A máscara protege você? Depende. Do quê? De você – Parte 1

A máscara protege você? Depende. Do quê? De você – Parte 1
image_pdfimage_print

Há apenas 2 meses as máscaras faciais não eram recomendadas para se proteger do novo coronavírus. Atualmente vários países (ex.: Alemanha) e estados (ex.: São Paulo) tornaram o seu uso obrigatório. Fora isso, modelos matemáticos indicam que o uso maciço da proteção, combinado com medidas restritivas pontuais, impediria novo surto da doença. Uma simulação com 60 milhões de pessoas mostra que se todos usassem máscara na maior parte do tempo, não haveria segunda ou terceira onda da pandemia de coronavírus. Esta série de três posts mostra outro ângulo: máscaras faciais podem ser úteis, mas nem tanto – e utilizá-las com pleno proveito é mais difícil do que se pensa.

“Quanto mais pessoas usarem máscara, maior a chance de evitar a propagação da doença, mas isso depende muito da eficácia das que vão usar e de como vão ser usadas”.

Dr. Keith Neal, epidemiologista da Universidade de Nottingham (GB)

Autor: JULIO TRONCOSO

“Como autoproteção, sua máscara é praticamente inútil”, diz a revista Shukan Gendai. “As máscaras faciais comerciais, segundo autoridades médicas, podem bloquear partículas de 3 a 5 micrômetros. Use-as contra o pólen, sem dúvida. O coronavírus atualmente em fúria desatada, no entanto, mede 0,1 micrômetro”.

A matéria de que esse trecho faz parte foi publicada há 6 semanas e em tempo de pandemia isso equivale ao Período Paleolítico. Na época, órgãos como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) americano e a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomendavam o uso de máscaras na rua à população em geral. Ambos já mudaram de opinião, embora a OMS deixou sua relutância clara, dizendo que a utilidade das máscaras faciais “ainda não é suportada por evidências científicas diretas ou de alta qualidade”.

E com razão. O uso público de máscaras, todavia, é mais eficaz para impedir a propagação do vírus quando a conformidade é alta.

Porém, o que há de novo nessa afirmação, de que tipo de máscaras está se falando e o que é “conformidade”, no caso do seu uso?

Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasMáscara facial de tecido, lavável e não projetada para vedar ao redor do nariz e da boca.
Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasUma máscara cirúrgica é um dispositivo descartável e flexível, não projetado para vedar ao redor do nariz e da boca. Comumente usada em ambientes de assistência médica.
Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasUm respirador cirúrgico N95 é um dispositivo de proteção respiratória projetado para obter um ajuste facial muito próximo e uma filtragem muito eficiente de partículas transportadas pelo ar. Comumente usada ​​em ambientes de assistência médica, descartável e ​​de “uso único” As bordas do respirador foram projetadas para formar uma vedação ao redor do nariz e da boca.

Uma semana depois que a maioria dos países resolveu liberalizar o acesso das pessoas à rua, recomendando a elas usar a máscara facial – ou obrigando-as a tanto – parece pertinente responder essas três questões. Isso será feito em três etapas.

  • Nesse post veremos em linhas gerais o que era sabido sobre as máscaras faciais vis a vis doenças respiratórias antes da atual pandemia eclodir e os argumentos a favor do seu uso no presente.
  • Um segundo post irá examinar os fatores ambientais dos quais o uso eficaz da máscara depende (ex.: densidade grupal, carga viral…).
  • O foco do terceiro post será sobre os fatores relacionados à máscara (ex.: tipos, manipulação…).

Parece exagerado relacionar tantas coisas a um pedaço de tela dependurado nas orelhas, porém não se engane: qualquer deslize na consideração de uma ou outra pode tornar a chateação da máscara um sacrifício inútil.

A Eficácia da Máscara Facial – quem não sabia disso?

É irônico que a relativa eficácia da máscara facial para reduzir problemas respiratórios causados pelo ambiente já era bem conhecida antes da pandemia do novo coronavírus.

