Afinal, o que é um neurotag?

Afinal, o que é um neurotag?

Se você sofre de dor crônica nas costas isso significa que há um neurotag de dor na sua vida. Conheça-o. É pelo seu bem.

Certas canções são como tatuagens para seu cérebro… você as ouve e são afixadas em você.

*** Para melhor entender este post, convém ter lido antes sobre a Neuromatrix.

Meio século atrás, Melzack e Wall redigiram sua Teoria do Controle do Portão em termos tecno-científicos e poucos entenderam aquilo.  Demorou décadas até que outros dois cientistas especializados em dor bem mais irreverentes, Butler & Moseley, inventassem o neurotag. E talvez confundissem mais as coisas.

Então eu vou contar o que entendi.

Você está em casa, deitado, escutando uma música qualquer. O seu capacete Neuromatrix se acende. Não totalmente, mas aqui e acolá, ele se acende. Se você estivesse conectado a uma parafernália de neurofeedback veria na tela diversas regiões se ativando ao interpretar o significado da música e depois produzir uma sensação. Opa, você ficou melancólico! É que muito provavelmente a música lhe trouxe a lembrança de um amor perdido, e a melancolia veio a tiracolo. Isso ocorreu porque no seu cérebro havia certas vias neurais prontas para serem ativadas precisamente por conta desses estímulos, o som, a lembrança… cada um com seu neurotag.

A neurociência é, de longe, o ramo mais excitante da ciência, porque o cérebro é o objeto mais fascinante do universo.

Segundo a Neuromatrix esse seu capacete se acende e apaga incessantemente enquanto você sobrevive no seu ambiente. Ruídos, cheiros, visões (internas e externas)… o ativam a cada zeptosegundo – a menor unidade de tempo conhecida – inclusive dormindo. Isso é viver.

Então o que é um neurotag? Uma neuroassinatura. Calma, eu já explico.

O cérebro por onde sinapseam os neurônios que formam as vias neurais é feito de uma matéria plástica que, sob certas condições, muda. Neuroplasticidade chama isso. Então quando um estímulo se repete e se repete, é como uma máquina de arar terra fazendo sulcos na mesma. Um sulco é, no caso, uma via neural (ou pathway, para os entendidos) por onde o ruído, o cheiro, ou a visão… é percebido e identificado antes de originar uma sensação e, por fim, uma reação. Você não sente/imagina um monte de coisas ao ouvir a sirene dos bombeiros tocar por perto? É que o barulho que ela faz lhe é familiar, e isso deve-se a conexões neurais já existentes no seu capacete, digo, Neuromatrix.

Cada cérebro humano é diferente – o cérebro faz de cada ser humano algo único e define quem ele ou ela é.

O neurotag é uma conexão de vias neurais por conta de um estímulo, ou input. Um padrão de ativação neural que cria um certo output do cérebro, como uma percepção, pensamento, movimento ou resposta do sistema imunológico. O ruído da sirene dos bombeiros, por exemplo, é um neurotag, uma neuroassinatura representando a ativação neural referente a esse ruído e nenhum outro. É o seu capacete piscando ao som de trilhões de sinapses de uma maneira peculiar, diferente de qualquer outra.

Está a fim de uma explicação mais erudita? Aqui vai uma:

“Existem bilhões de neurônios em um único cérebro, e cada um pode formar conexões com outros neurônios para enviar sinais para destinos específicos ou para amplificar esses sinais. À medida que um grupo de neurônios associados cresce, cresce também a sua capacidade de espalhar mensagens por todo o cérebro. Quando algum dos seus sentidos pega um detalhe do ambiente; um cheiro, por exemplo; regiões inteiras de neurônios são ativadas ao mesmo tempo. Os neurônios que aprenderam a se relacionar entre si na interpretação de uma única entrada coletivamente formam um neurotag.”

Joe Tatta
Assim como há neurotags para todas as coisas que sentimos ao viver, há um neurotag da dor. Um para cada uma de todas as mais diferentes dores que existem.

E para que serve a uma pessoa com dor crônica saber disso? Dentre cem respostas possíveis eu escolho uma bem singela: serve para entender duas coisas vitais que a maioria dos terapeutas, na prática, parece ignorar há quatro séculos.

Primeiro, que a dor é um fenômeno multifatorial comandado pelo cérebro.

E segundo, um fenômeno que devido a sua natureza neuroplástica, você pode mudar a seu favor.

Como? Driblando ou substituindo os neurotags de dor que já existem, por outros mais saudáveis e positivos. Pense bem, se foi a repetição que fez esses neurotags dolorosos, então porque repetir coisas boas não haveria de desfazê-los, superpondo outros, quer seja pela via da distração, do exercício físico, da paz interior, ou de tudo isso junto?

Veja, por exemplo, o medo da dor, que pode até criar memórias intensas para lembrá-lo de como reagir a situações semelhantes no futuro. Suponha que você tem dor nas costas, que é o mesmo que dizer que você tem um neurotag para a dor nas costas. Um belo dia o seu médico lhe diz haver uma “hérnia de disco” na sua coluna, a qual, de passagem ele agrega, “está degenerando”. Como cada uma das “células-membro” de um neurotag podem integrar outros neurotags, ao mencionar “hérnia de disco”, o seu cérebro irá acionar também, “dor nas costas” e “degenerando”. Só que a essa altura o seu limiar de dor nas costas já mudou, caindo para “mais sensível”. E ao contrário, o seu medo da dor foi às alturas. Amanhã, os termos “costas”, “disco” e “degenerando” já serão suficientes para evocar dor em você, e o medo de sofrer mais dor poderá incapacitá-lo ainda mais. (Ok, a imagem não é perfeita, mas estou certo de que você entendeu a mensagem.)

Você não pode mudar quem você é, mas você pode mudar o que você tem em sua cabeça, você pode atualizar o que você está pensando, você pode colocar um pouco de ar fresco em seu cérebro.

Ernesto Bertarelli, empresário ítalo-suíço
Isso, claro, se você deixar. Porque se você se informar sobre o assunto saberá que as costas humanas são bem resistentes, que meio mundo tem hérnias de disco que não causam dor e que a degeneração da coluna é algo natural – ora, gostemos ou não, envelhecemos. Então você talvez se anime a recuperar movimentos perdidos para a dor, a se exercitar mais e comer menos, a tirar a dor de seu pensamento, etc. E quem sabe, com paciência e determinação, repetindo e repetindo, um dia o alívio vem.

Obs. Se o caro leitor – especialmente um neurologista – tiver outra interpretação da Neuromatrix e/ou do neurotag, seja o meu convidado. Eu a publicarei de imediato.

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