Dor crônica + depressão = o que eu estou fazendo aqui?

Dor crônica + depressão = o que eu estou fazendo aqui?

Pacientes com dor crônica são uma população vulnerável e pode ser clinicamente importante considerar seus riscos de suicídio durante o tratamento. Não é bom ouvir isso, mas pode ser oportuno se você, ou algum ente querido, for diagnosticado com dor crônica.

Chega um momento em que você olha no espelho e percebe que o que vê é tudo o que jamais será. E então você aceita. Ou você se mata. Ou você para de olhar nos espelhos.

– Tennessee Williams

Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015. Uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria. É uma iniciativa louvável, apesar de evocar sentimentos ingratos. Afinal, um milhão de pessoas se suicidam por ano (os homens, o dobro das mulheres). E a conta não para: desde a virada do século até 2016 ela cresceu 30%.1

O assunto “suicídio” tem sido arquipesquisado. Fatores de risco há muitos: trauma infantil é o mais prevalente entre estudantes universitários americanos; personalidade exageradamente autocrítica, fatores interpessoais, e até a estação do ano. Um estudo recente (2018) observou 33.224 eventos suicidas ocorridos na Holanda de 1995 a 2015. Os resultados indicaram que a incidência de suicídio atingiu o pico na primavera e no Natal.2

Uma meta-análise recente (2018) baseada em dados da Pubmed faz uma radiografia do risco de suicídio em pacientes com dor crônica.3

A prevalência de ideias suicidas – ideias somente – nesses pacientes, calculada por uma pesquisa anterior (2006), é de nada menos que 32%.4 O que, no mínimo, justifica se antenar para o assunto se você portar uma ou várias dores crônicas.

Agora, os pacientes com dor crônica que infelizmente transformam essas ideias em realidade têm pelo menos duas vezes o risco de suicídio do que pacientes com dor não crônica, mas esses riscos podem ser muito mais complexos e multifacetados do que a dor simplesmente insuportável.

“O diagnóstico duplo ou a presença concomitante de distúrbios de saúde mental e dor crônica provavelmente exacerba o risco de suicídio. As evidências sugerem que depressão e dor crônica (mas não dor aguda) podem compartilhar algumas das mesmas redes neurais. Certas condições (como enxaqueca) podem colocar um paciente com dor crônica em maior risco de suicídio, embora a enxaqueca não seja ela própria uma condição fatal.”

O anterior não implica, todavia, em que a intensidade da dor esteja correlacionada com a propensão a se suicidar. Isso não foi provado.

“O suicídio é uma forma de um homem dizer a Deus: ‘Você não pode me demitir – Eu me demito!’”

Enfim, pacientes com dor crônica são uma população vulnerável e pode ser clinicamente importante considerar seus riscos de suicídio durante o tratamento.

Mas voltemos aos fatores de risco: quais são os mais influentes?

Basicamente três: a dor mental, fatores interpessoais e impedimento na tomada de decisão, afirmam os estudiosos.5 Dentre eles, a dor mental insuportável é o mais decisivo.

De fato, vários estudos enfatizam a importância da psique como principal facilitador da ideação e do comportamento suicida.6 Um comportamento motivado pelo desejo de escapar da dor psicológica insuportável.7

E que outro nome costuma-se dar a esse tipo de dor? Depressão, você adivinhou.

Então o quadro é o seguinte:

  • Pensamentos e comportamentos suicidas ocorrem quando o indivíduo está sob estresse ou experimentando depressão.
  • Depressão que, por sua vez, está intimamente ligada à dor crônica.89101112
  • A relação entre depressão, dor crônica e suicídio é inegável.


Nada de novo, você deve estar pensando. Talvez você intuísse isso, ou já tivesse ouvido falar a respeito. Mas vê-lo escrito, preto no branco, 1 + 2 + 3… dá um não-sei-o-que na barriga, não dá?

Um bom motivo para quem estiver com uma dor aguda, não deixar de jeito nenhum migrar para crônica. Ou se já estiver nesse ponto, levar a sério e cumprir à risca o tratamento que lhe for indicado pelo médico. Quanto mais controladas a depressão e a dor crônica, mais longe se está de pensamentos desagradáveis.

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