A máscara protege você? Depende. Do quê? De você – Parte 3

A máscara protege você? Depende. Do quê? De você – Parte 3
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O uso da máscara facial por parte de uma comunidade pode protegê-la significativamente da propagação do novo coronavírus. Não é a comunidade, porém, que veste uma máscara, mas o Pedro, a Eliana e o Joaquim. A escolha e o uso corretos da máscara facial é hoje um dos gestos mais pessoais do planeta: cada qual a veste como quer e depende de cada um fazer valer o sacrifício de usá-la o tempo todo, evitando contaminar a si mesmo e contaminar outros. Este post põe o foco nos sete fatores comportamentais que mais incidem nesse desempenho.

“Muito disto se resume ao que você faz para se proteger. Tudo está fechado, o governo fez tudo o que pode, a sociedade fez tudo o que pode. Agora é com você!”

Andrew Cuomo, Governador de Nova York no meio da quarentena

Autor: JULIO TRONCOSO

Nos dois posts anteriores vimos que o uso da máscara facial por parte de uma comunidade pode protegê-la significativamente da Covid 19. O primeiro post mostrou o quanto o uso da máscara facial, se bem conduzido, pode ajudar – junto com outras medidas de higiene – a diminuir a propagação do vírus que causa a doença: o novo coronavírus. O segundo post já mostrou que isso não é fácil. Esse vírus é invisível, veloz e mortal. Para a máscara funcionar com eficácia é preciso atentar para fatores que dependem não só do ambiente em que será usada, mas também do comportamento do usuário em relação a ela. Neste post examinarei sete fatores desse tipo.

Vejamos

  • Tipo de máscara
  • Tecido e filtros
  • A colocação/manuseio da máscara
  • Tipo de exposição
  • Clima
  • Tempo de exposição
  • Quem você é

Tipo de máscara

Qualquer avaliação deve levar em conta o benefício da máscara em termos de filtragem do vírus em duas direções distintas: a habilidade da máscara para proteger o usuário de partículas virais vindas de fora (a ENTRADA); e a capacidade da máscara para bloquear partículas virais emitidas por ele próprio (a SAÍDA).  Diferentes tipos de máscara oferecem diferentes níveis de proteção, porém infelizmente a maior parte das pesquisas sobre qual seria o melhor tipo de máscara em qualquer dessas duas instâncias se baseia na influenza e não na Covid 19.

Se usada adequadamente, uma máscara cirúrgica deve ajudar a bloquear gotículas, respingos, sprays ou respingos de partículas grandes que podem conter germes (vírus e bactérias), impedindo-a de atingir a boca e o nariz. As máscaras cirúrgicas também podem ajudar a reduzir a exposição de sua saliva e secreções respiratórias a outras pessoas. Porém, elas não filtram nem bloqueiam partículas muito pequenas no ar que podem ser transmitidas por tosses, espirros ou determinados procedimentos médicos (aerossóis). As máscaras cirúrgicas também não fornecem proteção completa contra germes e outros contaminantes, devido ao ajuste frouxo entre a superfície da máscara e o rosto.1

“… máscaras e respiradores reduziram o risco de infecção em 85% (aOR 0 · 15, 95% IC 0 · 07–0 · 34), com maior eficácia nos serviços de saúde (RR 0,30, 95% IC 0 · 22–0 · 41) do que na comunidade (0 · 56, 0 · 40–0 · 79; p interação = 0 · 049). (Os pesquisadores) atribuem essa diferença ao uso predominante dos respiradores N95 nos serviços de saúde; em uma sub-análise, os respiradores foram 96% efetivos (aOR 0,44, IC 95% 0,004–0,30) em comparação com outras máscaras, 67% efetivos (aOR 0,33, 95% IC 0,17 –0 · 61; p interação = 0 · 090). Para os profissionais de saúde nas enfermarias COVID-19, um respirador deve ser o padrão mínimo de atendimento.”2

