Crocodilo Dundee e a Cobra - Parte 1

Crocodilo Dundee e a Cobra - Parte 1

Você vai se surpreender com o que pode se aprender sobre dor a partir de uma simples picada de cobra, independentemente dela ser a segunda mais letal do planeta.

O maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas a ilusão do conhecimento.

Stephen Hawking
Lorimer Moseley, alguém disse, é uma versão neurocientífica do Crocodilo Dundee. Talvez o mais prolífico dos neurocientistas que atualmente revolucionam o conhecimento sobre a dor e as maneiras de aliviá-la, ele é também um showman. Munido de um sotaque aussie quase ininteligível e um ar matuto, o homem sabe cativar audiências pelo mundo fora. Atualmente Fellow na Oxford University e dono da cadeira de fisioterapia na University of South Australia, Moseley tem feito mais de 200 aparições em congressos sobre Dor e Neurociência em 28 países.

O vídeo a seguir corresponde a um incidente há tempo por ele protagonizado ao sul de Sidney, num local afastado da civilização. A narrativa, que depois viralizou na rede, faz parte da estratégia de Moseley para superar o que ele diz ser o seu maior desafio: convencer as pessoas de que o que elas sabem sobre dor, ou pensam que sabem, está errado.

Assista o vídeo e dentro de pouco mais de 5 minutos voltamos a conversar.

VIDEO


A meu ver, pode-se deduzir muita coisa do vídeo em pauta. E de passagem, entender melhor o que começa a ser chamada de “nova neurociência da dor”.

Há, em primeiro lugar, uma preocupação dos seus representantes – não é apenas Moseley, no seu site participam cientistas de vários países – por se fazer entender. Daí o uso de anedotas e histórias para passar o recado. O profissional da saúde porventura interessado em educar outros (alunos, pacientes ou colegas) deveria tomar nota disso.

Outro ponto. Moseley encerra a narrativa com uma frase crítica, misteriosa. It´s all about meaning, ele diz. O que quer dizer com isso? Que diante dos sinais de perigo que o Sistema Nervoso Central traz – desde a periferia, no caso da anedota da cobra marrom – o cérebro se pergunta: “É isto necessariamente importante (perigoso)?” E o significado que a resposta a essa pergunta tem é o que determina ou não a experiência da dor.

“A Dor é uma opinião cujo significado depende do contexto”.

Lorimer Moseley
Terceiro ponto: em ambos os casos, o anterior é um processo – nociceptivo, é o nome – que acontece fora da consciência, fora do controle do hospedeiro. A dor propriamente dita vem à tona um milissegundo depois, se o cérebro assim determinar.

Uma quarta dedução emana das duas anteriores: quem faz a dor é o cérebro – e não o tecido onde a lesão ocorre.

Quinto ponto: Dor não é igual a dano. No primeiro episódio Moseley foi picado pela segunda cobra mais letal do mundo… e continuou caminhando por algum tempo. No segundo episódio, ele foi arranhado levemente por um galhinho do mato… e caiu no chão se contorcendo de dor.

Ora, este post está muito comprido. O meu Controle de Qualidade diz: pára por aí. É o que eu vou fazer, e para seu benefício, caro leitor. Você precisa refletir sobre o aqui apresentado, que não é pouco. Cada um dos pontos acima, além de levantar as sobrancelhas de 99% dos leitores, é capaz de gerar dezenas de artigos científicos e uns quantos textos de estudo.

Numa segunda parte dou continuação às minhas deduções. Faltam mais quatro. Importantes.

Até lá.

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