Dor crônica de alto impacto: quem é o principal alvo?

Dor crônica de alto impacto: quem é o principal alvo?

Uma avaliação abrangente pode orientar a seleção de tratamentos com maior probabilidade de beneficiar o paciente idoso e identificar alvos para intervenção além do alívio da dor. Eis a recomendação dos autores desse artigo, a qual vem acompanhada de um guia prático para levá-la adiante.

“Se eu soubesse que viveria tanto tempo, teria me cuidado melhor.”

– Eubie Blake, ao atingir os 100 anos de idade

Um dia da semana passada foi dedicado ao Idoso e eu decidi também fazer a minha parte. A dor crônica é comum e pode ser impiedosa a partir de uma certa idade, atingindo homens e mulheres por caminhos diferentes, mas com igual contundência. E tive sorte porque logo descobri um artigo excelente sobre o gerenciamento da dor crônica no caso dele, ou dela, que convenhamos, é especial.

Mas, vamos por partes.

De acordo com o National Health Interview Survey, em 2016 havia nos EUA 20,4% (50 milhões) de adultos com dor crônica… e 8,0% dos adultos (19,6 milhões), com dor crônica de alto impacto.

Dor Crônica - O Blog das Dores Crônicas

O gráfico mostra a prevalência desses dois tipos de dor crônica (eixo vertical), por intervalo de idade (eixo horizontal), nesse país, naquele ano. (A prevalência da dor crônica no Brasil está estimada no dobro ou até o triplo da americana dependendo do estudo. Então faça as contas.)

Mas, o que seria esta última, a “dor crônica de alto impacto” (DCAI), da qual pouca gente ouviu falar?

É uma dor severa a ponto de incapacitar a pessoa.

Cerca de 83% dos adultos com DCAI não conseguem trabalhar e um terço têm dificuldade para se lavar e se vestir. Fora isso, os transtornos mentais como ansiedade, depressão, fadiga e dificuldade cognitiva se agudizam, e a dor se torna mais intensa. E como a saúde piora, os serviços de saúde passam a ser usados com frequência. Em suma, a qualidade de vida fica reduzidíssima.

E qual é o setor da população mais atingido por essa dor com nome de gasolina de Fórmula 1? Você adivinhou: o dos idosos. Ou 20% da população brasileira, que supera os 60 anos.

Voltando ao artigo. O nome dele é: “Management of chronic pain in older adults” e foi publicado pelo British Medical Journal em 2015. Trata-se de um Guia preparado por três professores de medicina, dois deles ligados a Cornell University, nos EUA, e um terceiro, a University of Bath, na Inglaterra.

Logo no começo, uma recomendação singela:

“Todos os idosos com dor crônica devem ser submetidos a uma avaliação abrangente da dor geriátrica, visando identificar alvos para intervenção além do alívio da dor.”

Parece algo trivial, mas essa impressão é logo apagada pela assustadora lista de doenças associadas à dor crônica na idade avançada. Ela pode ser vista aqui .

À continuação, os autores do artigo comentam alguns aspectos da avaliação geriátrica abrangente que propõem. O exame físico do idoso, eles dizem, deve focar os sistemas musculoesquelético (há evidência de inflamação?) e neurológico (há evidência de fraqueza ou neuropatia?). E ter alvos de averiguação muito específicos, como o de distinguir fraqueza induzida pela dor da verdadeira fraqueza motora (previsível após os 60 anos).

Um questionário é fornecido para conduzir a entrevista com o paciente que precede o exame físico.

Quanto às imagens de diagnóstico, os três doutores não duvidam: exames do tipo se justificam tão somente se a história médica ou o exame físico revelar anomalias importantes. Em geral, eles são inúteis, descobrindo achados incidentais ou não relacionados à dor percebida, requerem mais testes, custam mais tempo e dinheiro, e deixam os idosos gratuitamente preocupados. (Trata-se de uma opinião que já é consenso em países como Estados Unidos, Alemanha e Austrália, mas inexistente no Brasil, onde é praxe o médico obrigatoriamente pedir exames de imagem sob pena de perder o paciente.)

Exames de imagem se justificam somente se a história médica ou o exame físico revelar anomalias importantes

Mais adiante no artigo são apresentadas também técnicas destinadas a facilitar a avaliação da dor em idosos com habilidades verbais ou cognitivas limitadas.  É sugerido começar incentivando e ouvindo com atenção o relato do paciente, enquanto o comportamento dele (expressões faciais, vocalizações, posturas defensivas) é observado à procura de pistas sobre a dor. Dados obtidos de membros da família completam o quadro.

Enfim, a minha ideia aqui não é reproduzir o artigo em questão, mas interessar você na sua leitura. Acabo de publicá-lo na íntegra e traduzido ao português, na seção ARTIGOS do blog.

Outras questões ali examinadas no Guia se referem a:

  • Diretrizes para o tratamento medicamentoso da dor crônica
  • Intervenções psicológicas disponíveis
  • Abordagens de reabilitação e exercício disponíveis
  • Quando os pacientes devem ser encaminhados para um especialista em dor?
  • Recursos educacionais adicionais
    1. Recursos para profissionais de saúde
    2. Recursos para pacientes


Eu penso que o Guia em pauta deveria ser leitura obrigatória para quem tem mais de 60 anos, ou pais preenchendo essa condição.

Você duvida?

Mal que eu lhe pergunte então: você e/ou eles periodicamente fazem uma avaliação geriátrica completa?

Não? Huuuuuum…., melhor ler aquele artigo, então.

Ahhh, e depois não se esqueça de divulgar – há 44 milhões de possíveis beneficiários na espreita.

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