Burnout e dor crônica – Parte 1

Burnout e dor crônica – Parte 1

O burnout, esgotamento profissional ou estresse crônico no trabalho, é antes de mais nada, um distúrbio psíquico de caráter depressivo. Nessa semana, as redes de TV noticiaram que a Organização Mundial da Saúde o teria reconhecido como “doença crônica”. Será?

“Burnout é a maneira da natureza te dizer que… você é um zumbi, um membro dos mortos-vivos, um sonâmbulo.”

Sam Keene

Não, não foi proposital. Isso de a gente ingressar com o aplicativo PENTAGONO (que ajuda a tratar do estresse) nas plataformas Apple e Google nessa semana, e a Organização Mundial da Saúde noticiar sobre o burnout (no intuito de ajudar a tratar do estresse) foi pura coincidência. Eu juro. (Ou será que lá, em Genebra, eles sabiam? Vai saber…)

Enfim, vamos ao que interessa. A “síndrome de burnout” foi incluída na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), prevista para começar a valer em 2022. O significado dessa inclusão foi explicado num artigo publicado aqui há duas semanas:

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Opa! Recuando, recuando… “A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que o ‘burnout‘ é um ‘fenômeno ligado ao trabalho’, uma ‘condição médica’ e não uma doença, declarou nesta terça-feira um porta-voz, ao apresentar novas explicações sobre o que foi anunciado na véspera pela agência especializada da ONU.

“Eu não estou chateado que você mentiu para mim, estou chateado que a partir de agora eu não posso acreditar em você.”

– Friedrich Nietzsche

Isso de alguém no governo de qualquer coisa afirmar algo um dia e negar exatamente o mesmo no dia seguinte pode deixar suecos, noruegueses e islandeses atordoados, mas não a nós, veteranos da pátria amada. Então, vamos passar por cima das palhaçadas cotidianas e pressupor que, convenhamos, quem leu a notícia deve estar se perguntando: o que é o tal de burnout, a quem afeta e, também, o que ele tem a ver com dor crônica, toda vez que está sendo comentado aqui, nesse blog?

O burnout, esgotamento profissional ou estresse crônico no trabalho, é antes de mais nada, um distúrbio psíquico de caráter depressivo. Ele foi definido pela primeira vez pelo psicoanalista Herbert J. Freudenberger no Journal of Social Issues em 1974 como decorrente de “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”.

Assim, a OMS cuidou de circunscrever o burnout “… especificamente a fenômenos relativos ao contexto profissional e não deve ser utilizado para descrever experiências em outros âmbitos da vida”.

Psicólogos portugueses, autores de um bom artigo sobre o fenômeno, vão mais fundo. O burnout seria “… uma resposta prolongada a estressores interpessoais crônicos no trabalho”, e resultaria “… da percepção por parte do sujeito de uma discrepância entre os esforços realizados e os alcançados no seu trabalho” (Montero-Marín, García, Campayo, Mera, & Hoyo, 2009; Schaufeli, Bakker, Hoogduin, Schaap, & Kadler, 2001; Schaufeli & Buunk, 1996).

Eu prefiro uma definição ainda mais rasteira:

“Burnout é o que acontece quando você tenta evitar ser humano durante tempo demais”.

Michael Gungor, autor de The Crowd, The Critic And The Muse: A Book For Creators.

Quanto a relação entre burnout e estresse crônico, o primeiro a dizer é que a diferença entre essas duas condições é a recuperação. No caso do burnout ela não existe – o que me leva a vê-lo como uma consequência, ou uma versão do estresse crônico, também carente de recuperação. (Aliás, leio por aí que a OMS opta pelo primeiro, o burnout seria “…uma síndrome resultante de um estresse crônico no trabalho que não foi administrado com êxito”. Bingo!).

E a quem o burnout mais afeta? Aos profissionais que aturam clientes necessitados ou problemáticos. Ou seja, flanelinhas, políticos profissionais e dos outros, advogados especializados em delações premiadas relacionadas à Lava Jato e, last but not least, também profissionais da saúde, médicos principalmente – ainda que a maioria destes ainda têm sérias dificuldades para entender seus pacientes como clientes, ou vice-versa, ou como quiser.

E você quer saber como o burnout afeta esse povo? Nesse caso, procure pela segunda parte desse post. E pela terceira, se tiver paciência.

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