Depressão, Ansiedade, Raiva & Cia.: As dores crônicas na pós-pandemia

Depressão, Ansiedade, Raiva & Cia.: As dores crônicas na pós-pandemia
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Este post comenta um bom artigo científico que fundamenta a previsão de que haverá uma Quarta Onda pós-epidemia no Brasil. Contingentes enormes de pessoas que, por sofrer dor social, irão precisar de um tipo de apoio sanitário – focado no diagnóstico e tratamento de distúrbios mentais – hoje inexistente no país. O mérito do artigo é o de explicar, com “base na neurociência da dor”, primeiro, como o isolamento social per se é capaz de gerar uma dor semelhante à dor física, e segundo, como essa dor, a dor social, prevista na pós-pandemia, representa uma ameaça à saúde individual e coletiva que precisa ser encarada desde já.

“Existem feridas que nunca aparecem, que são mais profundas e dolorosas do que qualquer coisa que sangra.”

Laurell K. Hamilton

A missão deste blog é traduzir o que a ciência tem a dizer ao portador de uma dor crônica não maligna. Nada fácil, porque pelo geral este não vê sentido em estudar o que ocorre consigo, e muito menos em admitir que não há cura e que a única saída é recorrer à própria capacidade mental para obter algum alívio.

Contudo, de repente oportunidades se apresentam. O artigo Physical, emotional, and social pain during Covid-19 pandemic-related social isolation  é uma delas. Eu decidi comentá-lo por vários motivos: é um bom artigo, bem escrito e fundamentado em ciência, muito oportuno, os autores são brasileiros e, o mais importante, põe foco no maior obstáculo para educar muita gente em dor: o fato de a dor ser comandada pelo cérebro (e não pelo tecido agredido).

Essa noção soa tão extravagante aos ouvidos dos pacientes que até os médicos que intelectualmente a aceitam, pouco se esforçam em repassá-la, quanto mais em ensiná-la. Com isso, o verdadeiro objetivo da educação em dor num país do tamanho do Brasil – que é levar conhecimento sobre dor a milhões de pessoas para elas aprenderem a controlar o seu sofrimento – fica inviabilizado.

Agora vamos ao que interessa, mas não sem antes alertar que quem comenta é um leigo, e não um acadêmico ou um cientista especializado em dor. É um comentário, digamos, de um leigo para outros leigos – todos se queixando de alguma dor crônica.

A linha de raciocínio dos autores do artigo é clara: O isolamento social provoca dor social e esta dor faz a pessoa sofrer tanto quanto a dor física. Como consequência da pandemia, então, pode estar havendo, ou se esperar para logo, um significativo acréscimo de sofrimento no país.

O mérito do artigo consiste em provar, com contundência e prolixidade científica, que essa previsão é acurada.

A prova de que a dor provocada em alguns pelo isolamento requerido pela pandemia se assemelha a uma dor física, se apoia em dois pilares.

O primeiro é um achado neurocientífico: “a dor emocional imita certos aspectos da dor física em termos de atividade cerebral e percepção da dor”, extraído dos experimentos em exclusão social de Einsenberg e outros.1

  • O artigo mostra detalhadamente como se chega nessa percepção da dor, que é através de terminações nervosas que sinalizam ao cérebro que algo não anda bem na periferia ou nas vísceras. Os sinais fluem por vias neurais, que podemos imaginar como correntes elétricas mensageiras se projetando pela medula até o tronco cerebral.
  • A atividade cerebral ocorre quando, do tronco cerebral para cima (nas regiões corticais) e no intuito de entregar suas mensagens, essas vias neurais atravessam, conectam-se entre si e depois retornam de diversas regiões que 99,9% da humanidade nem sabe que existem, nem para que servem. Tudo isso para o cérebro interpretar o significado do sinal recebido, e decidir, por fim se o perigo que ele representa justifica declarar dor.


A dor resulta então dessas idas e vindas neuro-elétricas e obviamente o processo é muitíssimo mais complicado do que o desenhado aqui. Mas dá para vislumbrar porque se diz que a dor é um fenômeno 100% cerebral. aqui para um exemplo.

Isso implica em que ao receber um estímulo, em paralelo ao processo nociceptivo rola também um processo cognitivo-afetivo. A pessoa toma consciência do que houve, mergulha na memória, extrai dela um significado e de tudo isso emergem emoções e sentimentos que, claro, em geral não são alegres. E por esse motivo acabam por gerar dor. “Dor social”, no caso. (As aspas destacam que o “social” aqui mencionado se refere à dimensão “psicosocioespiritual” do modelo).

A ideia de que na modulação da dor participam elementos físicos e não-físicos tem meio século e foi, e continua sendo, revolucionária. Mas hibernou durante 30 anos até ser revitalizada graças à irrupção da neurociência no campo da dor.2

Por um lado, a tecnologia de imagem (ex.: fMRI) favoreceu o advento de novas teorias sobre a relação dor/cérebro e também de novas técnicas (ex.: ECT, TMS, biofeedback, graded motor imagery). Por outro lado, o fracasso da medicina clínica em erradicar a dor crônica sem recorrer a drogas, fez com que a convicção secular, de a dor ser algo somente físico, e os processos motivacionais, cognitivos e afetivos a ela relacionados não passarem de “reações à dor”, ruísse aos poucos. Assim sendo, uma espécie de nova ideologia da dor baseada em neurociência surgiu como alternativa médica. Teoricamente ao menos.345

O segundo pilar sustentando que a dor social dói tanto quanto uma dor física é mais bem um conceito: a dor seria a resposta a uma ameaça e não necessariamente a uma agressão efetiva. Ele foi proposto por Moseley há 20 anos e gerou uma celeuma gigantesca entre médicos e fisioterapeutas interessados em dor.6 Isso porque a noção, entre outros desafios ao enfoque convencional da dor, invalida o pressuposto cartesiano de a dor ser “…o resultado da atividade de um tipo de receptor, fibra ou centro cerebral unicamente responsável pela complexa experiência psicológica da dor”.7 Ora, uma ameaça não é um fato, mas… uma ameaça apenas. Ela precisa ser avaliada em termos do perigo que representa, e requer investigação muito prolixa. Por isso, classificar um sinal de ameaça/perigo como dor, ativa no cérebro uma ampla indagação dos inúmeros fatores de perigo de todo tipo salientes no momento do estímulo. Entre esses fatores estão os “psicosocioespirituais”.

Fora isso, uma ameaça tem conotação perigosa, inclusive de origem social. O artigo recolhe esse conceito ao afirmar que a dor social depende de: “… a atividade do cérebro associada ao componente afetivo da dor, envolvendo a prevenção de riscos de danos sociais, e serve como um reforço baseado na punição para ensinar o organismo a evitar ameaças de estímulo no futuro.” O cérebro, então, confere à dor social uma função protetiva e pedagógica. Grosso modo, o mesmo que ele espera conseguir com a dor física.

Enfim, tudo isso para fundamentar que a dor social existe e pode nos fazer sofrer tanto quanto a dor física.

Na segunda parte do artigo os autores afinam mais a pontaria ao mirar no que o anterior significa no contexto da pós-pandemia Covid-19. Ele destaca as dificuldades para o gerenciamento da dor impostas pela pandemia, iguala o seu impacto psicopatológico ao do estresse pós-traumático, supõe que este impacto seja mais intenso nos que já portavam comorbidades antes do surto viral, e por fim, antevê como consequência a exacerbação de comportamentos e distúrbios psicológicos (medo, ansiedade, estresse, raiva, solidão) e suas sequelas incapacitantes. O processo de catastrofismo, também imaginado em alta na pós-pandemia, recebe destaque por estar comprovadamente relacionado à amplificação da dor mencionada.

