Aprendendo a aliviar a dor crônica com a Irmã Dulce

Aprendendo a aliviar a dor crônica com a Irmã Dulce

Talvez seja mais fácil fazer um milagre do que convencer um paciente com dor crônica de que tem que assumir a responsabilidade pelo controle da sua dor.

“Para os que têm fé, nenhum milagre é necessário; para os que duvidam, nenhum milagre é suficiente”

Nancy Gibbs

A canonização da Irmã Dulce me fez pensar na fé. Eu não sou religioso nem político, e admiro todos aqueles bispos gordos e políticos idem que, junto de suas não menos devotas cônjuges, todos plenos de fé, foram exibi-la no Vaticano por conta daquela cerimônia. É preciso ter muita fé para isso, reconheço. Fé no Conselho de ética, fé no STF, e fé em que ninguém vai notar nunca nada… eu não chego lá. (Aliás, o melhor prato de espaguete que comi na minha vida foi há muito tempo numa vendinha caindo aos pedaços a dois quarteirões do Vaticano. Será que algum deputado do baixo clero foi parar lá? Vai saber!)

Bem, eu lembro com prazer da Irmã Dulce porque ela deve ter tido muita fé. Fiquei sabendo que começou com um galinheiro e dele fez um dos maiores complexos de saúde do Brasil. Deve ter movimentado mundos e fundos para isso. E não apenas na Bahia, mas em todo o território nacional. Uma espécie de Odebrecht do bem, então.

E quais recursos ela tinha? Muita fé e um bom plano, suponho.

Os mesmos recursos dos que muitos portadores de dores crônicas, infelizmente carecem. Alguns com razão, porque já estão entregues à dor e à depressão. Porém outros, por comodismo. Porque é mais fácil delegar a responsabilidade pelo alívio da dor a um terceiro, um médico, um fisioterapeuta, um farmacêutico… sob o pressuposto que ele domina o assunto, do que se dedicar a adquirir conhecimento suficiente para entender o que está acontecendo com o próprios corpo e mente por influência da não menos própria DOR. Eis um primeiro passo, imprescindível, para ter chance de se aliviar.

Paciente com dor crônica também raramente tem um plano de recuperação, feito por ele(a), entendido por ele(a), controlado por ele(a). Tem, sim, consultas médicas agendadas, horários para tomar os analgésicos e antidepressivos, e claro, as onipresentes sessões de acupuntura. Mas isso não é um plano, até porque nada disso resolve – e por resolver aqui não digo curar, e sim, retomar movimentos, funcionalidade e, enfim, a qualidade de vida de antigamente. Tudo aquilo é temporário, e toma tempo e dinheiro que não acaba mais.

Imagino a Irmã Dulce parada em frente daquele galinheiro e pensando no complexo de saúde dos seus sonhos. Ela deve ter traçado objetivos viáveis e entendido que sem mudar radicalmente de hábitos de vida jamais os atingiria. Se antes passava 14 horas cuidando de doentes, agora teria que dedicar a metade desse tempo escrevendo cartas, dando telefonemas e assistindo a eventos em que políticos iriam usá-la como troféu de prestígio e virtude. É a vida, nada sai de graça.

Um bom número de pessoas que sofrem com dor crônica pensa diferente, me parece. Ou seja, que encontrar conforto sai de graça. Que isso é possível sem introduzir mudanças radicais no cotidiano, tais como eliminar estressores, mudar a ergonomia no local de trabalho e na poltrona diante da TV, comer menos e mastigar mais, escrever sobre o dia-a-dia da dor para identificar os piores e melhores momentos de trégua e aproveitá-los, cuidar de manter uma medicação certa por um tempo prudente, se exercitar gradualmente, prescindir de relações de amigos tóxicos, praticar respiração, (eventualmente) meditar, e acima de tudo, se manter informado sobre o inimigo, a dor. Ora, amigo, você pensou que poderia se livrar de uma dor crônica parafraseando Don Fabrizio, o Príncipe de Salina em IL Gattopardo: “Tudo deve mudar para que assim tudo fique como está”? Com o corpo da gente, pena, não funciona assim.

Dá menos trabalho delegar a responsabilidade pelo alívio da própria dor a um médico, um fisioterapeuta, um farmacêutico…

Espero que você não imagine que eu estou menosprezando a dor de alguém que nem conheço, ou sendo injusto com quem não pediu para sofrer, etcétera. Não caia nessa. Eu conheci o monstro por dentro e estou ciente de que não o matei. Apenas o enfrentei e ele ainda está aí, bufando, me olhando e maquinando por onde e quando me atacar de novo. Empate declarado, por enquanto. Eu sei disso. Mas também sei que descobri a fórmula para não ser facilmente derrotado, seja pela dor, pelo medo da dor, ou pela depressão por conta de não poder me curar nunca.

É que hoje, eu tenho fé e também um plano. E assim posso continuar empatando.

Eis a minha homenagem a Irmã Dulce, de um lugar longe de Roma, porém ainda perto de um bom espaguete.

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