A indústria da dor nas costas

A indústria da dor nas costas

Um dos melhores trabalhos de jornalismo investigativo nos últimos anos focou o big business da dor nas costas. Não arrisque ignorá-lo.

O muito torna-se pouco quando se deseja um pouco mais.

Quevedo
O que aconteceria se, no Brasil, eu afirmasse por escrito, num jornal online escolar, religioso, esportivo… – a orientação não faz diferença – que os bandaids podem eventualmente marcar a pele na primeira hora após você retirá-los? Ah, eu lhe digo: no dia seguinte seria processado pela Associação dos Fabricantes de Bandaids e Similares, além de receber a visita de um representante da multinacional que os fabrica me ameaçando com abrir uma ação na comarca de Nova York.

Ocorreria o mesmo, certamente, se eu criticasse a indústria da dor nas costas. Por isso, para evitar chateações prefiro ventilar essa crítica tal como proferida além dos mares. O veículo é o melhor livro já escrito sobre uma epidemia fabricada.1

Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasO nome dele é “Crooked. Outwitting the Back Pain Industry and Getting On the Road to Recovery”. Na língua inglesa, “crooked” significa torto ou desonesto. (“Nixon is a crook”, um ou outro leitor talvez lembre dessa frase célebre nos anos 70.) “Outwitting”, por sua vez, tem a ver com enganar, superar ou iludir. Então como fica a tradução do título? O leitor é quem decide, o que me parece uma forma muito inteligente de seduzi-lo. (A meu ver, poderia ser “Torta”. Enganando a indústria da dor nas costas e ingressando no caminho da recuperação”, porém, vai saber o que a autora tinha em mente).

Inteligente é ela também, a autora, Cathryn Jakobson Ramin, talvez a melhor jornalista investigativa americana no momento. Com um curriculum impressionante (Money, Barron´s, Los Angeles Times, New York Times) ela transformou o seu calvário atrás de cura ou alívio – 20 anos padecendo de dor nas costas e ciática –numa reportagem que virou pelo avesso uma indústria que hoje movimenta, só nos EUA, 200 mil internautas interessados no assunto a cada mês e mais de US$100 bilhões ao ano: a indústria da dor crônica nas costas.

Durante anos, Ramin, como é conhecida, percorreu a América e foi até o Reino Unido entrevistando clínicos, neurocirurgiões, empresários da fisioterapia e do fitness, acadêmicos e líderes de equipes hospitalares multidisciplinares. Crooked, recorrendo a uma narrativa clara e ágil, rapidamente se revela chocante e assustador. Ele dimensiona a epidemia de dor nas costas que assola os EUA, focaliza as discutíveis abordagens atualmente vigentes para lidar com isso, documenta a overdose de medicamentos e o desempenho de cirurgias inúteis e, às vezes, danosas, e por fim dá luzes sobre o que é possível fazer para obter algum alívio.

“A dor crônica faz você ajustar a sua vida para ela se encaixar na sua dor.”

Cathryn Jakobson Ramin

Destaques

De cara, Ramin derruba a chamada “Hipótese 90/10”, segundo a qual dos 30 e tantos milhões de americanos que a cada ano consultam um médico por conta de dor nas costas, 90% dispensam uma segunda consultanos próximos 3 meses por ter se curado definitivamente. A verdade é diferente: apenas 25% dos pacientes se recuperam e a maioria dos 90% que deveriam retornar ao primeiro médico não o fazem porque, desiludidos e confusos, vão procurar outros.

Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasEla descobriu também que os médicos consultados pela primeira vez funcionam como máquinas de prescrever analgésicos – incluindo opióides – e talvez fisioterapia, sem se preocupar por esta última concentrar tratamentos passivos como ultrassom, tração e TENS, de pouca ou nenhuma efetividade – o que aconteceria em um quarto dos casos. Por outro lado, embora a metade dos pacientes apresente sintomas de depressão e ansiedade – condições sabidamente características num quadro de dor crônica – a maioria carece de aconselhamento psicológico. Ou seja, enfoque biopsicossocial, uma ova!

E assim, capítulo a capítulo, Ramin prossegue arremetendo ferozmente, contundentemente, com estatísticas e testemunhos, contra a quiropraxia, as imagens laboratoriais sem poder preditivo e os erros médicos ao interpretá-las, as infiltrações epidurais com corticóides, as cirurgias de fusão lombar espinhal, e a terapia baseada em opióides. Todos eles negócios – pure business–movidos mais pela cobiça do que pela preocupação por curar ou aliviar seres humanos com dor.

“Em 2011, o American College of Physicians desaconselhouf ormalmente o uso rotineiro de exames de imagens (ex.: ressonâncias magnéticas). Conduzia a ‘…uma custosa avalanche de consultas médicas, intervenções de diagnóstico, tratamentos não cirúrgicos, procedimentos intervencionistas de gerenciamento da dor, e cirurgia…desnecessários’. Em 2013 a JAMA Internal Medicine, baseada na análise de 25 mil consultas médicas concluiu que os pedidos médicos de exames de imagens tinham aumentado.”2

Cathryn Jakobson Ramin
Eis a primeira parte do livro. Pinta-se ali um quadro assombroso (e deprimente) de quanto a indústria da dor nas costas evoca o Velho Oeste. No final das contas, inventar e vender soluções para gente com dor – qualquer dor, aliás – é um negócio como qualquer outro, cheio de tubarões e pescadores, onde peixinho não tem vez.

Na América, em todo caso; no Brasil deve ser muito diferente.

A segunda metade de Crooked é dedicada aos back whisperers, os (escassíssimos) preparadores físicos realmente especializados em reabilitar gente com dor crônica nas costas, e a uma revisão das terapias de melhor desempenho. Ela é menos tenebrosa que a primeira, e pretendo resumi-la noutro post.

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