Crocodilo Dundee e a Cobra - Parte 2

Crocodilo Dundee e a Cobra - Parte 2

Uma imagem vale mil palavras. E uma imagem animada, contando uma história engraçada e, ao mesmo tempo, educativa no que se refere a como a dor hoje é vista pela neurociência, vale muito mais. Confira isso nesse video memorável do Dr. Lorimer Moseley.

Este post é a continuação de outro sobre dois incidentes protagonizados por Lorimer Moseley, um neurocientista australiano especializado em dor. A estória é narrada pitorescamente por ele mesmo no vídeo seguinte. Se você já o assistiu (e ainda lembra da trama) passe batido e vai direto para a sexta dedução que eu retirei dele. Caso contrário, aqui vai o vídeo de novo:

VIDEO



Apenas lembrando as cinco deduções anteriores:

  • Anedotas e estórias são formas adequadas para ensinar os leigos sobre dor.
  • O cérebro decreta dor somente se perceber que há perigo/ameaça.
  • O que precede a dor – a extração de significado do estímulo recebido – ocorre fora da consciência.
  • Quem faz a dor é o cérebro – e não o tecido onde a lesão ocorre.
  • Dor não é igual a dano.


Sexto ponto: que a dor, quando aguda, tem função protetiva, meio mundo sabe. Em Painful Yarns, um livreco simpático de sua autoria, Moseley conta após o segundo episódio – o do galinho do mato – ele ter sofrido cólicas terríveis durante uma semana. Sinal de que “…o cérebro, num nível implícito profundo, não estava convencido do perigo ter passado”. Ou seja, o cérebro não apenas nos protege na hora de uma agressão, mas o tempo todo.

Toda dor é uma função do cérebro, significando que é produzida pelo cérebro. Uma lesão física ou um problema emocional pode ativar a dor.

O sétimo ponto surge sutilmente de outra observação sobre o segundo episódio e também retirada de Painful Yarns: “Enquanto eu caminhava, eu lembro, dessa vez com clareza, ter sentido uma dor pungente e afiada na lateral da minha perna esquerda, justo acima do tornozelo. Se eu estivesse distraído talvez não a sentisse. A distração permanece como o nosso analgésico mais potente”. Esta última afirmação tem sido sobejamente comprovada, em laboratório ou na vida real. Neste último caso, sobram evidências envolvendo soldados que em combate, mesmo feridos gravemente, continuam lutando como se nada – ao menos por um tempo.

As minhas duas últimas deduções do episódio protagonizado por Moseley e sua cobra são cruciais para o entendimento desse bicho raro que é a dor crônica. Ambas merecem posts por si sós.

Oitavo: a dor possui memória. “… a única experiência em que eu quase morri é suficiente para causar uma dor esquisita a próxima vez que uma situação similar ocorre”. Painful Yarns (pg 67)

Você já sentiu a presença de uma velha lesão no seu corpo? De tempos em tempos? A ferida de outrora certamente sumiu, mas a dor não. Eu machuquei o tornozelo correndo na praia há 30 anos e ele nunca perde a chance de, uma vez ou outra, confirmar presença. Será ainda algo físico? As várias tomografias tiradas nada acusam. É que essa dor é psicológica. Ela é sentida no corpo, é verdade, e já ouvi muito fisioterapeuta debitá-la a que “o músculo tem memória”. Duvido, quem tem memória é o cérebro e o músculo faz o que este mandar. No caso da dor crônica, o cérebro aprendeu a fazer dor, memorizou… e não parou mais.

“Memórias são como  balas. Algumas passam zumbando e só assustam você. Outras te rasgam todo e te deixam em pedaços. ”

– Richard Kadrey, em Kill the Dead

Por fim, o último ponto: o cérebro pode errar. Errou quando a picada daquela cobra não matou Moseley. O significado imediatamente retirado dela foi: “Nada importante. Vamos em frente”. Logo depois, diante de novas informações vindas do corpo, o cérebro mudou de opinião e mandou o sujeito para a UTI.  A dor crônica, ao que parece, é também um erro. Da Natureza. Não há ferida visível, lesão notória, enfim, a provocá-la, e no entanto o cérebro, mal informado, é iludido e a decreta. Parte dessa maldição é genética, parte fabricada pelo estresse, e ainda há outra parte que ninguém consegue explicar direito. Viva-se com isso!

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