Dançando com (a) dor

Dançando com (a) dor
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A dor é uma mistura de diferentes fatores, complexos por natureza (não apenas coincidência ou azar), que a tornam um fenômeno estranho, difícil de explicar, quando mais de aprender. A dança, porém, tem a capacidade de expressar mensagens complexas e suscitar uma reflexão talvez com maior vigor que a leitura. Nesse post apresento um breve vídeo sugerindo, através da dança, o que a dor crônica evoca em adolescentes. Como em toda produção artística, a mensagem não é uma só. Cada espectador precisa construir a sua.

“A biologia da dor nunca é realmente direta, clara, mesmo quando parece ser.”

Dr. Lorimer Moseley, em “Reconceptualising pain according to modern pain science”

Atualmente eu estou preparando um curso online sobre dor crônica para pacientes. É uma total perda de tempo, eu sei. O blog vai fazer dois anos dentro de dois meses, recebe mais de 30.000 mil visitantes por mês – gratíssimo eu estou – mas nada me leva a pensar que algumas, se alguma, dessas almas caridosas queiram aprender sobre dor. E muito menos sobre dores crônicas, muitas delas inespecíficas e assustadoras. Obviamente, a procura é por conhecer, ler, ficar sabendo, entender, tudo isso… mas não por aprender, algo bem distinto. Isso exige esforço, foco e paciência, commodities pessoais escassas. É sempre mais prático passar pela farmácia.

Não, não estou menosprezando os meus paroquianos por adotarem essa postura arredia em relação a dor. Ela é natural. O tema não é simpático, e quem se interessa por ele é porque está sofrendo e quer sair dessa condição o mais rápido possível. E aprender sobre dor, enfim, não rima com rapidez, praticidade, cura rápida, essas coisas. Eu mais do que entendo.

Mas, enfim, eu me divirto montando pedaços de conhecimento sobre a dor à procura de uma mensagem compreensível para quem tem dor e ajude a se livrar de crenças equivocadas que, como se sabe, afetam a psique e acabam amplificando a dor. Em cujo caso, haja farmácia!

“Uma das principais qualidades da dor é que ela exige uma explicação.”

Anne Carson

Explicar dor, no entanto, é parada dura. Dor crônica, especialmente. Quem tentou se deu mal. Eu, por exemplo, tento há mais de um ano. Publiquei aqui dois artigos excelentes, de autoria de duas figuras respeitadíssimas no campo da neurociência da dor – ocorre que não há como explicar a dor sem pagar pedágio na neurociência, sinto muito – Jo Nijs e Lorimer Moseley. O resultado? Próximo de zero. A Lei do Trânsito teria tido mais visitas.

Em compensação, publiquei também “A dor é estranha”, de Paul Ingraham, que foi muito bem e com razão. Bem escrito, ameno e bem fundamentado, o artigo conta, por exemplo, que “A dor crônica não é um sinal confiável do que realmente está acontecendo. Ela é uma mistura de diferentes fatores, complexos por natureza (não apenas coincidência ou azar). No mínimo, a dor sempre tem uma camada de complexidade gerada pelo cérebro. Na pior das hipóteses, o sistema de dor pode funcionar mal de várias maneiras coloridas, causando uma dor muito mais intensa e interessante do que apenas um sintoma – às vezes, a dor é o problema.” Ou seja, a dor é estranha e pelo visto tudo bem se ficar apenas nisso.

Mas não é só isso. A dor pode ser recorrente. Sumir até dar a impressão de ter se extinguido por completo e para sempre e, no entanto, ressurgir do nada, de repente ou aos poucos.

E o que me diz da dor referida, a percebida em um local diferente do local do estímulo? Ocorre em pacientes com dor musculoesquelética crônica (por exemplo, disfunção temporomandibular (DTM), fibromialgia e dor lombar crônica). Naqueles com DTM, por exemplo, dores musculares e/ou articulares da mandíbula podem se referir aos dentes e outras partes da região orofacial.

Por fim, oh, l’amour! – a dor emocional ou social (ex.: de cotovelo, de rejeição) com o tempo pode redundar em dor física. Isso ocorre porque o cérebro quase não diferencia essas dores, uma vez que ambas ativam mais ou menos as mesmas vias neurais.

Ou seja, a dor é muito estranha. E como ninguém está livre de senti-la um dia, eu penso que faria bem entender um pouco do assunto. Mas, claro, esse sou eu. Apenas.

“A ciência da dor revela uma sensação volátil e enganosa que muitas vezes é mais do que apenas um sintoma e, às vezes, pior do que tudo o que a iniciou.”

Paul Ingraham

Enfim, entender o que é dor não é para todos e requer algum estudo. Uma imagem que incite reflexão, todavia, pode encurtar o caminho. “Uma imagem vale por mil palavras”, não é o que dizem? Então por isso nesse post eu vou lhe apresentar “Dancing with Pain”, um breve vídeo produzido pela Dra. Leora Kuttner, psicóloga e pediatra sul-africana. Os protagonistas sofredores são adolescentes com dores variadas. E uma dançarina. O nexo da trama, aliás, é a dança.

“Dancing with Pain” é uma proposta corajosa. No mundo da saúde, o uso de imagens, cores e música para expressar conceitos ou ideias é coisa muito rara. A Dra. Kuttner, que mora no Canadá e me autorizou a mostrar o vídeo no blog, quis expressar o difícil que é lidar com a dor crônica, em parte porque dói e em parte porque não se entende porque dói, muito menos quando vai parar de doer.

E por que a dança? Confesso que não sei ao certo. Talvez por ela melhorar a qualidade de vida e a função física, bem como reduz a ansiedade, a depressão e o impacto da doença em pessoas com dor crônica – isso está provado.

Ou porque, se deixar, essa dor tem a perversa capacidade de “fazer qualquer um dançar” por muito tempo, querendo ou não.

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