A máscara protege você? Depende. Do quê? De você – Parte 2

A máscara protege você? Depende. Do quê? De você – Parte 2
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O uso da máscara facial por parte de uma comunidade pode protegê-la significativamente da propagação do novo coronavírus. No entanto, esse vírus é algo assim como o avião Stealth americano, que não é detectado pelo radar: invisível, veloz e mortal. Para se proteger de uma coisa dessas é preciso atentar para vários fatores. Este post põe o foco nos cinco fatores ambientais que mais influenciam a eficácia do uso da máscara facial. 

“Usar máscara não é uma alternativa ao distanciamento físico, à proteção ocular ou às medidas básicas, como higiene das mãos”.

Dr. Derek Chu, The Lancet

Autor: JULIO TRONCOSO

No post anterior vimos que o uso da máscara facial por parte de uma comunidade pode protegê-la significativamente da propagação do novo coronavírus. No entanto, esse vírus é algo assim como o avião Stealth americano, que não é detectado pelo radar: invisível, veloz e mortal. Para se proteger de uma coisa dessas é preciso atentar para vários fatores. Uma dúzia deles, se a máscara facial for o escudo.

Alguns desses fatores dependem do comportamento da pessoa, outras, de uma atitude vigilante em relação ao ambiente em que ela irá transitar. Nesse post examinarei os cinco fatores ambientais que o usuário da máscara deve avaliar para fazer o uso da máscara valer a pena.

Vejamos:

  • Densidade grupal
  • Posicionamento
  • Local
  • Carga Viral & Dose Infecciosa
  • Distância

Densidade grupal

Quanto maior, maior a probabilidade de haver infectados no grupo. Lembremos que o novo coronavírus se transmite por contato, seja pessoal ou através de fluídos que podem ir parar em pessoas ou objetos. Imagine-se num shopping center. Você cumprimenta um amigo apertando as mãos (contato pessoal), e depois passa pelo meio de um casal que discute em voz alta (fluídos), e por fim se apoia no balcão de uma loja onde caíram gotículas do nariz de uma atendente que espirrou segundos antes e nas quais as mãos da mulher do Caixa – a mesma que irá lhe dar o seu troco em mãos se você pagar sua compra com dinheiro – logo em seguida esbarraram (fluídos, contato com objeto, contato pessoal). Agora suponha que você multiplica contatos desse tipo meia dúzia de vezes na sua passagem pelo shopping center. Obviamente, quanto maior for o seu número, maiores as chances de você se contaminar.

Posicionamento

Engenheiros belgas e holandeses simularam em laboratório a propagação de gotículas que geramos ao caminhar, correr ou andar de bicicleta. Eles concluíram que para evitar o risco de contrair o Covid-19 convém ficar 5 metros atrás de alguém que está andando, 11 metros atrás de alguém que está correndo ou andando de bicicleta devagar e 22 metros atrás de alguém que anda de bicicleta com força.

Contudo, o estudo não foi validado por pares e alguns o consideram falho. Ao ar livre é muito difícil inalar uma dose infecciosa mínima de vírus.

A revisão sistemática recém publicada no The Lancet descobriu que usar uma máscara reduz o risco de pegar o vírus em 85%, e ficar a apenas 1 metro de outros poderia reduzir em 82%. O risco diminui ainda mais a 2 metros. Cobrir os olhos com óculos ou escudos ajudou a prevenir a infecção em 78%.

Local

Obviamente, ambientes fechados com gente circulando dentro são mais infecciosos do que se você estiver ao ar livre a vários metros de uma pessoa infectada.

O lugar mais perigoso não é o local do show ou o trem lotado, mas a sala de espera de um hospital ou de uma clínica médica. Todos os espaços próximos, confinados e lotados são virais. Quanto mais um local onde pessoas eventualmente doentes ficam estacionados durante bastante tempo.

Um estudo japonês descobriu que as chances de que um caso primário transmitisse Covid-19 em um ambiente fechado era 18,7 vezes maior em comparação com um ambiente ao ar livre.

