A marca da (educação em) dor

A marca da (educação em) dor

A “Educação em Dor” é um bom produto que ainda não chegou ao seu consumidor final: o paciente com dor. O que pode estar faltando?

“O que vale a pena fazer, vale fazê-lo bem.”

Lord Chesterfield
Eu compareci no sábado a um Simpósio sobre Educação em Dor, oferecido em São Paulo pela Sociedade Brasileira de Estudos da Dor. Ali coube-me apresentar o Jogo ALÍVIO, um jogo digital que visa educar todo tipo de público em dor, um aplicativo disponível nas plataformas Apple e Google.

Porém não é disso que desejo escrever nesse momento – nesse blog encontra-se toda a informação necessária.

E nem sequer do Simpósio, por demais muito bem organizado, tanto na temática como na escolha dos 15 palestrantes, todos de primeiro nível.

E foi isso que me deixou intrigado: o excelente nível do produto e a escassa demanda que ele suscita. O tamanho (não confundir com nível, por favor) da plateia, algo modesto, não fazia jus a qualidade da informação entregue.

A faculdade de negócios onde eu fiz doutorado há tempos era – e ainda é – uma das melhores do mundo. Por conta disso, congressos, simpósios, seminários se sucediam incessantemente e claro, a gente sabia como se introduzir neles de graça. Cansei de ver empresários, cientistas e acadêmicos expondo informação. Posteriormente, a minha vida profissional fez com que eu continuasse a frequentar eventos do tipo, seja na plateia ou no palco.

Resumindo: o que eu vi ontem nada tinha a invejar ao que vira antes, dentro e fora do país. No entanto…

O paradoxo não acaba por aí. O tema era dor. Todo mundo tem dor. Os hospitais estão cheios de gente com dor. Você que está lendo já teve dor, está com dor ou terá dor no futuro – inevitavelmente.

E no entanto, aos poucos – eu sou apenas um curioso na área da saúde e não pretendo ir além disso, mas me considero um bom observador – percebe-se que a dor, o tema “educação em dor” sensibiliza poucos, muito poucos, nesse mundo. (Tal constatação é espantosa, devo dizer, se feita por um leigo.) Se você não acredita, tente responder apenas às duas perguntas seguintes:

  1. Quantas faculdades de medicina/fisioterapia/psicologia etc., mantém a DOR – isso mesmo, a DOR exclusivamente – na sua grade curricular? e
  2. (está é mais fácil) Quantas vezes na sua vida, profissionais da saúde que você consultou para aliviar alguma dor dedicou tempo para lhe educar sobre isso, a sua dor e como aliviá-la? (Não quero entrar em detalhes, mas, cá pra nós, “explicar” apenas está longe de “educar”.)

Se você respondeu afirmativamente às duas perguntas ganha um pirulito. Ou um chapéu de Pinóquio.

Estou curioso, ranço de pesquisador. Cada vez que você vê algo que “não encaixa” fica querendo encontrar “a trampita”, “a treta”…

Talvez seja a falta de uma marca de excelência. Não, não, longe de mim insinuar que no campo da educação em dor não há excelência. Como em qualquer campo do conhecimento que redunda em prática profissional deve haver de tudo. Refiro-me à marca. Eu explico.

Quinze anos o Japão demorou para se reerguer das cinzas de uma guerra perdida. Em 1960 uns carrinhos ridículos, ostentando um nome também ridículo (Toyota) começaram a chegar aos Estados Unidos. Todos riram. Nos anos 70/80, já nem tanto (eu estava lá, eu vi).

Por trás da recuperação da indústria japonesa, um nome: kaizen. O que havia por trás: um conjunto de Melhores Práticas. Você já pensou o que seria de Moisés sem “Os Dez Mandamentos”? Ninguém saberia que existiu e provavelmente estaríamos todos pecando adoidados. Bem, voltando ao assunto: os japoneses difundiram uma marca de excelência através das melhores práticas, os depois americanos copiaram e inventaram a Qualidade Total e o Programa Six Sigma, e atrás vieram as Normas ISO e hoje você não exporta um cabelo para lugar algum se não demonstrar que as cumpre à risca.

O anterior não quer dizer que convém encher a Educação em Dor de normas, não me subestime. O que quero dizer é que convém dotar a Educação em Dor de uma marca de excelência. Como? Primeiro, dizendo o que é ser excelente – cadê as Best Practices em Educação em Dor?  Segundo, fazendo coisas excelentes – cadê os Centros de Excelência em Educação em Dor. E terceiro, embalando-as com excelência – cadê o Prêmio Nacional de Educação em Dor?

Espero não ter incomodado, muito menos ofendido, os que hoje no Brasil se esforçam por mudar o absurdo relatado acima e dar a Educação em Dor o destaque que merece. Eles notoriamente existem e merecem admiração, mas receio que esse seu esforço seria muito melhor recompensado se copiassem o que outras disciplinas, como a gestão da qualidade, que também nasceram graças ao esforço de poucos, e foram menosprezadas e esnobadas por muitos, adquiriram graças a “tocar o bumbo” em torno de melhores práticas.

Morei muitos anos em Minas. Os mineiros têm um ditado que eles acham que inventaram (e talvez seja) e que é o seguinte: Quem não tem competência, não se estabelece.

Eu aqui o modificaria um pouco: Quem não mostra a competência que tem é que não se estabelece.

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