Estou escrevendo este artigo para compartilhar minha história não apenas como um estudante de fisioterapia que começou a tratar pacientes com dor persistente, mas também como um indivíduo que passou por vários anos de dor crônica no passado. Minha esperança é que minha história forneça uma visão tanto para fisioterapeutas quanto para pacientes. Embora as experiências com a dor sejam muito diferentes, suspeito ser possível identificar temas familiares com os quais estes possam se relacionar, como eu fiz ao ler histórias de pacientes no início da minha jornada. Espero que esta reflexão ajude a transmitir um senso de otimismo para o futuro e demonstre que as pessoas têm o potencial de atingir um ponto em que a dor não faz mais parte de sua vida, assim como aconteceu comigo.

Minha experiência

Por conta de três luxações patelares antes dos 18 anos, sofri com dores persistentes por mais de três anos. Começou com dor na banda iliotibial, posteriormente acompanhada de dor ciática e glútea. Ao longo desses três anos, reuni-me com pelo menos cinco profissionais de saúde, os quais articularam as mesmas questões biomecânicas para explicar minha dor:

“Seus glúteos estão flácidos.”
“Você está sem controle pélvico.”
“Você tem a força de uma criança de 80 anos.”

Embora eu cumprisse meticulossamente todo e qualquer programa de reabilitação, a dor nunca melhorou. O mais frustrante foi que eu não conseguia identificar o que poderia tornar isso pior ou melhor; parecia haver um padrão muito imprevisível. Às vezes, a banda iliotibial doía, então a dor nas costas aumentava. Às vezes, o esporte piorava as coisas, mas lembro-me de estar no meu pior momento quando não jogava esporte algum. Eventualmente chegou a um ponto em que a dor não só estava afetando o meu esporte, mas também a minha vida diária, meu trabalho, meu humor e tudo mais. E para ser sincero, eu não via uma saída. O que você pode pensar se com 20 anos de idade, a ideia de receber uma prótese no joelho lhe é apresentada!

A resposta

Um fisioterapeuta me explicou que o que poderia ter começado como uma lesão normal agora se transformara em um problema muito mais complexo pelo qual meu Sistema Nervoso Central (SNC) se tornara hipersensível à dor, o que fornecia uma explicação para sua natureza aparentemente imprevisível. Claro, eu não acreditei nele na época! Mas aquele terapeuta passou muito tempo me educando sobre o que estava acontecendo, e trouxe dois grandes problemas à minha atenção:

Movimento cauteloso:

Com o tempo, percebi o quão lenta e cautelosamente eu me movia durante todo esse tempo e como estava subconscientemente guardando e protegendo minha perna esquerda. Comecei a notar estratégias internas que eu tinha desenvolvido para me poupar da dor. Se eu tivesse que pegar algo no chão, eu agachava a perna direita para “proteger” a esquerda. Ao fazer até mesmo as tarefas mais simples (sentar-se, por exemplo) eu grunhia, gemia ou fazia caretas, prendendo a respiração como se estivesse tentando mover uma pedra! Cada pequena atividade que eu fazia era trabalhosa, realizada de maneira tensa e rígida.

A importância do estresse e da saúde sistêmica e seu efeito sobre a dor:

Aprendi também como o estresse, a falta de sono, a frustração e a ansiedade podem afetar nosso sistema como um todo.  O terapeuta me explicou que a dor é um estressor e enfatizou a importância de trazer os níveis de coisas como o cortisol (muitas vezes chamado de “hormônio do estresse”) e a adrenalina para níveis mais normais ao longo do dia.

Recuperação

Aprendendo gradualmente a me livrar desse medo de causar mais danos à minha perna, ao mesmo tempo em que aprendia a administrar meus níveis de estresse muito melhor, depois de quase quatro anos de dor constante, finalmente consegui chegar a um ponto em que a dor não faz mais parte da minha vida. Tudo parece muito fácil quando escrevo assim – mas certamente não aconteceu da noite para o dia! Achei que seria útil comentar os dois maiores obstáculos que tive de superar e os conselhos que gostaria de me dar em retrospectiva:

Apreciando a importância do estresse e da saúde sistêmica:

Este é provavelmente o maior problema que eu tive dificuldade de entender. Lembro-me de estar incrivelmente frustrado com a mera acusação de que meus níveis de estresse poderiam estar contribuindo para a minha dor. Sendo honesto, isso soava como: “a dor está toda na sua cabeça!” Para todos aqueles que estão sofrendo: não tenha dúvidas de que sua dor é 100% real!

