A prática médica hoje no brasil: quo vadis?

A prática médica hoje no brasil: <em>quo vadis</em>?
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O “problema da saúde” no Brasil tem muitas facetas. Faltam recursos, tecnologia, remédios etc. Um neurologista com vasta experiência clínica e acadêmica mira noutra direção: o que falta é uma melhor definição do que é ser médico(a), e das melhores práticas médicas, especialmente das centradas no bem-estar do paciente. E falta, também, educação para este último, o paciente, aprender a autogerenciar, ativamente e com sensatez e paciência, a sua condição dolorosa. A meu ver, este artigo deveria ser leitura de cabeceira de todo estudante de medicina. E de muitos dos seus professores, também.

Autor: Jaime Olavo Marquez

Como disse certa vez um homem sábio e fiel dos precedentes: olhe para mim e verá um tolo; olhe para mim e você verá um deus; olhe diretamente para mim e você se vê.

Como médico neurologista e professor universitário durante mais de 40 anos (atualmente aposentado da universidade), imagino meus comentários como uma sessão anátomo-clínica. Modalidade de ensino infelizmente em desuso na atualidade, que apresenta uma visão visceral, necropsiada, portanto nem sempre agradável do problema, mas que o analisa tal como é, desnudo e real.

Quero comentar sobre o problema sério que é a saúde no Brasil.

Recentemente deparei com algumas publicações coincidentes, que me chamaram a atenção.  Mais especificamente sobre o mercado de trabalho e atitudes, que em última análise são reflexos do processo educacional (ou de suas falhas) dos profissionais. Uma das coincidências a que me referi, foi o post sobre Sir Willian Osler, publicado neste Blog, destaque da semana de número 45. Excelente iniciativa refrescando para alguns, para outros apresentando as ideias de um dos maiores nomes da história da medicina. Vejo na atualidade (relembrando as colocações do referido mestre), não só na medicina, mas em todos os profissionais de saúde, um desanimo e falta de motivação pelas condições de trabalho e remuneração. Vejo um número de profissionais, excetuando honrosas exceções, com formação precária, falta de noção do significado da sua profissão, sem interesse e respeito pelo seu paciente (não cliente), com uma postura de “provedores”, numa relação fria, tecnológica, “instrumental, carente de humanização. Condutas com exagero e dependência de exame complementares, super medicalização e “hospitalismo” exacerbado, sem reflexos maiores em melhoras do sistema da saúde. Descaso pelo modelo biopsicossocial espiritual no entendimento e tratamento dos pacientes. Consultas muito rápidas e frias, distanciamento na relação profissional-paciente.

Também, diga-se que este último, algumas vezes reclama de eventual demora e interrogatório da consulta, buscando soluções rápidas milagrosas e medicamentosas. Lembro aqui a colocação do psiquiatra Thomas Stephen Szasz:

“Antigamente quando a religião era forte e a ciência fraca, os homens erradamente tomaram magia ao invés de remédio; agora quando a ciência é forte e a religião é fraca os homens erradamente tomam remédios como magia”, e a de Sir William Osler (em destaque da semana número 45), “O desejo de tomar remédios é talvez a maior característica que distingue os homens dos animais” !!

Grande parte deste comportamento do paciente, é gerado erradamente pelo próprio sistema de saúde, em função das suas deficiências e pela busca descontrolada de lucros financeiros.

Duas outras coincidências. Recebi por “whatsApp” nesta semana, três publicações sobre o tema em questão; recomendo sua leitura na íntegra:

  • “Profissão ameaçada: evasão da medicina”, Dr. Daniel E. Choi. 19/02/20.
  • “Somos médicos não provedores, tratamos pacientes não clientes.” Current Psychiatry. February 2020.
  • Carta aberta do Dr. Mauro Ribeiro, Presidente do Conselho Federal de Medicina.

Em resumo, nos três citados, dados dos Estados Unidos mostram que 75% dos médicos considera a saída precoce da medicina, e criticam a interferência de ditos gestores, não médicos, ou médicos sem experiência clínica, nos modelos de atendimento. Apontam a desvalorização do médico de várias formas, como a mudança do nome “médico” para “provedor”, e a baixa remuneração profissional em geral.

Os médicos proprietários de seus consultórios em 2012 somavam 48,5%, queda para 31,4% em 2018.

Na população médica verifica-se em média 1 suicídio/dia, para 2/dia na população geral (dados referidos pelo Dr Choi).

Na carta aberta do Presidente do Conselho Federal de Medicina, vemos dados assustadores. Na gestão da Presidente Dilma Roussef, em 6 anos, foram abertas 160 escolas de medicina (algo sem precedentes na história da humanidade!), atingindo assim um recorde mundial de 341 escolas médicas, muitas delas em condições precárias de hospitais e de corpo docente qualificado. Há 6 anos atrás, formamos 14.000 médicos, em 2020, 25.000, e em 8 anos formaremos 35.000, dos quais 16 a 18.000 não terão acesso a residência médica.

Analisando os números para residência médica (criada por Sir William Osler!), forma de qualificação dos profissionais, há hoje aproximadamente 18.000 vagas ocupadas para primeiro ano, em um total de 25.000 vagas, com ociosidade de 40% das vagas totais, por não aprovação nas provas para residência, e também sem possibilidade no futuro próximo da absorção do número de médicos formados. Os médicos sem residência médica terão como mercado de trabalho, as unidades de urgência emergência, atenção básica e planos de saúde com salários baixos.

Outro problema, ainda em discussão, com resultado imprevisível nas votações na Câmara dos Deputados e Senado, é como ficara o exercício da medicina por profissionais formados no exterior (principalmente na América Latina) em faculdades geralmente precárias, sem que sejam submetidos a provas de qualificação (Revalida) pelo MEC. Em 2014, o índice de aprovação no Revalida foi de apenas 4%.

Comento estes dados pela necessidade de conscientização e como estímulo e motivação para encontrarmos soluções, discutirmos e melhorarmos nossas profissões.

(Se você for médico e leu até aqui talvez esteja se sentindo um tanto incômodo, até com raiva de mim. Porém, lembre-se que uma necropsia ou uma sessão anátomo clínica raramente são agradáveis, mas constituem ferramentas essenciais para o conhecimento de uma doença.)

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

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