ponto. Isso não é ensinado na faculdade, não está na descrição de cargo, não é pago pelos planos de saúde e, na opinião de alguns maledicentes, tampouco está no DNA do típico expoente da espécie.

E para que ninguém fique zangado comigo (à toa, porque não me importo), antes de ouvir reações tais como: “Eu sempre explico as coisas aos meus pacientes”; “Ora, o paciente quer tirar a sua dor, e não ficar ouvindo sobre ela”; “Hoje a informação está (toda ela) no Google”; ou por fim, a (minha) desqualificação definitiva: “Ora, você não é médico” – eu (que de fato não sou médico, apenas paciente bem informado) esclareço:

Educar o paciente em dor não é dizer, falar, explicar, prescrever, dar afeto, mostrar, apontar, advertir, recomendar um livro, sorrir, oferecer um copo de água, atender pontualmente, tuitar perguntando se está tudo bem… isso, vamos, está (ou deveria estar) incluído per se, na consulta. Hipócrates talvez não tenha deixado isso por escrito, mas se subentende.

Não, educar significa fazer o outro aprender. E motivar-se para aplicar o aprendido. E isso envolve tempo, didática, recursos pedagógicos, incentivos e um plano personalizado de atividades de aprendizado para cada paciente, enquanto ele(a) se mantiver nessa condição.

Essas atividades precisam possuir algum atrativo. E também ser práticas. Desde que o blog entrou em operação, em setembro do ano passado, tenho me empenhado em criar recursos didáticos para que profissionais da saúde possam educar seus pacientes em dor – praticamente sem pagar nada. Repetindo: sem pagar. Basta com acessar o blog e usá-los.

Dias atrás, no CBDOR 2019, em São Paulo, eu apresentei o que tem sido produzido nesses 9 meses: artigos, posts, questionários de avaliação, aplicativos, e-books, vídeos, e uma coleção de postais.

Como pude perceber que quase ninguém ali conhecia esse conteúdo, proximamente vou dedicar alguns posts a divulgá-lo. (Bom seria que alguma entidade relacionada ao controle da dor no Brasil também o fizesse, afinal eu careço desse poder de fogo, o tema é de saúde pública e eu não lucro com isso… mas deixemos de delírios.)

Na largada, uma coleção de postais sobre a dor e seu gerenciamento, chamada “Entenda Porque Dói”. Se você for um profissional da saúde, clique aqui… e veja como fidelizar seus pacientes com esse recurso, e de passagem, ajudá-los a entender o que é a dor e como enfrentá-la. E se você for paciente, será que o assunto não lhe interessa?

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