Dor crônica nas costas e depressão: andam juntas? - Parte 1

Dor crônica nas costas e depressão: andam juntas? - Parte 1

Se você portar leves sintomas de depressão, eles dificilmente serão percebidos numa consulta sobre dor nas costas, quando mais merecerão atenção médica, se percebidos. E será que isso importa? Resposta: muuuito! Veja aqui o porquê.

“Priorizar a especialização sobre a inteligência é rigorosamente errado. Um especialista traz um viés inerente à própria expertise, e pode se sentir ameaçado por um novo tipo de solução que requer novos conhecimentos. Um generalista inteligente não tem preconceito, então é livre para pesquisar uma ampla gama de soluções e gravitar para o melhor.”

Eric Schmidt, How Google Works

Não são poucos os visitantes do blog que se queixam de dor nas costas. Os relatos podem ser curtos ou extensos, alguns claros, outros nem tanto, a maioria comoventes. E com o tempo eu fui percebendo que tinham um denominador comum: o desespero, a frustração, a derrota diante do desconhecido. Essas pessoas não sofrem apenas de dor nas costas, elas também estão deprimidas. “Tecnicamente” deprimidas.

Isso é sério e nada novo. Sério porque tratar dos dois transtornos, dor nas costas e depressão, é tarefa árdua, complicada e cara. E nada novo porque há muito tempo que se sabe do conluio entre ambas.

Num outro post mostrei alguns dados sobre depressão. Apenas lembrando:

“Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 23 de fevereiro de 2017, 5,8% da população brasileira sofria de depressão, o que representava 11,5 milhões de brasileiros com a doença em números absolutos. O Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo com maior prevalência no continente americano, ficando um pouco atrás dos Estados Unidos, que tinha 5,9% de depressivos.”

Agora, vamos a outros dados que atestam a relação dor nas costas e depressão:

  • Recentemente, um estudo australiano (Universidade de Sydney) sugere que as pessoas que sofrem de depressão têm uma chance 60% maior de desenvolver dores nas costas ao longo da vida.
  • Mais recentemente ainda, um outro estudo abrangendo uma amostra de 7.550 indivíduos, reportou que na população sul-coreana, a prevalência de depressão é significativamente maior em indivíduos com lombalgia (20,3%) do que naqueles sem lombalgia (4,5%).
  • Estudos anteriores já tinham descoberto que em cada 100 pessoas com dor nas costas, a metade (50) apresenta sintomas de depressão.
  • O panorama no Brasil pode ser extraído de uma pesquisa de adultos realizada em 43 países subdesenvolvidos cobertos pelo World Health Survey – fazem 15 anos! Foi comprovado que nessa amostra, a dor nas costas era prevalente – mais de um terço dos amostrados apresentava dor nas costas – e também que esse distúrbio – ou “incômodo”, como os pesquisadores compassivamente o intitularam – mantinha forte associação com transtornos mentais como ansiedade, problemas do sono e… depressão.

“Mas agora vem a grande descoberta: pessoas com problemas na coluna eram duas vezes mais propensas a desenvolver transtornos mentais como ansiedade, depressão e psicose. Já a parcela que padecia de dor nas costas crônica apresentou um risco três vezes maior de manifestar algum episódio depressivo e 2,6 vezes maior de ter algum evento psicótico.”

A presença de depressão está significativamente associada à lombalgia, especialmente em indivíduos gravemente deprimidos.

Os dados anteriores foram divulgados recentemente (2016), também no Brasil. E não parecem ter suscitado preocupação.

Deveriam. Pense comigo: você sente dor nas costas e vai se consultar com quem? Um médico ortopedista, certamente. Esse profissional é um especialista, porém, ele sabe e se sente bem examinando ossos, articulações, músculos e diagnosticando e tratando em consequência. Se ele souber alguma coisa sobre depressão é uma mosca branca. Nada disso lhe ensinaram na faculdade de medicina, e convenhamos, juntar ortopedia e psicologia “soa” como juntar espaguete com batatas fritas.

Conclusão: se você portar leves sintomas de depressão eles dificilmente serão percebidos nessa consulta, ou merecerão atenção médica, se percebidos. E se durante a anamnese você se manter com a vista perdida no horizonte enquanto rói as unhas, o médico quando mais irá lhe sugerir, polidamente e ao se despedir, você consultar um, bem, alguém com quem conversar, ajuda profissional, essas coisas… Tratar da depressão não é com ele, e por tabela, tratar da ligação entre depressão e dor nas costas, também não.

“Pressupõe-se que a especialização seja lógica, natural e desejável. Mas a ciência avançada descobriu agora que todos os casos conhecidos de extinção biológica foram causados pela superespecialização, quando a concentração em apenas genes selecionados sacrificou a adaptabilidade geral.”

Buckminster Fuller. Visionário, designer, arquiteto, inventor e escritor.

Conclusão da conclusão: se houver mesmo uma forte ligação entre dor nas costas e depressão as suas chances de obter alívio para o seu primeiro problema são mínimas porque o segundo problema – que pode ser uma das causas – passou batido ou ficou para depois, quem sabe…

Dor Crônica - O Blog das Dores CrônicasPatrick Wall (1925-2001), o neurocientista britânico que, junto com Robert Melzack, revolucionou o conhecimento da dor no século passado, escreveu em PAIN, a sua obra póstuma (2000): “Deveríamos examinar a possibilidade de que a dor seja uma síndrome que agrupa um conjunto de sinais e sintomas coincidentes em vez de um único fenômeno separado.” Sinais e sintomas coincidentes. Dor nas costas, um deles.

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