A sua dor pode ser algo grave?

A sua dor pode ser algo grave?

“Os exames nada mostraram. O médico nada diz de concreto. Deve ser câncer. Vou morrer.”

Você acha essa sequência improvável? Exagerada? Suponho que não. O viés do otimismo, dizem, é característico do ser humano. Jogando na bolsa ou num cassino, torcendo pelo time do coração ou até paquerando alguém… pode ser, mas não em relação à própria saúde. Com isso ninguém brinca. Especialmente se fontes informativas tidas como confiáveis – médicos, exames laboratoriais… – nada revelam. A incerteza toma conta. E a paúra vem em seguida.

A incerteza é o primeiro dos três fatores que universalmente conduzem ao estresse. (Os outros dois são a falta de informação e a perda de controle. E os três estão presentes nas vidas de pessoas acometidas de doenças crônicas.)1

Então, é até certo ponto natural que alguém ensinado a acreditar que uma dor, qualquer dor, tem necessariamente uma causa concreta, estrutural, e se possível, fotografável, pense que o mundo vai acabar quando esta está em falta. Afinal, as doenças mais incuráveis – câncer… – são silenciosas.

“Muitas pessoas reportam dor na ausência de dano tecidual ou qualquer outra causa patológica; usualmente isto acontece por razões psicológicas. Se eles consideram a sua experiência com dor, e se a reportam na mesma forma que se causada por dano tecidual, ela deve ser aceita como dor”.

International Association for the Study of Pain (IASP)
É um erro. Um erro já denunciado num outro post em que se questiona a infalibilidade dos exames laboratoriais quanto a apontar causas clínicas de dor crônica – nas costas, principalmente. A conclusão unânime dos autores de diversas pesquisas realizadas a respeito? “Anormalidades anatômicas podem ser identificadas rapidamente por estudos de imagem, porém a maioria dessas anormalidades são comuns até em gente saudável”.

Se a dor existe sem causa estrutural, então o que estaria a provocá-la? Provavelmente algo não estrutural, psicológico, diria um sábio. Assim como uma doença resulta da interação de diversos fatores causais, inclusive psicológicos, inversamente alterações psicológicas podem, sob certas circunstâncias, gerar problemas de saúde bem concretos – o suficiente para causar sofrimento.2
E não é disso, de sofrimento, que a dor se trata?

Xô, Catastrofismo!

Agora, a possibilidade de uma dor crônica não ter um diagnóstico baseado em resultados laboratoriais, ou numa opinião médica assertiva, faz dela algo letal? Ou, dito de outro modo, a possibilidade de essa dor possuir raízes psicológicas é “o fim”? Claro que não. O fato de que variáveis psicossociais gerem tanto ou mais dor e sofrimento que variáveis físicas, não faz delas mísseis nucleares, nem mistérios insolúveis.

ALTERAÇÕES PSICOLÓGICAS PODEM EVENTUALMENTE GERAR PROBLEMAS DE SAÚDE BEM CONCRETOS.
Por um lado, o reconhecimento de que a dor tem componentes emocionais abriu uma porta enorme para, nos últimos 50 anos, cientistas e neurocientistas ingressarem atirando ideias, evidências, teorias, descobertas de pesquisa, e sobretudo, terapias comportamentais paliativas, a torto e direito. Isso, para não falar do interesse da indústria farmacêutica, já demonstrado pela chegada em 1988 do antidepressivo Prozac.3

Ou seja, relaxemos um pouco, tem gente da pesada no pedaço trabalhando para aliviar a dor crônica.

Por outro lado, a admissão, por parte da classe médica clínica, de que o paciente é gente – ou seja, uma entidade mais ou menos pensante que sofre, tem expectativas, quer saber das coisas e ser ouvido – também pode melhorar diagnósticos e tratamentos da dor crônica. Um paciente intimidado pouco ajuda a formar um diagnóstico acurado, e se desconfiado, ou (mal)tratado impessoalmente, é quase seguro que desista da solução que lhe foi prescrita.

“(A proposta do modelo biopsicossocial) requer uma relação paciente-profissional da saúde que dê mais poder ao paciente no processo clínico, transformando seu papel, de um objeto passivo de investigação a sujeito e protagonista de um ato clínico”.4

Francesc Borrel-Carrió, M.D.
A qualidade da relação médico/fisioterapeuta-paciente inquestionavelmente influencia os resultados médicos5 e fisioterápicos6.

Isso não é lirismo, mas uma verdade clínica baseada em evidências. E o empoderamento do paciente, hoje raríssimo, só pode agregar qualidade, não tirá-la.

Resumo da Ópera: a ladainha catastrofista postada no começo do blog: “Os exames nada mostraram. O médico nada diz de concreto. Deve ser câncer. Vou morrer.”, tem os dias contados. Se o paciente quiser.

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