Em suma, ao ar livre o vírus pode ter dificuldade em chegar até você em uma dose alta o suficiente para realmente infectá-lo.

Carga viral & Dose infecciosa

A quantidade de partículas a que uma pessoa está exposta pode afetar a probabilidade de infecção e, uma vez infectados, a gravidade dos sintomas. Eis a carga viral de um supermercado, ou de um restaurante, ou de um banheiro público. A quantidade de vírus necessária para adoecer uma pessoa é chamada de dose infecciosa. Vírus com baixas doses infecciosas são especialmente contagiosas em populações sem imunidade significativa.

A dose infecciosa mínima de SARS-CoV-2, o vírus que causa o Covid-19, é desconhecida até agora, mas provavelmente é baixa uma vez que ele se espalha por meio de contatos interpessoais muito, muito casuais, disse W. David Hardy, professor de doenças infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

Ou seja, em comparação com outros parentes virais SARS-1 e MERS, o SARS-2 precisa de menos partículas virais para deixar uma pessoa doente.

Por outro lado, embora o vírus possa persistir no ambiente em diferentes superfícies e em diferentes ambientes, ele perde a “infecciosidade” ao longo do tempo. Então, mesmo alguém inalando um grande número total de partículas de vírus, se apenas um pequeno número delas for infecciosa, corre-se um risco muito menor de realmente ser infectado.

De qualquer maneira, ainda não se sabe quantas partículas virais do SARS-CoV-2 são necessárias para desencadear uma infecção. O Covid-19 é muito contagioso, mas isso pode ocorrer porque poucas partículas são necessárias para a infecção (a dose infecciosa é baixa) ou porque as pessoas infectadas liberam muitos vírus em seu ambiente. O que nos leva a comentar sobre a carga viral do ambiente.

A carga viral de uma pessoa é a quantidade de vírus que a pessoa tem consigo num momento dado. Noutras palavras a diferença entre a quantidade de vírus (partículas virais) que ela pega do ambiente e a quantidade de vírus que elimina graças a seu sistema imunológico (anticorpos).

A carga viral alta aumenta a capacidade de transmitir o vírus para outras pessoas. Em geral, quanto mais vírus a pessoa tiver nas vias aéreas, mais vírus ela liberará quando expirar ou tossir, embora exista muita variação de pessoa para pessoa.

Agora imagine a sala de espera numa clínica médica com 7 pessoas presentes. Grosso modo, a carga viral desse ambiente depende (figurativamente) da somatória das cargas virais das pessoas que por ali transitaram ou estacionaram até o presente momento nas últimas horas, ou minutos, ou segundos. Quanto maior ela for, maior a probabilidade de este estar infectado. E nesse caso, a eficácia da máscara quanto a proteger a(s) pessoa(s) do vírus será prejudicada.

Distância

A distância mais segura a se manter de uma pessoa potencialmente infectada ainda é incerta. Ela oficiosamente varia de um a dois metros – nos países da língua inglesa é comum mencionar 1,8 metros ou 6 pés – e desde que um infectado não tussa ou espirre por perto. Nesses casos, o vírus pode viajar até 6 metros pelo ar e ficar suspenso por uns minutos na forma de aerossóis (embora em quantidades insignificantes).

“Os resultados mostraram uma redução no risco de 82% com uma distância física de 1 m, tanto na área da saúde quanto na comunidade (odds ratio ajustada [aOR] 0 · 18, IC95% 0 · 09–0 · 38). Cada 1 m adicional de separação mais que dobrou a proteção relativa, com dados disponíveis de até 3 m (alteração no risco relativo [RR] 2 · 02 por m; interação p = 0 · 041)”.1

Por incrível que pareça, teoricamente 60 centímetros de diferença fazem enorme diferença em termos de risco de infecção. Segundo cálculos matemáticos (que eu não garanto) se você cruzar com 100 pessoas numa rua do centro de San Francisco (EUA), terá 19% de chance de ser infectado, mas apenas uma chance de 0,8% a uma distância de 1,8 metro.2

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