A minha dor é o quê, doutor? Especifique, especifique...

A minha dor é o quê, doutor? Especifique, especifique...

A menos que você tenha sido atropelado por um caminhão nas últimas horas, ficar sem saber a causa de sua dor nas costas após uma primeira consulta médica não tem nada demais. Não. Não estou sendo irresponsável, muito menos menosprezando a sua dor, se for o caso. Apenas nesse post desejo evitar que você se angustie e piore sua dor, vendo fantasmas onde só tem um lençol agitado pelo vento.

“Pode ser névoa, não necessariamente poluição”.

Não sei o que estressa mais uma pessoa com dor nas costas após a sua primeira consulta médica: receber um diagnóstico definitivo de que sua dor é crônica e se deve a uma falha estrutural X ou Y, ou ouvir que a tal dor é do tipo “não específica”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a prevalência ao longo da vida de dor lombar inespecífica (comum) era estimada em 60% a 70% em pacientes em países industrializados, há dez anos atrás.

Uma década antes, após consultar fontes americanas, três professores do University Medical Center holandês concluíam que a dor nas costas não específica afetava acima de 90% dos pacientes que se apresentavam num Pronto Socorro ou num consultório médico ou de fisioterapia se queixando disso pela primeira vez.

Se pensamos que o panorama da dor nas costas em geral não melhorou de lá para cá, extrapolando vemos que as chances de um diagnóstico tácito de dor nas costas não específica é, até certo ponto, previsível e… normal. (Digo “tácito” porque, segundo um médico experiente me confessou sob condição de anonimato: “Dificilmente um interno vai reconhecer sua ignorância oficialmente” – o que, convenhamos, também é comum em todas as profissões.)

O que não significa que a dor lombar não específica seja necessariamente inofensiva. Ela é um dos principais contribuintes para a incapacidade em todo o mundo.

“As diretrizes de gerenciamento endossam a triagem para identificar os casos raros de dor lombar causados por patologias clinicamente graves e, portanto, requerem investigação diagnóstica ou encaminhamento especializado, ou ambos.”

Por isso, o blog já fez várias publicações sobre ela. Um desses artigos, de autoria de um grupo de cientistas europeus, por sinal, é completíssimo.

O diabo é que continuam a chegar comentários de visitantes do blog que se mostram angustiados por não ter sua dor nas costas especificada. E assim eles ficam sem chão, ruminando calamidades mil, como se aquilo significasse ser desterrado à Venezuela ou coisa pior – se é que existe algo pior do que isso.

Nesse post, então, vou revisitar o tema no intuito de acalmar as águas.

Um excelente artigo de autoria de dois médicos ligados à Universidade Federal da Bahia, ajuda a traçar o campo do jogo. Se você aparecer num Pronto Socorro se queixando de dor nas costas, existem três possibilidades:

  • Que haja uma doença específica por trás disso;
  • Que a dor seja neuropática, isto é, associada à lesão ou doença do sistema nervoso – das vias neurais periféricas e centrais;
  • Que ela seja não específica. Ou seja, não atribuível a uma patologia específica conhecida e reconhecível (Ex.: trauma, infecção, artrite reumatoide, tumor, osteoporose, fratura da coluna lombar, hérnia discal, deformidade estrutural, distúrbio inflamatório, vasculopatia, síndrome radicular ou síndrome da cauda equina etc.)

Porém, é apenas um primeiro passo. Os avanços obtidos nos últimos 30 anos na neuroanatomia da coluna vertebral melhoraram enormemente a compreensão da inervação da região lombar, hoje também tida como a mais provável causa de uma dor não específica em geral, e nas costas, em particular.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Várias técnicas validadas cientificamente hoje existem para identificar com precisão qual estrutura na região lombar pode ser a fonte de dor, proporcionando assim ao paciente um diagnóstico objetivo e a possibilidade de tratamento lógico e específico.

