Ave, césar, aqueles que estão prestes a morrer te saúdam. Assinado: Covid 19

Ave, césar, aqueles que estão prestes a morrer te saúdam. Assinado: Covid 19
image_pdfimage_print

O surto epidêmico do coronavírus na Europa está duas semanas à frente do Brasil. Alguns países por lá acenam com forçar o distanciamento social ainda mais do que já fizeram, e outros se lamentam não tê-lo feito com essa intensidade. Nos Estados Unidos, estatísticas oficiais dizem que 95% da população está em casa. Chile implantou o toque de recolher. O Brasil, claro, está na contramão. De dois cidadãos, apenas um cumpre com a quarentena decretada pelos governos estaduais. E o César do país, incentiva a deserção. Este post comenta essa paródia a cada dia mais trágica.

“Podemos aliviar a dor física, mas a dor mental – tristeza, desespero, depressão, demência – é menos acessível ao tratamento. Está conectado a quem somos – nossa personalidade, nosso caráter, nossa alma, se você quiser.”

Richard Eyre

É o país de Macunaíma, certamente. Na semana passada um lugartenente do Mandetta me comunicou pela TV que o fluxo de novos infectados (e de mortos a tiracolo) nas capitais estaria a inaugurar uma etapa de “aceleração descontrolada”.

“…o fato de Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal estarem em transição para o estágio de aceleração descontrolada dos casos não significa que a estratégia adotada pelos governos estaduais tenha falhado.”

Vou repetir: aceleração des-con-tro-la-da, sacou? Uma pimenta no rabo teria efeito anestésico comparado com isso. Pois bem, essa semana abriu com a notícia de que alguns governadores estão tão, mas tão no controle, que se propõem a amenizar, flexibilizar, ou qualquer outro equivalente de “vocês-podem-fazer-o-que-lhes-dê-na-telha”, em cidades onde não há perigo de descontrole da epidemia. Cidades do interior, onde a vida é bucólico-pastoril.

Perigo nenhum. Então, por gentileza, dê você uma olhada no quadro a seguir. Desenvolvido por cientistas americanos, ele mostra o efeito de uma política de distanciamento social sobre a capacidade de um infectado com o Covid 19 contaminar outras pessoas.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Suponho que explicações sejam dispensáveis. A política de distanciamento social limita a exposição da pessoa infectada a outros. A “exposição” de que o quadro fala é e faz o oposto. (É bom lembrar que o infectado do quadro seguramente é inocente. Ele pode estar entre os 50% de autoimunes que compõem a população de infectados, os quais ignoram portar a doença.)

Em síntese, quanto maior a exposição, maior o estrago viral.

Em um mês sem nada entre um único infectado e suas vítimas, este consegue inocentemente fazer 406 vítimas igualmente inocentes. E no fim do mês, a capacidade do sistema dessa cidadezinha do interior onde estava tudo sob controle vai para o espaço.

A flexibilização da estratégia de distanciamento social é iminente, não sou ingênuo ao ponto de imaginar que prefeitos, governadores e ministros sejam capazes de segurar a pressão do comércio e a indústria por muito mais tempo. Abriu para uns poucos, os muitos outros irão junto. E lá iremos ver aquelas duas curvas fatídicas seguirem subindo, subindo…

Nota do blog:
Ave Imperator, morituri te salutant ou Ave Caesar, morituri te salutant (“Ave, César, aqueles que estão prestes a morrer te saúdam”) é uma conhecida sentença em língua latina citada em Suetónio, De Vita Caesarum. Foi usado durante um evento em 52 dC no lago Fucino por cativos e criminosos fadados a morrerem lutando durante um simulado de batalha naval ou Naumaquia — na presença do imperador Cláudio.

Muita gente vai achar a imagem e o título que escolhi para encabeçar este post, impróprios, grotescos, apelativos e chocantes. Concordo. Mas nesse momento, menos de um mês de iniciado este carnaval sinistro, o Brasil crava 133 mortos de um dia para outro, 800 no total – e tem 30% de patriotas que declaram simplesmente “não aderir ao distanciamento social”. Trinta por cento de 210 milhões é um monte de gente – uns 63 milhões, por aí – e você já viu o poder de contaminação de apenas um desses que porventura estiver infectado. Isso a mim parece por demais impróprio, grotesco, apelativo e chocante. Você concorda?

Veja outros posts relacionados...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *