Dor crônica = desinformação crônica. E vice-versa.

Dor crônica = desinformação crônica. E vice-versa.

Em cada 10 pacientes de dor crônica que iniciam um tratamento de recuperação, ao menos a metade deles desiste. Veja aqui porque não se pode culpá-los.

“É um erro de capital teorizar antes de se ter dados. Insensivelmente, a pessoa começa a distorcer os fatos de acordo com teorias, em vez de teorias para se adequar aos fatos.”

Sir Arthur Conan Doyle. Sherlock Holmes.

Para ler… não, para entender este post vou pedir para você exercitar sua imaginação. Quanto mais fértil, melhor.

Primeira hipótese: você acorda, sem roupa, numa ilha deserta. Absolutamente deserta.

Segunda hipótese: você amanhece, em pelo, numa metrópole desconhecida. Absolutamente desconhecida.

Escolha uma das hipóteses. Imagine-se nela. Vamos, tente!

Ok, imagine agora que o mesmo lhe acontece repetidamente, umas 180 vezes, a cada 24 horas… e que essa alucinação permanece durante todas as horas que estiver acordado.

Lá pelas tantas, cai na conta de que isso não é bom. Aliás, que de persistir essa toada, você está frito…

O que você faria para interromper o ciclo? Note que a sua sobrevivência está na reta.

Escolha apenas uma das opções seguintes:

  • Tomar uma medicação, um calmante, um antidepressivo, algo que o faça esquecer sua desgraça.
  • Informar-se… sobre o que está acontecendo, onde você está, porque está ali, com que consequências…
  • Consultar um psiquiatra antes de, daqui a pouco, você avistar vacas verdes pastando na Avenida Paulista.


Ok, muito provavelmente você, que não é bobo, optou por:

INFORMAÇÃO

E se informar para quê? Para diminuir a incerteza. Dizem que a reação fight or flight é o natural do bípede desde que ele saiu andando. Discordo, antes de fugir ou lutar o sujeito precisa se informar – ver, ouvir, sentir… isso sim que é naturalmente primário.

“Cuidado com o falso conhecimento; é mais perigoso que a ignorância.”

George Bernard Shaw

Pano rápido.

Vejamos agora o que os entendidos propõem quanto às causas da dor crônica. Uma experiência dolorosa que – você adivinhou! – se estende por mais de 180 dias, chateia a toda hora, ameaça a sobrevivência, e sobre a qual cientistas, profissionais da saúde e pacientes ainda pouco sabem.

Um pesquisador bisonho irá distinguir rapidamente duas correntes propositivas, diametralmente distintas.

A primeira é a biomédica. A WebMD, um site sobre temas de saúde popular e respeitado, alinha as seguintes causas (no caso, para a dor crônica nas costas).

  • Anos de má postura
  • Levantamento e transporte inadequado de objetos pesados
  • Estar acima do peso, o que coloca tensão excessiva nas costas e joelhos
  • Uma condição congênita, como a curvatura da coluna
  • Lesão traumática
  • Usar salto alto
  • Colchão ruim
  • Nenhuma causa física óbvia
  • Envelhecimento ordinário da coluna (alterações degenerativas)


A doença também pode ser a causa subjacente da dor crônica. A artrite reumatoide, a osteoartrite e a fibromialgia são exemplos bem conhecidos, mas a dor persistente também pode ser causada por doenças como câncer, esclerose múltipla, úlcera estomacal, AIDS e doença da vesícula biliar.

Ou seja, tudo o que causa a dor crônica tem cunho físico, certo?