Essa espécie de “pacote de maldades” emergindo da pós-pandemia se assemelha ao previsto originalmente numa escura publicação canadense há dois meses, sob o sugestivo título de Quarta Onda.89

A reboque, vários outros artigos descreveram estragos causados na psique de populações inteiras por pandemias anteriores… Projeções sobre o impacto psicológico causado pela pandemia, as equipes médicas e de enfermagem na linha de frente foram também aventadas pelos primeiros cientistas chineses a publicar na mídia científica sobre o ocorrido em Wuhan, Xangai e outras cidades do país.10

O artigo brasileiro, todavia, é um dos primeiros, se não o primeiro, a fundamentar neuro-cientificamente essa previsão. A meu ver – o ponto de vista de um leigo, insisto – a sua contribuição ao entendimento da Quarta Onda é importante porque uma coisa é você predizer que um elefante vem a seu encontro e vai lhe passar por cima e outra, saber o que leva ele a fazer isso. Com essa segunda informação você pode, quem sabe, se apartar em tempo e conseguir que ele pise no seu pé e não na cabeça. Menos mal.

Em suma, o artigo fortalece a suspeita de que haverá mesmo uma Quarta Onda no Brasil: as vicissitudes criadas pela pandemia via isolamento social & Cia. vão provocar dor social na forma de depressão, melancolia, medo e raiva, entre outras coisas, que por sua vez, em alguns casos irá desembocar em dor física – em escala coletiva. Pensando catastroficamente, a somatória de ambas as dores pode ser um país inteiro sofrendo de hipersensibilização dolorosa ou coisa que o valha. Os milhões que antes da pandemia não sentiam dor, agora sentirão alguma (alodinia), e os milhões que já sentiam alguma, agora sentirão mais ainda (hiperalgesia).

Enfim, a linha de raciocínio do artigo é impecável e sua fundamentação, sólida e atualizada toda vez que construída a partir de uma revisão literária minuciosa de construções e arquitetos que a academia respeita (Eisenberg, Apkarian, Moseley, Puentedura, Wijma e outros).

Onde a obra pode decepcionar o leigo é na sua praticidade. Aliás, essa é a limitação de todo trabalho científico, especialmente os da neurociência da dor: a de ser indecifrável, e por isso inútil, para quem não é educado no assunto. O leigo sempre espera um manual de instruções, uma guia que o faça resolver seus problemas concretos no menor tempo possível – quando mais se esses problemas fazem sofrer. Os autores do artigo parecem saber disso ao acenar com a educação em dor e a telemedicina como “paliativos” no enfrentamento da Quarta Onda. Porém, a educação em dor, enquanto conceito pedagógico de alcance massivo, é uma ilusão no Brasil de hoje. E a telemedicina, uma modalidade de prestação de serviços de saúde de eficácia incerta, em qualquer lugar do mundo. No momento, nenhuma dessas opções é operacional e a Quarta Onda está para arrebentar, se já não o fez.

E ainda pensando como um leigo à vista de um artigo como o aqui comentado, de inquestionável valor acadêmico: para que serve saber que “… a Covid-19 pode mudar o cérebro, via neuroplasticidade, com diferentes picos de densidade sináptica vindos dos estímulos ambientais que ocorrem durante a vida”?

Serve, claro, para nós 1) percebermos a ameaça e 2) usarmos o mesmo mecanismo, a neuroplasticidade, para reverter ou driblar mentalmente essa mudança indesejada. Mas o leigo jamais irá chegar nessa conclusão sem antes saber de neuroplasticidade, sinapse, vias neurais, processo nociceptivo, sistema límbico, ACC e sabe-se lá quantas coisas mais. Coisas que hoje, infelizmente, ele, o paciente leigo, está longe de conhecer por intermédio de quem deveria educá-lo, os profissionais que cuidam da sua saúde.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

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