Dor crônica: a neuroimagem como solução (para alguns)

Dor crônica: a neuroimagem como solução (para alguns)

Você talvez tenha lido sobre como a dor é processada no cérebro humano e sua relação com a dor crônica. E que tal ouvir isso de alguém que viu aquilo acontecer no próprio cérebro?

“Você não pode mudar quem você é, mas você pode mudar o que você tem em sua cabeça, você pode colocar um pouco de ar fresco em seu cérebro.”

Ernesto Bertarelli, Empreendedor
O artigo do New York Times “My Pain My Brain”, de Melanie Thernstrom, foi traduzido por mim para efeitos de publicação desse blog. Ele merece. É um dos melhores que já li no capítulo “Neurociência e Dor para quem não tem vergonha de reconhecer a sua ignorância no assunto”.

De forma precisa, e ao mesmo tempo amena – a autora é jornalista e autora de três livros, entre eles o clássico Chronicles of Pain – a Thernstom apresenta uma técnica de neuroimagem – real-time functional neuroimaging – na época (2006) sendo desenvolvida na Stanford University. De passagem, ela explica magistralmente como a dor é processada no cérebro humano e a natureza da dor crônica.

Thernstrom, que é membro do Comitê de Pesquisas sobre Dor do Instituto de Medicina da National Academy of Science (EUA), participou como cobaia na pesquisa da Stanford. No seu artigo ela afirma que essa nova técnica supera outras como o neurofeedback, no uso do f.M.R.I (Functional Magnetic Ressonance Imaging, a nossa conhecida “ressonância magnética”) para o exame dos processos reais por trás do controle da dor do corpo humano por parte do cérebro. Ela permite que pessoas com dor crônica – como ela mesma – possam ver seu próprio cérebro em atividade ao sentir dor, o que lhes possibilita intervir nessa atividade cerebral para controlar sua dor.

Isso aí, piscando na tela do computador… sou eu existindo.

O artigo sugere que essa nova tecnologia de neuroimagem comprova o que a maioria dos médicos e fisioterapeutas, assim como também dos pacientes, ainda nega:

“que a dor crônica é uma doença do Sistema Nervoso Central que pode ou não se correlacionar com qualquer dano tecidual, mas envolve uma reprogramação errônea no cérebro e na medula espinhal”.

De passagem, um outro mito é questionado: a existência de um único centro de dor no cérebro. Em vez disso, há uma rede envolvendo várias áreas do cérebro – veja o meu post sobre a Neuromatrix – que intercambiam informações de todo tipo – fisiológicas, psicológicas, cognitivas etc. – antes de decretar “dor” em definitivo.

De tudo isso conclui-se que uma técnica de neuroimagem já permite a mente ter poder sobre o corpo (Mind over Matter) e manipular a consciência da dor.

Eis a mensagem que a Thernstrom quer passar a outros pacientes com dor crônica que ainda não encontraram tratamentos satisfatórios. Usando-se como exemplo de uma paciente com dor crônica diagnosticada com uma condição de pescoço com artrite, ela se nivela com eles, e também (eu espero, mas nem tanto) com os profissionais que cuidam deles. Tendo entrevistado várias sumidades no tema Dor e Neuroimagem, ela também se coloca pessoalmente dentro do seu relato, protagonizando, por exemplo, uma demonstração clínica de como o placebo pode influenciar positivamente, via autossugestão, a percepção da dor.

O artigo, de fácil leitura e muito completo, é uma joia do jornalismo científico ao alcance de doentes crônicos leigos como eu (e talvez você).

Nota do blog: Atualmente, a cada dois anos a real-time functional imaging congrega trezentos neurocientistas profissionais da saúde de todo o mundo – em 2015, nos EUA (Gainsville, Fla), em 2017, no Japão (Nara), e assim por diante. Universidades também já pesquisam seus potenciais usos clínicos. A Cardiff University (MRC Centre for Neuropsychiatric Genetics and Genomics), recentemente publicou um estudo sobre o uso no tratamento da depressão.

Maiores informações: http://www.braintrainproject.eu

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