Aprendendo a falar a língua do Coronavírus

Aprendendo a falar a língua do Coronavírus
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A pergunta que a maioria dos brasileiros hoje faz não é qual clube será o campeão, quem será o próximo a ser expulso do BBB ou a última do Neymar. “Quando isso vai acabar? “, eis a questão. E o símbolo disso é a curva dos infectados notificados com Covid 19 (ou dos mortos por conta disso) atingindo o seu pico. Um dia isso há de ocorrer, mas quando? Depende de vários fatores. Este post descreve dois dos principais – o “número básico de reprodução” e “ a imunidade de rebanho – e como eles se interrelacionam para produzir o tão desejado “pico da curva”.

“Que terrível … ser pego em um jogo e não ter idéia das regras.”

Caroline Stevermer

  • Boris Johnson declarou ontem que o Reino Unido “ultrapassou o pico (da curva de infectados)” com o coronavírus.
  • As autoridades de saúde da Alemanha alertaram na terça-feira (28) que o “número básico de reprodução” da Covid-19 subiu para 1, o que justificaria interromper a flexibilização das medidas de distanciamento social.
  • O embaixador da Suécia nos Estados Unidos disse que Estocolmo, a capital do país nórdico pode alcançar a “imunidade de rebanho” em maio.

“Pico da curva”, “número básico de reprodução” e “imunidade de rebanho”. (Sinceramente, depois de constatar a falência do isolamento social no Brasil, “rebanho” vem mais a calhar.)

Eu estou trazendo esses conceitos à sua consideração porque eles começam a ecoar na mídia e pouca gente os conhece, ou ainda mais interrelaciona. E eles estão mesmo muito interrelacionados.

O Pico da Curva

A curva de infectados, ou curva epidêmica, é a mais conhecida. A maioria aceita que o seu pico é atingido quando o número cumulativo de infectados para de aumentar. Outros já reconhecem o pico quando, além disso, o número de curados se iguala ao de infectados. Enfim, há várias teorias. De todo modo, o “pico da curva” sinaliza o fim do período mais crítico da pandemia. (Atenção, não sinaliza o fim da pandemia.)

O Número Básico de Reprodução

E como o “número básico de reprodução” se relaciona com o ponto em que a curva de infectados atinge o seu pico definitivo?

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Vejamos antes o que é o “número básico de reprodução” ou taxa reprodutiva básica (R0).

Como se deduz da Figura acima, ele indica a transmissibilidade de um vírus, representando o número médio de novas infecções geradas por uma pessoa infecciosa em uma população totalmente susceptível (ou virgem, para ser mais claro). A transmissibilidade é medida pelo número de reprodução – o número médio de casos que um indivíduo infectado provavelmente infectará.

O “número básico de reprodução” ideal é menor ou igual que 1,0, enquanto o número básico de reprodução real no mundo varia de 2,0 e 2,5. Atualmente, a Alemanha apresenta 1,0 e o Brasil 3,0 – um dos três mais altos do mundo nesse momento, segundo um levantamento semanal publicado pelo Imperial College of London.

A Imunidade de Rebanho

O nexo entre o “pico da curva” e o “número básico de reprodução” de um vírus é algo chamado “imunidade de rebanho”: um número crítico de indivíduos ou porcentagem da população que precisa estar imune para interromper a transmissão da doença dentro desta. Ela pode ser atingida via vacinação ou com o Covid 19 se espalhando até infectar a proporção certa de indivíduos que depois haverão de se tornar imunes.

Calcular a imunidade de rebanho numa epidemia viral é crítico. Ela sinaliza um estado de proteção em uma determinada população. A questão é como ela pode ser obtida.

Ou seja, como dizem na Espanha, para a curva epidêmica parar de crescer, sinalizando a provável exaustão da epidemia, a imunidade de rebanho deve ser conseguida “por las buenas (vacina) ou por las malas (infecção)”.

A Figura seguinte mostra essas duas estratégias de combate ao Covid 19.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Implicações sobre o número de reprodução básica R0 = 4. Em cada intervalo sucessivo na série, cada indivíduo faz contato efetivo com outros 4 indivíduos. Se a população for inteiramente susceptível (A), a incidência aumenta exponencialmente, quadruplicando-se em cada geração (até o acúmulo de pessoas imunes frearem o processo). Se 75% da população for imune (B), então somente S=25% de cada conjunto de 4 contatos em média efetiva uma transmissão, e o número reprodutivo líquido Rn = R0 x S = 1

A parte superior “aceita” um “número reprodutivo básico (R0)” de 4, que significa a transmissão indiscriminada do vírus e assim, sem tomar medidas restritivas mitigantes da epidemia, irá se atingir um dia o Nirvana da Imunidade, ou seja, esse estado de êxtase em que os infectados-curados-e-portanto-imunes bloqueiam o vírus em definitivo (embora não por completo, em todo caso).

A parte inferior da Figura ilustra uma situação em que medidas restritivas mantém o “número básico de reprodução” em 1, até o número de infectados ser contido por uma vacina.

Exemplos

A “imunidade de rebanho”, eu disse antes, deve ser conseguida “por las buenas (vacina) ou por las malas (infecção)”. O Reino Unido, há um mês, e a Suécia ainda hoje, optaram “por las malas”. Ou seja, por não recorrer a medidas de isolamento social para impedir que o surto viral disparasse. A esperança por trás dessa estratégia é a de que, aos poucos, o número de infectados curados e, portanto, imunes ao vírus aumente a ponto de o vírus não ter mais onde se hospedar. Assim, os que ainda não foram infectados ficariam livres da ameaça (de serem infectados). Fim da epidemia.

Deu no que deu no Reino Unido – o Boris – oh, dear! – foi parar na UTI. E na Suécia, a taxa de casos confirmados de coronavírus está aumentando mais rapidamente do que na Noruega e na Dinamarca, sendo que na Suécia a taxa de mortalidade é também mais alta. Noruega e Dinamarca tomaram medidas de isolamento social, e a Suécia não.

E o Brasil? Qual a estratégia escolhida ou a aplicada ou a gambearreada? Sei lá. Isso nem os matemáticos do Imperial College conseguem decifrar. Para mim apenas ficou claro que até agora optou-se por encomendar a saúde a Deus, na esperança de que Ele ainda aceite ser brasileiro.

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