Ao que parece, os respiradores N95 de grau cirúrgico oferecem o mais alto nível de proteção contra a infecção por Covid-19, seguidos muito de perto por máscaras de grau cirúrgico. No entanto, além de não haver evidências de cunho científico quanto a isso, os respiradores N95 são caros, com suprimento limitado, contribuem para o desperdício em aterros e são desconfortáveis ​​para uso por longos períodos.3

As evidências sobre o valor protetor de máscaras de papel descartáveis ​​ou revestimentos de pano reutilizáveis ​​são menos claras, mas ainda sugerem que as máscaras faciais podem contribuir para reduzir a transmissão do Covid-19. Uma análise da Royal Society disse que isso incluía máscaras faciais de pano caseiro. Numa Nota Técnica muito bem fundamentada, a Comissão de Acompanhamento e Controle de Propagação do Coronavírus da Universidade Federal do Paraná (UFPR) recomenda o uso de máscaras caseiras, desde que confeccionadas de modo adequado, (porém) especialmente para reduzir a transmissão do vírus por indivíduos assintomáticos.4

Tecidos e filtros

Os estudos realizados com diferentes tecidos até agora têm mostrado baixa eficiência de barreira para ENTRADA de partículas pequenas (chamadas de aerossóis). Por exemplo, máscaras feitas de tecidos (camiseta de algodão, lenço, toalha) permitiram a entrada de 74 a 90% dos aerossóis. Máscaras do tipo N95, nesses mesmos experimentos, permitiram a entrada de apenas 0,12% dos aerossóis.

Segundo cálculos matemáticos, uma proteção de 70% equivale ao usuário da máscara estar três vezes mais distante do potencial infectado do que na realidade está. Ou seja, se a distância entre os dois for de 1 metro, com a máscara a proteção seria a mesma do usuário estar a 3 metros do outro sem ela.5

“…respiradores e máscaras multicamadas são mais protetoras do que máscaras de camada única. Essa descoberta é vital para informar a proliferação de designs de máscaras de pano feitas em casa, muitas das quais são de camada única. Uma máscara de pano bem projetada deve ter tecido resistente à água, várias camadas e bom ajuste facial.”6

Com relação à SAÍDA de partículas pelas máscaras de tecido caseiras de algodão, um estudo da Cambridge University (RU) publicado em 2013… “observou que a máscara cirúrgica reduziu em 85% a eliminação de bactérias para o ambiente, enquanto a máscara caseira feita com tecido de algodão (de camiseta) reduziu em 78% a eliminação de bactérias no ambiente.”7

A Comissão de Acompanhamento e Controle de Propagação do Coronavírus da Universidade Federal do Paraná (UFPR) já divulga algo diferente:

“Até o momento, os tecidos avaliados por diferentes autores que trouxeram alguma capacidade para reduzir a liberação de gotículas para o ambiente sem causarem grande desconforto respiratório para os usuários foram algodão 100% (camiseta e pano de prato de trama mais grossa). Mais recentemente tem-se usado TNT.”8

Se for verdade, esse tipo de máscara ofereceria uma proteção equivalente a ficar três vezes mais distante do potencial infectado do que o usuário efetivamente está. Infelizmente, a Comissão não revela suas fontes.

O que é um bom material de filtro caseiro?

Os especialistas recomendam a inclusão de um filtro no meio do tecido para ajudar a capturar as partículas adequadamente. Toalhas de papel, filtros de café, tecidos e outros materiais podem ser acoplados às máscaras caseiras. Mas são mais eficazes?

Ao que parece, materiais de filtro como HEPA (High Efficiency Particulate Arrestance), uma tecnologia empregada em filtros de ar com alta eficiência na separação de partículas, ou polipropileno, são o padrão-ouro, no caso. Eles devem ser colocados entre duas camadas de tecido, como algodão, seda ou nylon, quando as máscaras estiverem sendo produzidas.

O uso do filtro garante que todas as partículas de ar sejam filtradas de maneira eficaz, enquanto o tecido evita que a respiração absorva os materiais do filtro.

