Domingo de páscoa 2020. O dia que a vaca foi pro brejo!

Domingo de páscoa 2020. O dia que a vaca foi pro brejo!
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Enquanto o mundo se entrincheira no isolamento social vendo nisso a única opção para deter o avanço do coronavírus, o Brasil faz diferente. Diz para cidadão que aquilo é bom porque assim protege seres queridos e dá a entender que estes são os únicos a sofrer com a doença. E o discurso não funciona, ou funciona pela metade, o que, em se tratando de um vírus que se espalha e mata mais velozmente que todos os coronavírus antes conhecidos, é o mesmo que nada. O resultado está aí, gente demais na rua. Ora, para ter eficácia o discurso à população deveria ser outro. Um que levasse em conta a real índole do ser humano, e não a que gostaríamos que fosse. Esse post apresenta essa tese.

“Nada no mundo é mais perigoso que a ignorância sincera e a estupidez consciente.”

Martin Luther King

Pois é, vamos nos lembrar desse dia. No fim de ano? No próximo ano, na mesma época? Não. Dentro de uns 14 dias, quando muito. Eis mais ou menos o tempo que o coronavírus vai demorar em aparecer no organismo de quem saiu flanar na rua, ou na praia, nessa Semana Santa. E não foram poucos.

A despeito de ameaças oficiais aos transgressores pipocando aqui e acolá, o modelo de isolamento social começa a ruir estrepitosamente em todo o país. Disso eu não duvido.

É um caso clínico de proporções gigantescas, um prato cheio para cientistas sociais. Ou melhor, para sociólogos com pós-graduação em psiquiatria e vasta experiência em manicômios. No mundo todo, milhares, não, milhões de cientistas concordam em que o isolamento social é a única forma de frear a curva de novos infectados e de mortos – tanto de pacientes como de profissionais da saúde, diga-se de passagem – e eventualmente sair um dia do buraco onde a Humanidade se meteu em menos de um mês. E por aqui? Com licença que vou tomar um cafezinho na esquina.

Deve ter uma explicação. Ou várias. O meu vizinho diz que é uma “coisa cultural”…”O brasileiro, você sabe…”. Uma amiga culpa os passeios do Presidente, e o olhar acusador do meu cachorro é inequívoco: “É o PT”, ele quer dizer.

Enfim, opiniões sobram e eu tenho a minha.

Para mim, a culpa é da comunicação dos governos estaduais e prefeituras. Poxa, mas eles não são justamente os maiores interessados em manter vigente o isolamento social? E a comunicação do Governo Egocêntrico, digo Central?

Bem, esta última tem uma peculiaridade esquisita: funciona ao contrário. Por isso, eu prefiro focar nos outros. Dois erros: no apelo algo vai ser bom por tal motivo.

O apelo tem sido a proteção do próximo (ex.: a máscara) e especialmente do grupo de risco, os idosos (a vovozinha, o vovozinho… seres queridos que você ama). E mais recentemente, a evitação do colapso de outra entidade: o Sistema de Saúde. É duro de aceitar, porém, os avós e o tal Sistema de Saúde não são o indivíduo, que é quem decide se sai para rua ou não. O instinto de sobrevivência está no DNA do ser humano, proteger os outros, nem tanto… ou a campanha pro isolamento social nas capitais teria deixado as ruas, as feiras e os supermercados vazios no Domingo de Páscoa.

“… o ser humano que não tem a segunda pele que chamamos de egoísmo ainda não nasceu, dura muito mais tempo que a outra, que sangra tão facilmente”.

– José Saramago, Cegueira

Depois, a recompensa. Se tem alguma coisa que a psicologia ensina com clareza é que os seres vivos se mexem na base da recompensa/punição – Pavlov que o diga. A recompensa de ir para rua é óbvia, a punição, nenhuma… o transgressor pensa. E se ele tem entre 20 e 45 anos tem razão nisso. Por quê? Porque no momento ele nada sente, o que tem sido dito é que a faixa que pega o vírus não é a sua (é a da vovozinha) e que 80% da população vai pegá-lo e se curar. Junte as três coisas e tem-se uma garantia de que você nada tem a temer. A sua vovozinha, coitada, ela sim, mas você e os seus, não.

Vejamos a primeira ilusão: que você nada sente e por tanto não precisa se preocupar.

A probabilidade de você estar infectado mesmo sem apresentar sintomas é de 25%, de acordo com Robert Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, o órgão sanitário oficialmente responsável pela saúde dos americanos. Ou seja, 1 em cada 4 portadores de coronavírus é assintomático e, além de potencialmente infectar outros, também potencialmente pode aumentar a sua carga viral – um vírus se multiplica, sabia disso? – e ficar doente, doente, doente…

Segunda ilusão: a sua faixa etária é uma das que menos pega o coronavírus. Negativo. De fato, os que estão nessa faixa e adoecem do Covid 19 não morrem tanto quanto os que estão na faixa etária superior, mas pegam o vírus do mesmo jeito, ou até com mais entusiasmo, como demostrado pelo caso chileno.

“Enquanto no Chile os 73% da população contagiada até 24 de março tinha entre 19 e 50 anos, esse mesmo grupo etário representava somente 34% na Espanha e 24% na Itália.”

Será que o caso brasileiro é muito diferente do chileno? Quer apostar que é… com a sua vida e da sua família?

E vamos à terceira ilusão: quem se cura do coronavírus sai da cama assobiando.

Não parece, o processo de cura em casa pode levar até 3 semanas miseráveis, com febre alta, cansaço extremo, sudorese brava e, aí sim, isolamento total.

“A semana que se seguiu (ao diagnóstico) foi de extremo sofrimento. Apareceu uma pneumonia. Esse sentimento de você se ver como médico com uma pneumonia sabendo que muito provavelmente ela ia se complicar é um sentimento muito angustiante. Você dormir não sabendo como ia acordar”.

Dr. David Uip, médico epidemiologista.

Fora o baile, tem isso das sequelas da inflamação da pneumonia.

Uma pesquisa abrangendo 80 pacientes internados em um dos dois hospitais de Wuhan de 20 de dezembro de 2019 a 23 de janeiro de 2020 com pneumonia Covid 19 revelou que todos eles (idade média abaixo de 50 anos) apresentaram uma ampla gama de alterações pulmonares anormais que se espalharam rapidamente de áreas focadas de excesso de líquido em um pulmão para acúmulo difuso em ambos os pulmões.

E você acha que os pulmões da gente são de polipropileno e que tais estragos não vão deixar marcas (ex.: fibrose) neles?

“Todo mundo é a pessoa mais importante do mundo para si.”

– Mokokoma Mokhonoana

Enfim, eu penso que o apelo das autoridades que são a favor do Isolamento social nas suas comarcas está errado. Ele é dirigido ao ser humano ideal, aquele que é o mocinho na novela, e que, na vida real existe, sim, mas muito raramente.

Elas deveriam:

  1. apelar para o instinto de sobrevivência da pessoa, e não para a sua suposta inclinação pela solidariedade, e também
  2. deixar claro que não se isolar socialmente pode custar muito caro para aquele assintomático com menos de 60 anos que, uma vez infectado, não fica grave o suficiente para ser hospitalizado.

Chocante, você não acha? Eu também acho, mas isso não é nada comparado a assistir esse monte de gente comprando em feiras livres, ou em supermercados nesse fim de semana nada santo.

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