As máscaras devem ser banidas! Ou não? Vamos debater?

As máscaras devem ser banidas! Ou não? Vamos debater?
image_pdfimage_print

Com o início das campanhas de vacinação pelo mundo afora – afora mesmo porque no Brasil o início de qualquer coisa relacionada ao combate à Covid-19 fatalmente atrasa – começam a aparecer alertas recomendando manter o uso de máscaras (e das outras medidas de higiene pública). Mas isso é no mundo mais ou menos civilizado, esse que agora reage com lockdowns ferozes ao avanço da pandemia. Noutras comarcas o que se debate é o oposto, ou seja, a liberalização do uso de máscaras. É algo inusitado, claro, mas precisa ser compreendido no contexto de praia, sol e loira gelada, o qual, pelo visto até agora, tudo justifica.

“Faz sentido um debate público numa sociedade em que quase ninguém foi ensinado a pensar?”

Peter Hitchens

Li por aí que no Rio de Janeiro irá se debater a liberação do uso de máscaras anti-Covid-19.

A região sempre foi pródiga em criatividade, mas suponho que dessa vez, dada a veloz propagação da pandemia no estado – há mais mortos por lá que do que em São Paulo, ainda que com a metade da população deste último – a iniciativa esteja baseada em evidências para lá de científicas – ensaios clínicos randômicos, sorumbáticos, cegos, caolhos e tal.

Esse debate promete ser vibrante. Assim que o Ocidente descobriu que o vírus se transmitia através de gotículas respiratórias – ainda não se sabia que os aerossóis eram até mais contagiosos – alguém teve a extraordinária ideia de colocar uma barreira entre as gotículas saídas do nariz de Fulano e os olhos, a boca e o nariz de Sicrano: a máscara facial. Ajudou bastante o fato de que mais de um bilhão de asiáticos já usavam o recurso há muito tempo e contavam vantagens a respeito.12

Pois bem, daí em diante houve uma produção fantástica de artigos científicos sobre máscaras faciais anti-Covid, fora posts, matérias jornalísticas etc. Esse blog também deu sua contribuição.3456

Já em agosto do ano passado podia-se encontrar absolutamente tudo o que era necessário saber sobre a matéria no artigoFace Masks in the New Covid-19 Normal: Materials, Testing, and Perspectives”, de autoria de uma dúzia de pesquisadores ligados à Agency for Science Technology and Research de Singapura.

Acredito que nada mais completo e prático tenha sido escrito desde então. Contudo a ele se seguiram vários outros artigos publicados pela The Lancet, uma das três revistas médico-científicas mais prestigiosas do mundo.789

Certamente, as máscaras faciais não blindam a gente do vírus. Um estudo recém publicado (05/12/20) na revista Proceedings of National Academy of Sciences, apontou que, dependendo da região, as máscaras reduzem o número de infecções pelo novo coronavírus entre 15% e 75% em um período de 20 dias após sua introdução obrigatória.

“Avaliando a credibilidade das várias estimativas, concluímos que as máscaras reduzem a taxa de crescimento diário de infecções relatadas em cerca de 47%.”, disseram os pesquisadores. O estudo também descobriu que certas faixas etárias se beneficiaram mais com o uso da máscara.

Outros têm apontado que máscaras de pano e máscaras cirúrgicas de baixa qualidade não filtram gotículas respiratórias finas, e menos ainda os aerossóis, que oferecem maior risco de infecção.

No entanto, salvo o caso de uma pesquisa dinamarquesa que logo foi desmentida, não há um só registro indicando que as máscaras NÃO contribuem a reduzir a infecção pelo novo coronavírus.

O mais rigoroso dos pesquisadores pode até descobrir que, dependendo do material e da forma de usar, as máscaras faciais não têm um grande efeito protetor para os usuários, mas nunca que elas não forneçam nenhuma proteção ou não ofereçam benefícios a terceiros.

“Para ser claro, a ciência apoia o uso de máscaras, com estudos recentes sugerindo que elas podem salvar vidas de diferentes maneiras: pesquisas mostram que elas reduzem as chances de transmitir e pegar o coronavírus, e alguns estudos sugerem que as máscaras podem reduzir a gravidade de infecção se as pessoas contraírem a doença.”

Lynne Peeples, jornalista científico e colaborador da Nature.

Assim as coisas, estou ansioso por acompanhar o tal debate carioca, programado para o próximo dia 18 de janeiro, nada menos que pelo comitê científico de enfrentamento à Covid-19. Deve ter ciência atrás de tudo isso, claro. Da mesma forma que deve haver evidências científicas sustentando a abertura das áreas de lazer e a liberação do estacionamento na orla, recentemente autorizada pela Prefeitura da cidade. Deve haver, certamente.10

No interim, para controlar a ansiedade da espera, convido você a degustar um aperitivo: uma eloquente aula prática sobre o uso de máscaras em tempos de Pandemia, ministrada ontem pelo inefável General Pazuello, Ministro não mais interino da pasta da Saúde.

Veja outros posts relacionados...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *