A dor crônica e os iconoclastas

A dor crônica e os iconoclastas
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A medicina clínica está numa encruzilhada. Por um lado, modernizando-se ao ritmo alucinante da Tecnologia de Informação e cooptada pelos laboratórios farmacêuticos; e por outro, deixando mais e mais pessoas com dor crônica, desinformadas, subdiagnosticadas e, no final das contas, pouco ou nada efetivamente aliviadas. Este post é uma introdução a um artigo sobre o momento atual da prática médica no Brasil, escrito por um médico de renome e endereçado a médicos atentos.

O pensamento original, a expressão artística original é, por sua própria natureza, questionadora, irreverente, iconoclasta.

Salman Rushdie

A essa altura da vida eu me permito alguns poucos privilégios. Não, não é um carro oficial, nem um auxílio moradia para chamar de meu. É a chance de conhecer e desfrutar da conversa de um ou outro bípede.

O Dr. Jaime é o “um”. Ele é o autor de um dos destaques do blog nessa semana, um artigo sobre a sua percepção do atual momento da medicina clínica no Brasil que eu praticamente o obriguei a escrever.

O meu amigo Jaime é uma avis rara no espaço aberto da medicina. Ele carrega um sólido curriculum acadêmico nas costas, construído dentro e fora do Brasil, e durante anos presidiu a Sociedade Brasileira de Estudos da Dor. Mas não é por isso que eu lhe pedi para comparecer aqui, hoje. Foi justamente por ele ser uma avis para lá de rara.

É que o Dr. Jaime pertence a uma diminuta tribo de médicos-cientistas que, a cada certo tempo, resolvem dizer o que pensam do ofício de curar gente. E o que pensam não é absolutamente o que a maioria dos seus colegas pensa. E são enxotados por isso. Normal.

Em 1893, o Dr. William Osler implantou a residência na medicina como uma forma de dar aos alunos do ramo uma ideia do que era curar gente em um Pronto Socorro, e não teoricamente na placidez da biblioteca da faculdade. Foi uma revolução. Fez isso sozinho, e imagino o que devem ter pensado e dito os professores do Johns Hopkins School of Medicine quando ficaram cientes do invento.

Ronald Melzack e Patrick D. Wall, escreveram um artigo sobre dor, publicado na revista Brain em 1962; foi quando a Teoria do Portão nasceu. Depois dela, só um cego não vê que a dor não é uma questão de pele e sim de nervos e cérebro – o que deveria mudar a maneira tradicional de tratar a dor crônica, ao menos. Deveria, enfim. Segundo Wall, cerca de três pessoas leram o artigo, o que não me surpreende. Então, a dupla escreveu outro artigo, dizendo essencialmente as mesmas coisas. “Mecanismos da dor: uma nova teoria” foi publicado na Science em 1965 e, segundo Melzack, algumas pessoas adoravam, mas a maioria odiou. Outra revolução. Wall e Melzack se descreviam como “dois iconoclastas”. (Um iconoclasta é literalmente um destruidor de ícones… símbolos, ídolos, imagens religiosas ou qualquer tipo de convenção social ou tradição.)

Há meio século, em 1977, George Engels, um outro iconoclasta, trouxe à tona o modelo biopsicossocial da medicina como alternativa ao modelo médico que você conhece, declarando este como desumano e falido (quanto a isso de curar gente). Em vez de focar na ferida, no braço, na perna, onde for no corpo, haveria que tratar o doente como um todo. Mente e corpo, juntos. Terceira revolução na prática médica, embora poucos dos praticantes a tenham notado, muito menos adotado.

Por que motivo eu estou trazendo o anterior à tona? Afinal, este é um blog sobre dor crônica e quando se sofre disso (ou com isso), o único que atrai a atenção é algo sobre um novo anti-inflamatório, ou os “7 Passos para Dormir Feliz Apesar da Dor”. Eu sei por experiência própria, mas gosto de história, e a história do conhecimento sobre a dor é fascinante. E a história da medicina também é.

E ocorre que os iconoclastas são fundamentais, literalmente fundamentais, para o avanço do conhecimento científico, na história da medicina. Não fosse por eles provavelmente ainda estaríamos extraindo dentes a seco (ex.: o éter), seríamos carcomidos pela sífilis (ex.: a penicilina) ou ignoraríamos os aportes para o alívio da dor da medicina alternativa (ex.: a hipnose). Todos os que nos pouparam dessas atrocidades – Morton, Fleming e Mesmer, pela ordem – eram “cientistas da medicina” que foram vistos com desdém ou fleuma assim que se atreveram a expor suas descobertas a colegas, alunos e familiares.

Osler, Melzack, Wall e Engels, por sua vez, já eram luminárias na medicina tida por “moderna” quando chacoalharam o establishment, e mesmo assim, as suas teses, e eles próprios, na época mereceram sarcasmo ou indiferença.

O trabalho de um poeta é nomear o inominável, apontar fraudes, tomar partido, iniciar discussões, moldar o mundo e impedir que ele durma.

Salman Rushdie

Eu percebo a medicina clínica numa encruzilhada. Por um lado, modernizando-se ao ritmo alucinante da Tecnologia de Informação e cooptada pelos laboratórios farmacêuticos; e por outro, deixando mais e mais pessoas com dor crônica, desinformadas, subdiagnosticadas e, no final das contas, pouco ou nada efetivamente aliviadas.

Porém, esse sou eu e peço desculpas se me entusiasmei escrevendo à sombra do pensamento do meu amigo Jaime. O seu artigo é muito mais valioso do que o meu aglomerado de devaneios. Ele se refere à prática da medicina, aqui e agora no Brasil. É o olhar de um insider ultraqualificado que, à diferença do meu e igual que o de Engels, Osler, Wall & Cia, tem substância acadêmica e clínica suficiente para provocar as mentes médicas inteligentes. E tal como sucedeu com aqueles, fatalmente será lido e elogiado por muitos dos seus colegas… dentro de uns 30 ou 40 anos. Confira, vale a pena.

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