Depressão & Dor crônica: a personalidade tem a ver com isso? – Parte 2

Depressão & Dor crônica: a personalidade tem a ver com isso? – Parte 2

A dor crônica ainda é um quebra-cabeça. E se você acrescentar a depressão? Aquilo se torna indecifrável e, portanto, incurável. Pode ser, contudo, que dor crônica e a depressão, juntas, tenham a ver com um tipo de personalidade específico, é o que alguns cientistas comportamentais suspeitam há tempos – e o que esse post mostra.

“Entender nossas personalidades torna significativamente mais fácil mudar as coisas ao nosso alcance.”

Anne Bogel, escritora

Na primeira parte desse post apresentei dados sugerindo haver tipos de personalidade mais propensos à dor crônica e a depressão, juntas, do que outros. Dois tipos de personalidade: ISFJ ou ISTJ, conforme a classificação Myers-Briggs, especificamente. Nessa segunda parte vou descrevê-los e comentar o que resulta de sua eventual combinação.

O Conservador (ISFJ)

Superconfiável, quieto, responsável e consciencioso. Sofredor, leal e considerado. Trabalha devotadamente para cumprir com suas obrigações. Dá continuidade a eventos e relacionamentos do passado. Guardião da história e da memória. Bom prestador de serviços enquanto souber que estes são considerados necessários. Mais leal com as pessoas do que com as instituições. Desconfortável quando em posição de autoridade. Usualmente sobrecarregado de trabalho.


O Fiador (ISTJ)

Sério, quieto, consegue sucesso concentrando-se e sendo rigoroso. Ordenado, objetivo, lógico, realista e confiável. Assume responsabilidades. Cumpre com seus deveres sem floreios ou fanfarras. Usualmente passa despercebido. Quando dá a palavra, compromete a honra. Gosta de comemorar ritualmente em ocasiões festivas, casamentos, convenções etc.

A escolha desses dois tipos de personalidade como mais propensos a ter dor crônica faz sentido. Ela é consistente com as ideias de vários cientistas e médicos especializados no estudo da dor – John Sarno, Gabor Maté, James Alexander, Howard Schubiner…

O Administrador

Na vida real, esses dois tipos de personalidade podem se superpor. O que resultaria disso? Um bicho que eu denomino Administrador. Aposto que você o conhece.

Você se lembra das suas festinhas de criança, quando Fulano sempre fazia a lista dos convidados? E depois calculava quantas Coca-Colas per capita iriam ser consumidas? Ou na faculdade, onde as anotações feitas em aula por Sicrano salvavam a pele da turma?

0 Administrador é, numa palavra, responsável. O seu senso de dever é profundo; a sua necessidade de merecer confiança, quase doentia. Ele quer saber exatamente o que se espera dele e dos outros e, sobretudo, das regras do jogo. Esse tipo de pessoa consome obrigações — tarefas, prazos de entrega etc. — como Popeye o espinafre. E por isso, cultua a lei e adere à rotina afinal, as formas mais seguras de se estar certo quase sempre. Errar não faz seu gênero — erros prejudicam a eficiência e sugerem leviandade…

Para o Administrador existe uma única melhor maneira de se pensar ou agir, quer seja em geral (ex.: princípios, valores), ou no específico (ex.: problema, dilema). Daí em diante tudo fica fácil. Num mundo em preto-e-branco, qualquer outra cor destoa.

Administradores são contidos nas expressões e nos gastos, e esperam que os outros sejam como eles. A sua missão é a de extrair 100% de produtividade de um processo de trabalho — 99% é intolerável, e 101%, fora do padrão. E se isso exigir jornadas de 12 horas, que seja.

O Lado Ruim do Administrador

Administradores sentem pavor diante da possibilidade de erro. Talvez por isso, apesar de parecerem seguros, cultuam o pessimismo — particularmente em relação ao futuro e tendem a se subestimar.

Na mesma linha, são pouco flexíveis principalmente perante o inesperado. Vidrados em rotina, acabam enrijecendo, fechados a alternativas e dependentes da estrutura, da lei, do conhecido. Fora do seu metier, sentem-se inseguros e inúteis.

Existe também a suspeita dos Administradores serem intimamente raivosos. Uma vez irados, ninguém fica sabendo, nem eles mesmos! Daí que a incidência de úlceras e de doenças psicossomáticas entre eles seja notória.

“Algumas pessoas resistem a estruturas de personalidade porque dizem que tais estruturas as colocam em uma caixa. Descobri que entender minha personalidade me ajuda a sair da caixa em que estou presa. Quando me entendo, posso sair do meu próprio caminho.”

Anne Bogel, Reading People: How Seeing the World through the Lens of Personality Changes Everything.

Eu sei, enquadrar algo tão complexo quanto o ser humano numa classificação qualquer é dúbio, impreciso e também chato. Não haveria ciência, porém, sem classificar os fenômenos no intuito de entendê-los, pense nisso. Se você padece de dor crônica, é algo depressivo e se enquadra mais ou menos no perfil do Administrador, ao menos tem o que pensar. Pensar, por exemplo, em atenuar as arestas mais extremas desse seu perfil. Quem sabe, a sua dor ameniza e a vida lhe pareça mais amena.

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