A síndrome da dor inexplicável

A síndrome da dor inexplicável

A dor lombar “medicamente não explicada” está virando uma epidemia. Mas também pode ser psicossomática, psicogênica ou não específica. Qual é a sua?

“Se 50 milhões de pessoas acreditam numa grande besteira, continua sendo uma grande besteira.”

Anatole France
Há meio século, um desconhecido clínico novaiorquino incomodou o establishment médico americano ao defender a possibilidade de a dor nas costas amiúde possuir cunho psicológico. Um caso de “dor psicossomática”, ele afirmou.1

Foi olimpicamente desprezado até pelos seus colegas médicos, no hospital da New York University. Recentemente, porém, um grupo de acadêmicos belgas publicou o seguinte artigo: “Como explicar sensitização central a pacientes com dor musculoesquelética ‘não explicada’: Diretrizes práticas.”2 Dessa vez a comunidade científica bateu palmas.

Você padece de dor crônica e está se perguntando sobre dor psicossomática? É que em muitos casos elas se parecem: ninguém diz qual é a causa.

A dor psicossomática – ou psicogênica para os diletantes – é uma dor sem causa aparente que assombra a história da medicina desde a virada do primeiro milênio, quando dois psicólogos persas trouxeram à tona pela primeira vez a ideia de que uma doença poderia ser o resultado de uma interação entre a fisiologia e a psicologia do paciente.3 Eis o conceito mente-corpo.

Para evitar confusões semânticas, cabe aqui abrir um parêntese. Ao menos quatro denominações atribuídas a uma mesma dor circulam na literatura médica, ao que parece querendo dizer mais ou menos o mesmo: que o facultativo não faz a menor ideia de qual poderia ser a causa. A saber, as já mencionadas dores “somática” e “psicogênica”, às quais se agregam a dor “medicamente não explicada”, um termo corriqueiro na América mas inexistente no Brasil, e que cabe quando “…o quadro clínico constatado pelo médico não atende os critérios de diagnóstico existente para a doença ou desordem” sob suspeita4; e ainda a dor “não específica”, a qual, segundo a revista da Organização Pan-Americana da Saúde, se aplicaria quando “…há sintomas sem causa claramente definida”. A mesma publicação reporta um dado difícil de acreditar, mas mesmo assim assustador: que esse tipo de dor acometeria “…90% de todos os pacientes com dor lombar.”5 Confuso? Eu também. Fecha parêntese.

TODA MANIFESTAÇÃO MÉDICA É INFLUENCIADA EM ALGUMA MEDIDA POR EMOÇÕES!

No Século XX o conceito mente-corpo foi retomado por vários cientistas da mente, psicanalistas de renome (Alexander, Freud) e clínicos contemporâneos como a Dra. Thure von Uexküll e Henri Laborit, cirurgião e filósofo.6

F.G. Alexander, famoso psiquiatra, chegou a sugerir eliminar o termo medicina psicossomática por ser redundante: afinal, toda manifestação médica é influenciada em alguma medida pelas emoções!7

Dor Crônica - O Blog da Dores CrônicasEm 1959, Dr. Alan Walters, considerado o segundo nome mais importante na história da psicologia, discursou na reunião anual da Sociedade Neurológica Canadense. Intitulada “Dor regional psicogênica, aliás dor histérica”, a dissertação foi publicada na revista Brain.8 Para o Dr. Walters, a chamada “dor histérica” poderia ser induzida por diversos estados mentais e emocionais, e não apenas pela histeria. Usando o termo “psicogênico”, ele quis indicar que o distúrbio tinha origem emocional. No referido artigo ele até afirma ter tratado 430 casos desse tipo e que em 43% deles, essa dor se concentrava na parte superior do corpo.

É impossível saber qual a incidência da dor psicossomática no mundo das 10 mil doenças humanas até hoje catalogadas, mas como todos nós possuímos mente e corpo, eu suponho que seja significativa. E que, portanto, afete a vida de muitíssima gente; contudo, a ironia é que ainda sabe-se pouco sobre ela. Numerosos sinônimos são prova disso: dor psicogênica, sintomas misteriosos, desordens somatoformos, Síndrome de Miosite Tensional ou simplesmente dor crônica (em muitas das suas versões). Ou mais elegantemente, Sintomas Médicos Não Explicados (Medically Unexplained Symtoms).9

Diante do desconhecido, a criatividade corre solta: quando sintomas misteriosos parecem ser causados por problemas nos nervos mas não há certeza da origem, aquilo velozmente passa a ser “uma desordem neurológica funcional”. O que isso quer dizer? Isso mesmo: uma “desordem neurológica funcional”, entendeu?10

Exemplos dos sintomas são mais elucidativos – embora absurdamente variados. Eles podem ir de formigamento nas mãos e pés, tremedeira em uma das mãos, dores de cabeça e enxaquecas, visão embaçada ou com luzes pipocando, a nós musculares e sensitização, deficiência de Vitamina D e tensão muscular e contraturas, passando por dor referida, dor abdominal funcional e efeitos colaterais provocados pela ingestão de drogas, especialmente bisfosfonatos e estatinas etc. Até inflamações menores também entram no bolo.11

Dentro dessa constelação de dubiedades, as estrelas mais cintilantes – e também as mais esquivas – são fibromialgia, Síndrome da fadiga crônica, cólon irritável e, até certo ponto, dor crônica nas costas. Todas elas atualmente afetando muita gente, sem causas identificáveis, e com testes de diagnóstico indisponíveis ou dúbios.

EPIDEMIOLOGICAMENTE FALANDO, A DOR “INEXPLICÁVEL” É UMA EPIDEMIA.

Em países desenvolvidos como EUA12 e o Reino Unido13, de cada duas pessoas que ingressam numa casa de saúde se queixando de dores, ao menos uma apresenta sintomas “medicamente não explicados”. O seu encaminhamento a uma segunda consulta é caro e no final das contas pouco ou nada resolve – os sintomas continuam nebulosos enquanto a dor prossegue. No Reino Unido, por exemplo, uma em cada 10 pessoas acima de 40 anos sofre de dor de nervos sem saber de onde isso vem nem para onde vai.14

Eu diria que a tal dor inexplicável é claramente uma epidemia, mas vou parar por aqui. Neste post quis compartilhar com você a minha surpresa ao descobrir que a minha dor inexplicável nas costas não era necessariamente câncer (ufa!). Ora, ela era (apenas) isso: inexplicável. Tivesse sabido antes, eu talvez não teria me angustiado tanto e assim colaborado para amplificar a minha dor. Saber do que você sofre não cura, mas acalma seus demônios.

Se o tema lhe interessa, não desligue. Num próximo post vou me estender sobre as características que as doenças relacionadas a dores “medicamente não explicáveis” têm em comum, e como tem se tentado aliviá-las.

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