A pantomima da Cloroquina

A pantomima da Cloroquina
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Apesar dos resultados positivos observados com o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em alguns pacientes hospitalizados com doença por coronavírus 2019 (Covid-19), começaram a surgir preocupações em todo o mundo sobre como esses medicamentos afetam a saúde cardiovascular dos pacientes, especificamente o coração. A segurança e eficácia dos medicamentos nessa área foram alvo de críticas devido à falta de dados acionáveis ​​de ensaios clínicos em larga escala.

Mesmo com essas dúvidas, alguns governos conseguem passar por cima da comunidade científica e médica e literalmente “decretar” o uso da medicação. O Brasil é um desses (poucos) países. Qual pode ser a motivação por trás disso?

“A pessoa que toma o medicamento deve se recuperar duas vezes, uma vez da doença e outra vez do medicamento”.

William Osler, MD. Considerado “O pai da medicina moderna”.

Há dois meses publiquei um post sobre a cloroquina. Vou usá-lo como ponto de partida para resumir o ocorrido até hoje, dia em que os (poucos) defensores dessa droga finalmente venceram a parada.

06.04

TRUMP advoga a favor da cloroquina – “todos deveriam tomar” – apesar da opinião contrária dos seus assessores científicos no Grupo Tarefa da Casa Branca, e do asco dos cientistas e médicos.

10.04

A American Heart Association, o American College of Cardiology e a Heart Rhythm Society emitem orientações conjuntas na semana passada, por suas preocupações com o uso de hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes com doença cardíaca que contraem o vírus.

13.04

Um estudo preliminar realizado no Brasil sobre o uso de cloroquina para tratar pacientes com sintomas do novo coronavírus é interrompido depois que 11 pessoas morreram. Os pesquisadores descobriram que uma dose alta do medicamento pode levar a quadros severos de arritmia ou batimentos cardíacos irregulares.  A pesquisa abrangeu 81 pacientes que foram hospitalizados com sintomas de COVID-19 em Manaus.

23.04

O Conselho Federal de Medicina do Brasil autoriza o uso da hidroxicloroquina em três cenários:

  • O primeiro, no caso de paciente com sintomas leves, em início de quadro clínico, em que tenham sido descartadas outras viroses (como influenza, H1N1, dengue) e exista diagnóstico confirmado de Covid-19.
  • A segunda hipótese é em paciente com sintomas importantes, mas ainda sem necessidade de cuidados intensivos, com ou sem recomendação de internação.
  • O terceiro cenário possível é em paciente crítico recebendo cuidados intensivos, incluindo ventilação mecânica. Porém, ressalta o Parecer do CFM, é “difícil imaginar que em pacientes com lesão pulmonar grave estabelecida e, na maioria das vezes, com resposta inflamatória sistêmica e outras insuficiências orgânicas, a hidroxicloroquina ou a cloroquina possam ter um efeito clinicamente importante”.


Enquanto isso, a Sociedade Internacional de Quimioterapia Antimicrobiana Internacional que semanas antes publicara um estudo francês avaliando positivamente o uso da cloroquina mudava de ideia: “O artigo não atende ao padrão esperado da sociedade”.

Alguns hospitais na Suécia param de fornecer hidroxicloroquina para tratar o coronavírus após relatos de efeitos colaterais adversos graves, segundo a mídia sueca.

08.05

Um estudo observacional feito em um grande hospital de Nova York, nos Estados Unidos, conclui que a hidroxicloroquina não é recomendada para tratar pacientes com coronavírus, a menos que dentro de um ensaio clínico randomizado. O artigo foi publicado no The New England Journal of Medicine (NEJM).

18.05

TRUMP confessa ele próprio tomar cloroquina, embora sem especificar o motivo. Cientistas e médicos unanimemente continuam condenando o seu ato. A procura por cloroquina dispara nas farmácias americanas.

20.05

Sem eficácia comprovada, o Ministério da Saúde do Brasil libera prescrição da cloroquina para todos os estágios da Covid-19. Ressalva que não salva o Conselho Federal de Medicina de sua responsabilidade: ‘fica a critério do médico, sendo necessária também a vontade declarada do paciente’.

Já leu? Agora esqueça TODO o lido. TUDO. Serve para NADA. Esse pingue-pongue com as “otoridades” dos Estados Unidos e do Brasil puxando o uso da cloroquina para cima, e a comunidade científica e médica em peso, puxando-a para baixo… É absolutamente inócuo, inútil.

Porque sugere haver um debate quanto a se a cloroquina cura, tem efeitos colaterais ou até mata. E ocorre que não há debate nenhum quanto a essas minúcias médicas.

De fato, várias pesquisas estão em andamento pelo mundo afora para uma combinação de medicamentos, incluindo cloroquina, hidroxicloroquina e um antibiótico chamado azitromicina, para o tratamento de pacientes com Covid-19. Mas, até o momento, não há evidências científicas avalizando o o uso efetivo da cloroquina na prevenção ou no tratamento da doença. E isso, em se tratando de medicamentos, drogas etc. é como carecer de cédula de identidade, CPF e CNH, tudo junto.

Desencane, portanto. As decisões tomadas pelos que autorizam o uso da droga, e pelos que deveriam contestar essa autorização, mas não o fazem… em ambos os países – que em muito se assemelham na péssima condução do combate ao Covid-19 – não são técnicas, nem sérias…

São 100% políticas.

E no plano político, a cloroquina pode ser veneno ou afrodisíaco, tanto faz. Ela é apenas um peão num jogo de xadrez ao qual os que estão desfalecendo e falecendo na linha de frente nos hospitais, os que deveriam entrar neles para serem tratados por doenças crônicas, os que pertencem a grupos de risco, os que estão confinados… Não foram convidados.

Deve ter dinheiro, prestígio ou poder por trás dessa teimosia burra, perigosa e solitária, em prol da cloroquina. Só pode ser.

A conferir.

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