A dor feminina é contaminada pelo preconceito? De quem?

A dor feminina é contaminada pelo preconceito? De quem?

Um estudo de 2001 chamado “The Girl who cried Pain” (“A Garota que gritou Dor”) apontou que os homens são mais propensos do que as mulheres a receber medicação quando relatam dor aos seus médicos. As mulheres, por sua vez, são mais propensas a receber sedativos. Por que será? Veja aqui razões nas quais provavelmente você nunca pensou.

“Não me julgue até me conhecer. Não me subestime até me desafiar. E não fale de mim antes de falar comigo”.

No mês de Agosto de 2018, na primeira edição deste blog, eu inclui um post sobre a DOR & A MULHER. O dito cujo deve ter sido muito ruim porque ninguém comentou e peço desculpas por isso. O tema, claro, é vigente e da maior importância – impossível imaginar que haja indiferença a respeito. Jamais, num país que atualmente vibra em torno do movimento “Não é não”, proferindo brados retumbantes e essas coisas.

Pois bem, com o rabo entre as pernas eu estava quando me deparei com um episódio por demais curioso, que me convenceu a retomar o assunto. Quem sabe, dessa vez…

A estória é relatada por nada menos que pelo Dr. Patrick Wall, a metade da dupla mais famosa da história do conhecimento da dor no Ocidente – os médico-cientistas Robert Melzack e Patrick Wall, autores da Teoria do Portão de Controle da Dor, que revolucionou quase tudo o sabido nos 4 séculos anteriores e abriu também o portão para os neurocientistas se embrenharem por esse campo do saber humano (e animal também, diga-se de passagem).

A “estória” é a seguinte:

Num hospital americano de grande porte – não identificado pelo Dr. Wall – enfermeiras cuidavam de duas alas de internação, uma masculina e a outra feminina. Tendo notado que o consumo de analgésicos era significativamente maior na primeira delas, a direção do hospital resolveu investigar o fenômeno a fundo.

“As enfermeiras foram cuidadosamente observadas e entrevistadas. A sua atitude consistente foi a de que se os pacientes homens se queixassem de dor era porque aquilo era sério, toda vez que todo mundo ali sabia que esses pacientes eram muito resistentes (tough) e deveriam ser levados a sério. De outro lado, elas tinham uma atitude diferente em relação a suas companheiras femininas, sobre as quais as enfermeiras achavam que faziam um grande escândalo por conta de problemas menores e por tanto deviam ser desestimadas, ou acolhidas com um mínimo de resposta.”

As infortunadas mulheres, conclui o Dr. Wall, eram vítimas do seu próprio estereotipo social. (O Dr. Wall parece ter dado como “vítimas” as pacientes. Eu já diria que “vítimas” são ambas, as pacientes e as enfermeiras.)

O contexto em que a estória aparece no livro PAIN, The Science of Suffering, de autoria do Wall, é o da influência de fatores não-físicos – fatores socioculturais, no caso – sobre a percepção da dor, seja pelo paciente, seja pelos que cuidam de sua saúde. Wall é crítico feroz do conceito biomédico da dor, o qual trata o corpo separadamente da mente e assim acaba tratando mal de (ou maltratando) ambos, o corpo e a mente.

Se você quiser saber mais sobre o quanto aspectos psicossociais influenciam – em geral para pior – o entendimento da dor da mulher na medicina clínica dita “moderna”, comente este e leia o próximo post.

Não perca Novo post sobre a MULHER na próxima semana.

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