  • Um artigo da Dra. Allison Aiello e outros oito pesquisadores da University of Michigan (USA), é apenas um entre vários outros: “Máscaras faciais e higiene das mãos podem reduzir doenças respiratórias em ambientes de vida compartilhados e mitigar o impacto da pandemia de influenza A (H1N1)”. O Journal of the Infectious Diseases Society of America o publicou em 2010.
  • Uma revisão da Cochrane abrangendo 67 estudos sobre intervenções físicas para reduzir a propagação de vírus respiratórios constatou que “as máscaras gerais foram a intervenção com melhor desempenho entre populações, configurações e ameaças virais”. Foi publicada em 2011.

Mesmo assim, a recomendação de órgãos oficiais, leia-se CDC, OMS e até o Ministério da Saúde do Brasil, quanto ao uso obrigatório de máscaras pelo público, veio três meses após o começo da pandemia em Wuhan, na virada do ano. Hoje há evidências de que o uso de máscaras reduz a transmissibilidade por contato, filtrando gotículas infectadas. Diminui-se assim o número de mortos e o impacto econômico, enquanto o custo da intervenção é baixo. Porém, em dezembro 2019 tudo isso era conhecido. E se as máscaras poupam vidas, quantas vidas poderiam ter sido poupadas nesses 3 ou 4 meses que esses órgãos demoraram em validá-las e recomendá-las?

Deixo isso para os que um dia talvez cobrem alguma explicação dos responsáveis.

O que se sabe sobre a eficácia da máscara facial no contexto de uma pandemia viral como a do novo coronavírus?

Duas revisões sistemáticas da literatura sobre o papel das máscaras faciais numa epidemia viral se destacam: a primeira envolve 172 estudos observacionais e foi publicada na The Lancet ; a segunda consultou 102 papers sobre a matéria e pode ser acessada no site médico researchgate.

Ambas afirmam sintetizar rigorosamente as evidências disponíveis do que tem sido publicado no mundo sobre SARS, síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), Covid 19 e os betacoronavírus que causam essas doenças.

Mais especificamente, visando a Covid 19:

  • Existe o precedente: máscaras não médicas têm sido eficazes na redução da transmissão de influenza.
  • A contribuição preventiva das máscaras é inegável agora que se sabe que as pessoas são mais infecciosas no período inicial pós-infecção, onde é comum ter poucos ou nenhum sintoma.
  • As máscaras não médicas conseguem obstruir significativamente gotículas potencialmente infecciosas.
  • Os locais e períodos em que o uso de máscaras tem sido difundido, mostram uma transmissão na comunidade substancialmente mais baixa.

A conclusão é uma só: evidências a favor do uso generalizado de máscaras como controle de origem para reduzir a transmissão do novo coronavírus numa comunidade.

Cientistas das universidades de Cambridge e Greenwich recentemente disseram que combinando a permanência em casa, o uso generalizado de um máscara facial de algodão pouco sofisticada…”há muito menos propagação de doenças, ondas secundárias e terciárias são achatadas e a epidemia é controlada”, disse o estudo – uma simulação matemática baseada em uma série de suposições.

Quando as pessoas usam máscaras sempre que estão em público, isso é duas vezes mais eficaz na redução da taxa de reprodução do vírus (o valor R0) do que se as máscaras forem usadas somente após o aparecimento dos sintomas. Com toda a população usando máscara, o R0 cairia abaixo de 0,5 e uma segunda ou terceira onda seria evitada se as máscaras fossem complementadas com confinamentos pontuais e parciais por pelo menos 18 meses até se obter uma vacina.

O uso generalizado da máscara facial por parte de uma comunidade, todavia, é condição necessária, mas não suficiente, para deter a propagação do novo coronavírus. É essencial saber usá-la, e isso envolve muito mais atenção do que se imagina. Antes de sair à rua, o usuário precisa atentar para uma dúzia de fatores que ele nem sempre controla.

É o que veremos no próximo post.

Veja outros posts relacionados...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *