Bem que eu te falei!

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Uma dezena de organizações espalhadas pelo mundo afora – Londres, Singapura, Estados Unidos… – fazem projeções sobre o avanço da pandemia em regiões, países e cidades se baseando numa tecnologia de modelagem estatística chamada de machine learning. Raramente acertam em cheio até porque a intenção não é vaticinar o clima de um dia para outro, como no Canal do Tempo, e sim alertar governos sobre catástrofes virais que provavelmente vão acontecer dentro de alguns meses, ou anos, se medidas de contenção não forem adotadas já. Uma dessas organizações projetou em maio o cenário epidemiológico do Brasil para agosto. Esse post mostra se acertou.

“Apesar dos avisos, as mudanças raramente ocorrem até que o status quo se torna mais doloroso do que as mudanças.”

Ralph Waldo Emerson

“Nova projeção vê mortes de COVID-19 no Brasil em quase 90.000”.

Em suma, essa era a informação trazida à tona pelo artigo “O Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) da Universidade de Washington está projetando quase 90.000 mortes no Brasil relacionadas ao COVID-19 no início de agosto.”

E quando foi isso? No dia 12 de maio. Há quase 3 meses.

O Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) é uma organização global independente de pesquisa em saúde da School of Medicine da University of Washington, que fornece medidas rigorosas e comparáveis dos problemas de saúde mais importantes do mundo e avalia as estratégias usadas para resolvê-los. Junto com Center for Systems Science and Engineering da Johns Hopkins University, ocupa o podium das organizações do seu gênero na América do Norte.

A análise do diretor do IHME, Dr. Christopher Murray, incluía previsões para oito dos 26 estados brasileiros que foram os primeiros a ter mais de 50 mortes, incluindo São Paulo. E vaticinava:

“As projeções do IHME para mortes no Brasil indicam claramente que o sistema de saúde do país está enfrentando um desafio assustador.”

A análise do Instituto concluiu – há 75 dias atrás, insisto – que haveria 88.305 mortes no país. Essa marca fatal foi ultrapassada ontem.

“Nosso objetivo ao anunciar essas descobertas é informar aos formuladores de políticas a melhor forma de gerenciar e mobilizar a COVID-19″, agregava o Dr. Murray, em maio.

As previsões do IHME para todos os países e regiões do mundo são baseadas em um modelo matemático que captura o impacto de mudanças nos mandatos de distanciamento social, mudanças na mobilidade e testes e rastreamento de contatos. Permite prever um ressurgimento de surtos virais se e quando mais mandatos de distanciamento social forem relaxados.

E pelo visto, os analistas da equipe do bom doutor devem ter lido “Macunaíma”, assistido a uns dois programas de “Zorra Total” e previsto isso mesmo… ou seja, que o distanciamento social por aqui seria relaxado. Isso foi em maio.

E eles acertaram em cheio: 90.000 mortos na mosca. Surreal.

“Este modelo é a base para a estimativa preocupante de mortes no Brasil e em outras nações”, disse Murray. “Ele é atualizado regularmente à medida que novos dados são divulgados sobre casos, hospitalizações, mortes, testes e mobilidade. Ele pode informar as decisões sobre o mandato e, posteriormente, facilitar as políticas de distanciamento social para minimizar o risco de infecções.”

Recapitulando: Em maio havia um aviso científico de respeito que dizia mais ou menos assim “se vocês lá embaixo não se mancam e levam a sério isso de ficar em casa, dentro de 75 dias vão ter notícias muito ruins. Os dados estão na mesa, se quiser conferir”.

Ninguém conferiu. E se conferiu, se calou. Duas vezes surreal.

As novas projeções de morte estão disponíveis em https://covid19.healthdata.org/projections (Contato: media@healthdata.org)

Nota do blog: O Institute for Health Metrics and Evaluation está comprometido com a transparência e disponibiliza amplamente essas informações para que os formuladores de políticas tenham as evidências necessárias para tomar decisões informadas sobre a alocação de recursos para melhorar a saúde da população.

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