Os filtros do ar condicionado também podem funcionar, desde que não contenham fibra de vidro. Mas, e os filtros de café, toalhas de papel e lenços de papel? Ao que parece, essas opções não são muito eficazes para filtrar partículas microscópicas. As máscaras exigem limpeza e filtros de café, toalhas de papel e lenços são bons para apenas um uso, não são laváveis.

A colocação/manuseio da máscara

“Quando usadas adequadamente, as máscaras cirúrgicas podem prevenir infecções transmitidas por gotículas”. Talvez seja essa uma das recomendações anti-Covid 19 atualmente mais viralizadas na internet. Ela ali aparece traduzida em mais de vinte línguas. Contudo, o interesse por saber se (e quanto) a máscara protege ou não do vírus faz com que a maioria das pessoas ignore, ou sequer leia, as três primeiras palavras. E ocorre que são as mais importantes da sentença, uma vez que se mal usada, a máscara pode até facilitar a propagação do vírus materializando fômitos (objetos ou substâncias capazes de absorver, reter e transportar organismos contagiantes de um indivíduo para outro, como roupa, tigelas de comida, toalhas, instrumentos, cobertores, brinquedos contaminados…).

Como usar corretamente a máscara? Fácil: evitando cometer erros que todos cometem910, tais como:

  • Colocar a máscara sem antes lavar as mãos com água e sabão;
  • Deixando espaços soltos entre a máscara e a face;
  • Tocando a máscara enquanto estiver fazendo uso dela;
  • Deixando de substituir a máscara assim que perceber que ela ficou úmida;
  • Retirar a máscara pela parte da frente, ao invés de segurando-a pela fita que a amarra;
  • Esquecendo de colocar a máscara num saco plástico separado até o momento em que for lavar (o mais breve possível);
  • Deixando de lavar as mãos com água e sabão, assim que retirar a máscara; e
  • Deixando de lavar uma máscara (se ela for caseira de tecido), com água e sabão e de se certificar de que ela esteja bem seca antes de reutilizar.

Tipo de transmissão (espirro/respiração rápida)

Se você estiver a um metro e meio de distância de quem espirar na sua frente, muitas gotículas e aerossóis se dispersarão antes de poder inalá-los – principalmente se você estiver ao ar livre. Num ambiente fechado, porém, estudos de laboratório provam que tossir e espirrar pode projetar partículas de vírus a seis metros de distância – a uma velocidade de 50 metros/segundo (espirro) ou 10 m/s (tosse), tornando a zona de proteção de dois metros de pouca ajuda sem uma barreira adicional na forma de uma máscara.11

Clima

O tempo mais caloroso, pensa-se, pode reduzir a propagação da Covid 19. A conferir dentro de 3 meses. Não há dúvida, porém, de que as doenças relacionadas ao calor aumentem, agora exacerbadas pelo uso de máscaras faciais. Teme-se o aumento de casos de exaustão por calor e insolação. A Associação Japonesa de Medicina Aguda, por exemplo, não só pediu às pessoas que bebam água, mas que também removam suas máscaras em intervalos regulares, para diminuir o risco de aumentar as frequências cardíaca e respiratória. Atentas ao enorme mercado potencial, diversas empresas japonesas estão testando máscaras feitas com materiais de alta tecnologia ou refrigeradas. Enquanto a Mizuno Corp. usa um material macio e tricotado igual ao de seus trajes de banho e roupas de atletismo, a Knit Waizu vende máscaras de pano equipadas com bolsas de gelo, capazes de resfriar o usuário por uma a duas horas.12

Tempo de exposição

Seu risco de pegar o coronavírus parece ser dependente da dose. Ou seja, quanto mais tempo você estiver exposto a ela, maior a probabilidade de obtê-lo. O novo coronavírus se espalha principalmente através de gotículas respiratórias produzidas quando uma pessoa infectada tosse ou espirra, mas também entre pessoas que estão em estreito contato umas com as outras (a menos de um metro). O grau de periculosidade infecciosa desses fatores depende de um terceiro: o tempo de exposição. O risco de infecção aumenta, por exemplo, se a pessoa demorar num local onde fatalmente acabe por se distrair tocando em superfícies contaminadas ou sendo exposta a gotículas ou aerossóis expelidos por outrem transitando ou estacionados no recinto. Quinze a 30 minutos em contato próximo aumentam significativamente seu risco.

