Armas de destruição em massa para acabar com a dor crônica?

Armas de destruição em massa para acabar com a dor crônica?

O que você faz diante de um muro de 4 metros de altura com uns 47 cães selvagens no seu encalço? Enfrentá-los? Fight or flight? Nem pensar. Situação sem saída. Flight, então. Porém são 4 metros! Então você decide escalar o muro. Como? Ora, com as unhas, os dentes, a língua, o que for. A educação em dor vive uma situação parecida. O paciente sofredor é o educando, e alguém precisa educá-lo. Mas esse “alguém”, na prática, não existe. Então o Dr. Moseley, um especialista em dor respeitado em todo mundo, propõe virar a situação pelo avesso. E assim, quem sabe, desarmar de vez essa paródia em que a educação em dor se transformou. Nesse post ele conta como.

“Explicar a dor e explicar os nossos tratamentos da dor dentro de um modelo da ciência da dor contemporâneo, é vital.”

Dr. Lorimer Moseley, PhD

“Se o Moseley tem esse problema então eu não estou tão perdido assim”. Foi o que pensei após ler a entrevista recentemente concedida por esse fisioterapeuta australiano ao Dr. Joe Tatta, condutor do Healing Pain Podcast.

Não, não se engane. Mesmo não sendo médico, nem ter se formado em Oxford ou na Harvard, o Dr. Lorimer Moseley atualmente é nada menos que o pesquisador da dor mais admirado no mundo.  O seu vastíssimo curriculum, recheado de prêmios científicos, menciona mais de 280 artigos e cinco livros, além de palestras em congressos interdisciplinares em 30 países. Fora isso, ele é coautor da terapia Graded Motor Imagery e sócio, junto com o Dr. David Butler, da NOI uma empresa voltada exclusivamente para a educação profissional em ciências da dor com atuação em diversos países.

Enfim, chega de apresentações. E se você quiser acesso a totalidade da entrevista antes mencionada – vale a pena, acredite – é só clicar aqui.

O que chamou a minha atenção nela foram os trechos seguintes, respondendo a:

Para onde você gostaria de ver seu trabalho nos próximos cinco anos?

“No momento, estou realmente empolgado com alguns dos progressos que estamos fazendo na reconceitualização em nível de massa, e no planejamento, desenvolvimento e teste de estratégias de mudança conceitual de choque de curto prazo.

Uma vez que soubermos que (essas iniciativas) são boas, e presumindo que descobriremos isso, poderemos divulgá-las e… começar a usar pessoas de base (“grass roots people”)1 para mudar a prática de seus médicos. (Porque) quando essas pessoas aparecem, elas fazem perguntas que seus médicos não podem responder, a menos que sejam informados.

O teste que estamos fazendo com alguns vídeos curtos é realmente emocionante. Imagine, em cinco anos poderemos medir algo em nível de massa.”

A fala do Moseley é, como diriam os finos, “emblemática”. Ou seja, representa algo, no caso, a angústia de pregar uma doutrina de dor entre profissionais da saúde que estes dificilmente repassam a seus pacientes. Milhares, segundo o seu Curriculum – de fato, ano passado eu quis me inscrever num seminário que ele dava em Amsterdam e não consegui vaga – e no entanto, ele aposta numa “reconceitualização” em nível de massa obtida através de vídeos curtos etc… Intrigante, meu caro Watson.

O que seria essa “reconceitualização”? A transformação da dor, de uma sensação sensorial, a outra (também) dependente de vários outros fatores (psicológicos, cognitivos, culturais etc.). Isto vira o atual modus operandi relacionado à dor de ponta a cabeça. Significa que a dor crônica, por exemplo, dificilmente poderia ser aliviada sem que ambos, o médico e o paciente, tratassem de todos esses fatores – ou quase – e não apenas do fator sensorial (“Dói aqui”).

“Fatores ‘não dolorosos’ modulam a dor através de aprendizagem associativa.”

Dr. Lorimer Moseley

Ora, o Moseley é admirado por quanto profissional da saúde bem informado sobre o campo da dor que eu conheça. (E são poucos – os bem informados que eu conheço, esclareço.)  E como eu já disse, ele treinou milhares destes.  No entanto, Moseley tacitamente admite que dizer a médicos e fisioterapeutas em sala de aula que o que fazem para aliviar a dor de seus pacientes é pouco e/ou está errado, obtém muita admiração, mas nenhum comprometimento quanto a fazer diferente. E que desse jeito, a possibilidade de se obter conhecimento sobre a dor “em nível de massa” – ou seja, dos pacientes – é zero.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Eu concordo. Você acha que exagero? Pensemos no Brasil, por exemplo. Que hoje vinte ou trinta médicos e outros tantos no ramo (ex.: fisioterapeutas, osteopatas, fisiatras, psicólogos…) – se for tudo isso, que duvido! – estejam efetivamente motivando seus pacientes com dor crônica à estudar o que está lhes acontecendo, e o que podem fazer eles próprios para amenizar seu sofrimento, é igual a… nada vezes nada, ou algo assim. Ora, são 210 milhões de habitantes, com 80% morando em áreas urbanas!  E olha que na Austrália, onde Moseley mora e deve ser o seu país de referência ao emitir seus juízos, o tamanho da encrenca é quase dez vezes menor do que no Brasil:  25 milhões com 90% em áreas urbanas.

Porém, o que mais me chamou a atenção na entrevista do Moseley foi o parágrafo seguinte, que vou repetir:

“… começar a usar pessoas de base (“grass roots people”) para mudar a prática de seus médicos. (Porque) quando essas pessoas aparecem, elas fazem perguntas que seus médicos não podem responder, a menos que sejam informados.”

Então, o que Moseley propõe? Curto e grosso, que os pacientes se eduquem em dor o suficiente para que depois saiam por aí constrangendo seus médicos, provavelmente despreparados, na procura de alternativas de alívio. Mais precisamente, que os pacientes, motivados por meio de recursos de massa (ex.: vídeos de curta duração) se informem sobre dor e depois cobrem dos que cuidam de sua saúde diagnósticos mais claros e mais oportunos, e tratamentos melhor guiados e menos baseados na farmacologia. Opções, enfim, menos convencionais que as de praxe (ex: “Eu vou passar uma receita deste anti-inflamatório, ele é forte, sabe? Mas vai lhe abaixar a dor”. Ou “Tem que se alimentar bem, se hidratar, fazer exercício e… foi um prazer, até a próxima”.)

Será possível? Estará o Moseley delirando?

O tempo dirá.

Veja outros posts relacionados...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *