Dor crônica, já ouviu falar?

Dor crônica, já ouviu falar?

Como é que alguém sofre dor persistente durante anos e não sabe o que isso é? Acontece com a dor crônica. Devido a sua complexidade e ao fato de amiúde ela parecer psicossomática, os profissionais da saúde ainda não a conhecem direito. Muito menos seus pacientes. Alguns dados talvez ajudem a reverter – ainda que minimamente – esse quadro.

“Curar a dor grave ou crônica, acredito, inclui transformar nossa relação com a dor e, em última análise, transformar nossa relação com quem somos e com a vida”.

Sarah Anne Shockley

Vários visitantes do blog que leram o meu post “Aprenda sobre sua Dor Crônica” se queixaram de eu escrever sobre dor crônica como se aquilo – “DOR CRÔNICA” – fosse de conhecimento de todo mundo. O e-book “Entenda porque Dói”, que trata da diferença entre dor aguda e dor crônica e já ultrapassou os 10.000 downloads, também mereceu observações semelhantes: essa diferença entre dores, então, é desconhecida de muitos.

De muitos que, como eu, perambularam por anos de uma consulta a outra sem ter esclarecimentos sobre a peculiar natureza da sua dor – crônica, à essa altura.

Estranho, do ponto de vista de um leigo. Como é que alguém vive, ou melhor, sobrevive sofrendo de dor durante anos e não sabe o que isso é? Estranho, mas não surpreendente. Dois anos atrás, quando comecei a me interessar seriamente pelo tema do blog, uma das minhas primeiras surpresas foi constatar que até médicos não conheciam a dor crônica – ou não a reconheciam como algo específico. (Eles não tinham culpa de eu achar, na época, que médicos eram algo assim como extraterrestres sabetudo. Falha minha não ter percebido que eram apenas humanos, iguais a mim.) Posteriormente, surpreendi-me também ao saber que o estudo da dor em geral – e por tabela, da dor crônica – não era comum nas faculdades de medicina e fisioterapia no país (e no exterior também), e havia sido delegada (ou “relegada”) às de enfermagem. Ou foi ao menos o que eu deduzi ao constatar que a maioria dos poucos artigos científicos publicados sobre a dor crônica e seu gerenciamento – pesquisas ou revisões bibliográficas – são de autoria de enfermeiras e anestesiologistas, e não de ortopedistas, ou cirurgiões, ou dentistas, os médicos em especialidades que mais convivem com dor.

Ora, segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2017 a dor crônica acometia 1,5 bilhão de humanos. E no entanto…

A razão pode estar na seguinte passagem da famosa alocução do Dr. George Engel, ao apresentar o seu modelo médico biopsicossocial como alternativa ao biomédico convencional:

“A profissionalização da biomedicina constitui uma outra barreira formidável. (Ela) gerou um sistema de castas entre os profissionais de saúde e uma hierarquia referente ao que constitui ‘áreas apropriadas’ para preocupação e cuidado médico…”.

“Não é uma realidade fácil de encarar, mas assim como sua dor crônica não se desenvolveu da noite para o dia, a solução para encontrar alívio não se desenvolverá em um dia ou dois.”

Enfim, ao que parece, a população médica está dividida em castas e as do décimo quinto andar não têm a dor humana como um dos seus principais focos de estudo. Seguramente ninguém irá concordar comigo de viva voz, mas é a conclusão de um paciente ainda lúcido – fatos, fatos, os terríveis fatos… – e os profissionais da saúde nada seriam se não houvessem pacientes, certo? Enfim, acho que você me entende.

Então decidi dar a este post uma conotação de utilidade pública. Ele é um apanhado rápido e rasteiro do que é a dor crônica. Para consumo dos que, por um motivo ou outro, ainda não foram informados, ou, pior ainda, não se informaram sobre o tema.

  • Dor crônica é a dor que persiste por semanas, meses ou anos, apesar de terapia e intervenções. Ao contrário de dor aguda, a dor crônica não diminui após uma lesão inicial ou doença estar resolvida.
  • Apenas 7% dos pacientes com dor aguda (nos EUA) migram para dor crônica.
  • Alguns casos de dor crônica são atribuídos a uma lesão específica que há muito tempo cicatrizou – por exemplo, uma ferida, uma infecção grave ou mesmo uma incisão cirúrgica.
  • Boa parte deles, porém, não têm causa aparente – sem lesão prévia ou dano tecidual.
  • A maioria dos casos de dor crônica está relacionada a: dor nas costas, com destaque para a dor lombar, dor de cabeça (ex.: enxaqueca), dor nas articulações (ex.: artrite reumatoide) e dores nos nervos (ex.: ciática).
  • A dor pélvica crônica representa 10% das visitas ao ginecologista (EUA) e tem prevalência de 3,8% no Brasil.
  • Algumas pessoas podem sofrer durante décadas de dor crônica, mesmo na ausência de qualquer lesão específica ou evidência de doença.
  • A dor crônica afeta a mais de um terço dos brasileiros, é super-persistente, é a principal causa de incapacidade laboral (EUA e Brasil), muda o cérebro e os analgésicos funcionam em apenas 58% dos casos – por isso alguns autores a consideram uma doença em si mesma. E de proporções epidêmicas, inclusive.

Na minha opinião, contudo, a principal característica da dor crônica é a sua semi-invisibilidade perante os profissionais da saúde em geral. O fato é que ela passa mais ou menos ao largo da medicina convencional: os aspectos mais importantes relativos a diagnóstico e tratamento, tais como a sua raiz psicológica, a mudança comportamental que exige e, last but not least, a sua complexidade, mais assustam do que interessam. Consequentemente, ela pode até ser reconhecida e diagnosticada… mas dificilmente é bem tratada. O tratamento amiúde se assemelha ao da dor aguda – repouso, analgésicos, massagem, “choquinhos”… – , o que é um tremendo erro.

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