A outra corrente, que eu vou chamar de psicossomática (ou psicogênica, que soa mais elegante), postula se livrar da dor crônica limpando material tóxico da mente. O que, segundo uma das muitas mutações da Terapia Cognitiva Comportamental, significa parar de:

  • Focar no negativo. Está provado que esse hábito acaba piorando a dor. Seja indiretamente, via ansiedade e depressão, ou aprofundando as vias neurais pelas quais a dor já transita.
  • Usar seguidamente termos tais como: “Tem de ser”, “Eu devo”, “Eu preciso” fazer assim ou assado – e viver em função deles.
  • Concentrar-se na dor. A hipervigilância pode piorar a situação. Melhor se concentrar em maneiras de lidar com a dor.
  • Abusar do extremismo, tipo “tudo ou nada”. A dor crônica obriga a ser flexível, a descobrir e praticar formas de conviver com ela sem perder qualidade de vida.


Exemplos de “viradas mentais construtivas” promovidas pela Terapia Cognitiva Comportamental para sufocar a dor crônica os há as pencas. Até onde se sabe, elas são inofensivas e até podem aliviar a dor se usadas em conjunto com outras terapias médicas.

Mas voltemos ao que estava em falta para nós sobrevivermos naquela ilha deserta, ou capital desconhecida. O que era mesmo isso?

INFORMAÇÃO

E em qual das duas explicações para a dor crônica antes mencionadas – a física e a psicossomática – você leu a palavra INFORMAÇÃO? Não, não se incomode em voltar atrás. Eu já lhe digo: em nenhuma delas. Ambas pressupõem causas (e portanto, prescrevem receitas) que passam ao largo do que, a meu ver, é o principal e talvez único combustível nos primeiros e mais decisivos trechos de um tratamento da dor crônica. E como isso chama?

INFORMAÇÃO

  • O paciente está sentindo dor nos ossos. Como é isso? O que causa essa dor?
  • O paciente diz que sente dor há muito tempo. Que dor é essa? Diferente de outra(s) dor(es)?
  • O paciente diz que nem imagina de onde a dor vem. E de onde poderia vir? Quais as fontes alternativas? Como saber qual é a causa mais provável?
  • O paciente diz que a dor vem e vai, e até muda de local. Isso é câncer?
  • O paciente diz que dói quando deita. Ele(a) vai logo ficar incapacitado(a)?
  • O paciente diz que não vê ferida nem lesão, porém dói, Ele(a) está ficando louco(a)?
  • O paciente diz que dói só de lembrar de algo, ou passar em frente de algum lugar. Será que a dor tem memória?
  • O paciente diz que quanto mais frustrado(a) fica em tirar a dor, mais tristeza e menos vontade de viver ele(a) tem. O que essa dor tem a ver o estado de ânimo?
  • O paciente diz que um dia quebrou uma perna e depois de um tempo ficou curado. Porém, agora essa dor não passa, não se cura. Por que não passa? E se ela ficar, qual o prejuízo no organismo? Em quanto tempo?
  • O paciente diz que faz qualquer cirurgia para se livrar da dor. Tem cirurgia nisso? Que tipo de cirurgia? Com que chances de voltar à normalidade?
  • O paciente diz que já tentou analgésicos, aplicações quente/frio, choquinhos elétricos, acupuntura… e nada. Por que nada? Como assim, nada?
  • O paciente diz que até então sempre soube que somente a morte não teria cura. E essa dor, ela então não tem cura?


A lista de questionamentos, dúvidas, crenças equivocadas, pensamentos fatalistas, divagações e delírios sorumbáticos que pululam na mente de um paciente com dor crônica é inesgotável.

Por outro lado, a taxa de desistência de tratamentos da dor crônica, na opinião do Dr. Manoel Jacobsen, renomado médico paulista, Professor Titular da Disciplina de Neurocirurgia do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, segundo reportado pelo site do não menos renomado Dr. Dráuzio Varella, é superior a 50%.

Repetindo: 50%. Somente na saúde pode se manter em pé um negócio em que de cada dez prospects que entram pela porta, cinco logo saem para não voltar mais!

A explicação para tamanha taxa de desistência? Simples: quem é que se anima a permanecer numa ilha deserta, ou num país desconhecido, sem…

INFORMAÇÃO!

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1 comentário
  1. Seria ótimo receber esclarecimentos para combater o minha dor lombar que parece ETERNA!

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