Como invejo você!

Como invejo você!
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As imagens das praias lotadas nesse feriado falam por si sós. O que elas significam? Que a dificuldade para enfrentar o vírus no Brasil não é médica, sanitária ou econômica. É moral.

“O invejoso emagrece com a gordura do vizinho.”

Sócrates

Eu queria ser como você, confesso. Ora, como eu queria! Cara ao sol, sinfonia de cores, gente rindo, água de coco, essas coisas. Ah, e o Chico Buarque cantando “Vai passar”. Isso que eu queria!

Mas não posso. Questão de risco. Eu sou desses, marcado para entregar os pontos… se esse vírus me pegar. Então, fico aqui em casa, pensando na imortalidade dos anjos e vendo você na TV, como eu já disse: cara ao sol, sem máscara facial e tudo mais. Garoto do Rio. Não importa se de manhã você saiu de Madureira ou chegou de Divinópolis. Garoto do Rio mesmo assim, certo? Saúde, irmão!

Você nem imagina o quanto eu fico feliz por você e pelos que riem do seu lado. Quanta alegria! E quantas gotículas, aerossóis e demais moléculas voadoras, revoluteando ao seu redor. Uma festa viral, por assim dizer.

E então, de pura inveja, eu confesso, me pergunto: O que será que ele(a)… estou falando de você, claro… enfim, o que será que ele(a) sabe, que eu ignoro? Ou melhor ainda: de que material ele está feito que se atreve a fazer o que faz? Qual é a “trampita”, por trás de tanta valentia? Porque em sã consciência, claro, ninguém é tão imbecil ao ponto de ir se meter numa praia lotada, contrariando a batelada de epidemiologistas, infectologistas, psicólogos e ornitólogos que desfilam pelos canais de TV todo fim de semana, aconselhando-nos horas a fio, impiedosamente, não fazer exatamente o que você está fazendo.

Ora, o conselho esse, é fake news, eu sei. Mas não importa… aliás, vivemos numa época em que o que importa nada importa, já notou? Bem, talvez não venha ao caso. O que eu quero saber, sim, é o que você sabe. E agora eu vou lhe dizer por que da minha insistência.

Preste atenção nessa imagem.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Prestou? Sacou?

Bem, eu vou ajudar. Preste atenção somente as curvas vermelha e verde, Estados Unidos e Brasil, respectivamente. (A curva marrom é a da Índia, não se preocupe, o problema deles está só começando…)

Agora foque no círculo preto, na barriguinha da curva vermelha. Feriado por lá, 25 de maio, o Memorial Day. Coincidiu com a flexibilização da quarentena em vários estados, após 40 dias mais ou menos, abriram-se bares, comércios e etcétera. Agora preste atenção no trecho demarcado à direita da barriguinha. Pimba! A curva epidemiológica dos gringos disparou legal. Nem o foguete da NASA faria melhor.

Agora vamos para o momento em que as curvas somem, sempre à direita. E sabe por que somem? Porque aí é o dia de hoje. Feriado por aqui (Dia da Independência) e também lá (Labor Day).

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

Os americanos, sempre esses hipocondríacos, entupidos de opioides e ansiolíticos, andam meio preocupados. Pelo visto, eles acham que depois do feriado o pulo que a curva epidemiológica deu em maio vai se repetir. Por lá. Por aqui, bem, isso não vai acontecer. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, não é mesmo? Se os gringos se ferrarem de novo, e o número de mortos duplicar, como lá duplicou (ou quase) depois daquele feriado em maio… qual é o problema? Nós aqui, eles lá, poxa!

Aliás, eis algo que eu queria dividir com você. Eu acho que esse vírus ataca todo mundo, gente de todas as idades, gêneros, bolsos… algo universal, sabe? É o que a Organização Mundial da Saúde cansa de alertar. Pode ser, porém menos no Brasil. Veja quanta saúde aí, na praia, junto consigo! Deus é brasileiro e tudo mais. Vendo você na TV, amigo, se eu duvidei disso um dia – a partir de hoje não duvido mais.

Ok , já entendi. Aquilo que você sabe… o que o levou a pensar valentemente que febre, falta de ar, perda de sabor e olfato, dores generalizadas, e quem sabe, uma entubadinha qualquer e depois sequelas cardíacas, hepáticas e respiratórias por muito tempo, jamais o afetariam de forma alguma… isso, você não vai me dizer. Tá bom, eu entendo. Cá entre nós, se eu soubesse o que você sabe, eu não estaria aqui, na solidão de uma sala, em terra… não, em asfalto firme, ouvindo a última contagem dos mortos pela Covid-19 que a TV passa todo dia na hora do almoço para nos animar, e vendo esse povo todo se esbaldar em Ipanema! Claro que não! Você tem sorte e eu não. A vida é assim.

Então, amigo, foi um prazer tê-lo conhecido, ainda que em termos. Desfrute aí, em meu nome, do que Deus lhe deu (e a mim negou). E será até a próxima. Quando é isso? Bem, dentro de um par de semanas, eu acho. É o que dizem que demora a incubação do vírus. Entre 7 e 14 dias, quando a pessoa tem sorte. E eu não acredito em sorte.

Trululú!

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nenhum

1 comentário
  1. como sempre maravilha . Vamos ver o Rio de janeiro em 15 \ 20 dias . abraço

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