Os efeitos do estresse são enormes. Sabemos que ele martela o sistema imunológico e pode ser um motor de surtos. Adicionar estresse a um Sistema Nervoso Central já sensibilizado é o equivalente a adicionar combustível a um incêndio. Quando você é um indivíduo sem dor, pode ter altos níveis de estresse até certo ponto, mas se já estiver com dor, isso pode piorar muito rapidamente. Com o passar dos  meses,  refleti  sobre  os  momentos  em  que  minha  dor  piorava.  Eu costumava estar com dor por 3-4 dias depois de sair tarde e beber álcool, quando todo o meu sistema auto-imune era atropelado. Ao refletir sobre o pior episódio de dor que eu já tive, lembrei-me de como foi ao começar um novo trabalho, trabalhando 16 horas por dia. A chave aqui é procurar padrões para sua dor e identificar por que os dias ruins são ruins. Sinta-se nesses dias ruins e reflita sobre o que está acontecendo em sua vida – como você tem dormido, como está seu humor, como está sua saúde geral, se sente abatido? A coisa mais frustrante na dor persistente é não saber por que ela se intensifica. Assim que você começa a tornar os dias ruins menos imprevisíveis, esse é o catalisador para a recuperação. Ninguém pode eliminar todo o estresse de sua vida, mas podemos melhorar administrando-o e mantendo-o sob controle.

Confie no processo!

Esta  jornada  requer  tempo  e   paciência.  O meu terapeuta tinha  inicialmente  estimado  uma recuperação de 3 meses para mim, mas ela demorou o dobro disso. Foram necessárias  várias conversas por e-mail / telefone para ele me informar sobre o que estava acontecendo. Três meses após o tratamento começar, eu me lembro de estar com tanta dor quanto estava no inicio e quase desisti de tudo. No entanto, as trocas de e-mails nessa época mostram sinais de frustração e estresse, pois eu reclamava de estar “me matando para ficar longe do esporte” e “disposto a tentar qualquer coisa” – em retrospectiva, essas são indicações que meus níveis de relaxamento não estavam onde precisavam estar! E ainda assim, apesar de todos os pontos baixos ao longo do caminho, eu finalmente melhorei! Mais uma vez, em retrospectiva, tudo faz sentido: eu estava vivendo com dor há mais de três anos, não ia resolver da noite para o dia! O corpo pode ter que experimentar um movimento normal, relaxado e desprotegido centenas  de vezes antes de perceber que omovimento não é mais uma ameaça. Também levará tempo para entender e apreciar o papel do estresse em todo o sistema. Foi provavelmente só quando comecei a sentir menos dor por vários meses que comecei a acreditar realmente nessa abordagem – mas há um efeito de bola de neve nisso tudo porque, uma vez que você começa a ver que está funcionando, começa a ficar muito melhor em controlar sua dor. É preciso muita coragem para aceitar isso e fazer mudanças drásticas na sua vida e em sua perspectiva. Mas se você é alguém com dor, confie no processo e colherá os benefícios!

Resumo

Espero que alguns de vocês tenham ganhado alguma coisa lendo minha história. Minhas experiências com a dor crônica foram decisivas para eu mudar de carreira (para fisioterapia), e se a minha experiência trouxe uma sensação de otimismo para apenas uma pessoa que seja por aí, considero que valeu a pena! Se a minha história não diz nada a você, talvez ela diga algo a outros. Repasse a eles, amigos, parentes, conhecidos, a minha experiência. Espero que ela mostre que, por mais ruim que o panorama possa parecer às vezes, existe uma resposta para a dor crônica e, com a abordagem correta, você pode e vai melhorar.

Referência:
[Internet] pain-ed.com. Acesse o link

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