Contudo, o Centers for Disease Control and Prevention americano alerta que os dados para informar mais precisamente sobre tempos de exposição seguros e o que seja “contato próximo”, ainda são limitados.

Quem você é

Pessoas com mais de 60 anos e pessoas com condições médicas subjacentes devem usar uma máscara de grau médico quando estão em público e não conseguem se distanciar socialmente, disse a OMS. Ao público em geral, basta uma máscara de tecido de três camadas nessas situações. O pessoal que trabalha em ambientes de saúde em geral deve usar a máscara cirúrgica, enquanto a máscara N95 é reservada para os que estão na linha de frente, profissionais atuando em programas de proteção respiratória em instituições de saúde, especialmente em UTI´s.13

PALAVRA FINAL

Se o uso de uma máscara impedir uma alta porcentagem de entrada no sistema respiratório, o benefício é evidente. Em regiões com alta incidência de Covid-19, o seu uso universal, combinado com o distanciamento físico, pode reduzir a taxa de infecção (achatar a curva), mesmo com máscaras modestamente eficazes.14

Baseados num modelo matemático levando em conta uma infinidade de variáveis relacionadas ao controle da epidemia do Covid 19, pesquisadores da Harvard Medical School e da Arizona State University, concluíram que:

“O uso de máscaras faciais eficazes (como máscaras cirúrgicas, com eficácia estimada ≥ 70%) em público pode levar à eliminação da pandemia se pelo menos 70% dos residentes do estado de Nova York usarem essas máscaras em público de forma consistente (em todo o país , será necessária uma conformidade de pelo menos 80% usando essas máscaras). O uso de máscaras de baixa eficácia, como máscaras de pano (com eficácia estimada inferior a 30%), também pode levar a uma redução significativa da carga de Covid-19 (embora eles não sejam capazes de levar à eliminação).”

Em suma, embora as máscaras faciais médicas não garantam 100% de proteção para o usuário, elas ainda reduzem consideravelmente a probabilidade de infecção e, ao trabalhar para achatar a curva, qualquer redução nas taxas de transmissão é bem-vinda.15

Nunca está demais lembrar que o uso das máscaras de qualquer tipo para se prevenir da contaminação viral, pode gerar nos usuários uma falsa sensação de segurança, levando-o a negligenciar os fatores dos quais depende a sua eficácia.16

O uso indiscriminado de máscaras de baixa eficácia por parte da população pode contribuir muito à eliminação da pandemia, porém somente se em conjunto com outras estratégias de intervenção anti-Covid-19. Este artigo mostrou que fatores como manter a maior distância possível, limitar o tempo de exposição e melhorar a ventilação do ar e vários outros trabalham a favor da máscara, mas também podem torná-la inútil.

Isso significa que você precisará assumir mais responsabilidade por sua própria segurança facial. O primeiro passo nessa direção é respeitar o inimigo, uma partícula viral 10.000 vezes menor que um milímetro, quase um milésimo da largura de um cabelo humano. Se uma pessoa fosse do tamanho da Terra, o vírus seria do tamanho de uma pessoa. Admita então que uma máscara caseira não irá proteger plenamente da contaminação, que nem sequer a cirúrgica consegue isso, e que um respirador N95 é para poucos. Assim sendo, se for sair de casa antes de lançar mão da sua máscara considere o que haverá pela frente – pessoas, local, espaço e tempo – e avalie se vale o risco. E se a decisão for positiva, não esqueça de usar a máscara certa e etc, etc, etc…

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