“Com as informações coletadas via consultas clínicas, estudos de imagem e técnicas de diagnóstico, podemos diagnosticar aproximadamente 70% da dor lombar”.1

Eu não apostaria tanto no poder preditivo dos exames de imagem e sua interpretação. Num estudo muito premiado, Boos e outros acompanharam pacientes com hérnia de disco por 5 anos e descobriram que as anormalidades identificadas via exames de ressonância magnética em discos intervertebrais eram menos determinantes que as características físicas e os aspectos psicológicos do trabalho quanto a prever a necessidade de consultas médicas sobre lombalgia.

Ou seja, “…a associação entre queixas clínicas e exame patológico concomitante com achados radiológicos deve ser considerada com cautela. Além disso, mesmo quando há anormalidades, o estabelecimento de uma causa e efeito diretos entre o achado patológico e a condição do paciente provou ser ilusório e, na maioria das vezes, não ajuda muito no tratamento”.2

Contudo, os exames de imagem podem ajudar muito se integrados numa avaliação biopsicossocial do paciente. Identificar casos raros de dor lombar causados ​​por patologias clinicamente graves e que, portanto, requerem investigação diagnóstica ou encaminhamento especializado, ou ambos, é imprescindível. Sem esses exames aquilo seria impossível ou quase. Dessa forma é provável que em não mais de duas consultas seguintes saia fumaça. (Não da sua coluna, relaxe. É uma analogia com o símbolo que decreta o “Papa habemus, você entendeu isso, suponho. Se não, pode-se considerar excomungado.)

Enfim, o primeiro ponto a ser destacado, então, é o de que, a menos que você tenha sido atropelado por um caminhão nas últimas horas, ficar sem saber a causa de sua dor nas costas após uma primeira consulta médica não é nada demais.

Um segundo ponto é que a dor lombar reportada pela primeira vez, específica ou não, amiúde se cura sozinha. Num estudo americano, 421 pacientes com dor lombar foram acompanhados durante um ano.

Os resultados foram os seguintes:

  • 50% das pessoas com dor lombar se recuperam em 2 semanas sem tratamento.
  • 70% das pessoas com dor lombar se recuperam em 1 mês sem tratamento.
  • 90% das pessoas com dor lombar se recuperam em 3-4 meses sem tratamento.


Nada mal, diriam os otimistas. Já os pessimistas iriam se concentrar na metade dos 10% restantes que não respondem a terapias passivas (ex.: fisioterapia); e sobretudo nos 5% restantes. Estes já irão precisar de mais exames e, talvez, de bisturi.

A taxa de reincidência da dor lombar, convém dizer, é altíssima: aproximadamente 60% de chance de se experimentar outro episódio de dor lombar dentro de 3-6 meses. Porém, esses são outros quinhentos que, por sinal, dependem menos de diagnóstico e mais de falta de tratamento adequado e bem feito.

A dor lombar reportada pela primeira vez, específica ou não, amiúde se cura sozinha.

E falando em tratamento. Segundo a prestigiosa revista científica The Lancet, o que cabe no caso de uma dor crônica nas costas não específica é nada diferente do requerido diante de qualquer dor crônica: focar na redução da dor e na recuperação da função. A melhora na Qualidade de Vida vem por consequência.   Isso envolve um composto de educação em dor, medicamentos analgésicos, terapias não farmacológicas e follow-up oportuno idealmente a cargo de uma equipe multidisciplinar. Na falta desta última, o autogerenciamento é o único caminho. A boa notícia é que o curso clínico da dor lombar geralmente é favorável, portanto, muitos pacientes requerem pouco ou nenhum tratamento médico formal.

Conclusão: não se justifica, nem convém à saúde, se amargurar por carecer de esclarecimentos a respeito da natureza de uma dor nas costas numa primeira instância. Não é uma questão de “não tudo está perdido”, mas outra que diz: “Eu vou sair dessa se mantiver a cabeça fria, estudar bem o que está acontecendo comigo, cumprir o tratamento à risca e… tiver sorte”.

A sorte corre por conta de achar a orientação profissional certa o antes possível.

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