Dor crônica nas costas e depressão: andam juntas? – Parte 2

Dor crônica nas costas e depressão: andam juntas? – Parte 2

Ao que tudo indica, depressão e a dor crônica nas costas estão relacionadas. Porém, isso importa a quem sofre com essa dor, anda de farol baixo e já marcou uma consulta médica para tratar disso? Se for esse o seu caso, ou o de alguém próximo, leia isto antes de mais nada.

“Podemos aliviar a dor física, mas a dor mental – tristeza, desespero, depressão, demência – é menos acessível ao tratamento. Está ligado a quem somos – nossa personalidade, nosso caráter, nossa alma, se você quiser.”

Richard Eyre, novelista

Na primeira parte desse post apresentei dados que sugeriam haver uma relação entre dor nas costas e depressão. E agreguei a relevância prática disso: se você se consultar com um médico ortopedista sobre sua dor nas costas, e portar leves sintomas de depressão, é provável que eles não mereçam atenção no diagnóstico e, por tabela, no tratamento. Ou seja, você vai ser tratado pela metade, e se melhora, também o será pela metade. Eu sei que estou manuseando os termos, porém eu sei que você me entende.

A causa da possível correlação entre depressão e lombalgia ainda é especulativa, convém alertar.

“Pode ser porque as pessoas com depressão geralmente têm níveis mais baixos de atividade física e sono ruim, ou devido a problemas com neurotransmissores que afetam os limiares de humor e dor.”, sugere um dos autores do estudo citado no post anterior.

Até aqui, a hipótese de a depressão e a dor crônica nas costas estarem relacionadas – embora as causas de ambas sejam difusas – parece razoavelmente comprovada. A próxima questão é: isso importa?

Depressão e dor crônica nas costas se retroalimentam: enquanto a dor lombar crônica pode causar depressão, a depressão também pode causar dor nas costas

Dor crônica nas costas – Depressão

Julgue você por si mesmo(a). A dor crônica nas costas pode ser severa é implacável, infiltrando-se em todas as atividades diárias da pessoa, impedindo-a de se movimentar normalmente, de manter as atividades (sociais, lazer, hobbies) que a fazem feliz e até de pensar direito. A hipervigilância da dor também é comum em pacientes crônicos, o que significa limitar espaço mental e temporal para projetos, afetos e devaneios.

Pior ainda, a dor crônica nas costas é sorrateira. O paciente recebe tratamento para uma condição medular apenas para ver depois sua dor retornar com força total. E some-se a isso que alguns medicamentos para controlar a dor nas costas até podem contribuir para os sintomas de depressão.

Depressão – Dor Crônica nas Costas

Pessoas com depressão severa realmente sentem dor mais intensamente do que outras. Isso pode resultar da vulnerabilidade imunológica que acompanha a depressão. Alguns estudos sugerem que a depressão provoca aumento da dor e da inflamação via proteínas conhecidas como citocinas, que são conhecidas por afetar as respostas do sistema imunológico à infecção e à doença e parecem estar presentes em níveis mais elevados em pacientes deprimidos.

Além disso, a depressão gera uma espécie de fadiga mental e física que desemboca no enfraquecimento muscular – afetando particularmente os músculos centrais, e por tabela a coluna (articulações, ligamentos), e assim exacerbando a lombalgia e as tensões musculares relacionadas. O resultado final disso é algo que os cientistas da dor chamam cruamente de “desuso”. Ou seja, falta de uso. E todos sabemos onde vão parar as coisas que não tem uso.

Depressão & dor nas costas raramente andam sozinhas

Na minha opinião – e a qual vou logo avisando que conta para nada porque não sou médico – o pior da depressão não é ela alimentar a dor nas costas, mas desmotivar a pessoa a ponto de ela nem mais se importar com isso. (E acredite se quiser, tem estudos indicando que alguns até gostam. Ou seja, a dor + depressão + droga + depressão… vira um ciclo viciante.)

E de onde a depressão tira tamanho poder de persuasão negativa? Uma resposta pode ser o que a medicina conhece por comorbidade prognóstica, ou seja, quando houver doenças que predispõem o paciente a desenvolver outras doenças. Em síntese, a depressão nunca anda sozinha, ela é do tipo “sociável”, dá-se bem com todos, como por exemplo, ansiedade, medo, raiva e por aí vai. Nem precisa dizer que a combinação é tóxica e afeta negativamente a qualidade de vida (sono, alimentação) e, pior ainda, a disposição para aderir a um programa de reabilitação física e a capacidade de perceber melhoras – as quais desempenham um papel no processo de cura.

“De maneira misteriosa… a garoa cinzenta do horror induzida pela depressão assume a qualidade da dor física.”

William Styron, diretor de cinema

Tratar pacientes com dor lombar crônica e depressão requer uma abordagem abrangente.

Nem precisa dizer que pacientes com dor crônica nas costas e depressão não respondem ao tratamento da mesma forma que os pacientes que experimentam apenas dores nas costas – demoram muito mais para se recuperar e requerem de apoio multidisciplinar, o que pode ser caro.

O primeiro passo, já é delicado. Ele consiste em reportar ao médico os sinais e sintomas de depressão percebidos além da dor nas costas. Estes incluem sentimento de tristeza, desespero, irritabilidade e fadiga avassaladora, juntamente com problemas de sono, dificuldade de concentração, perda de apetite, comer demais ou pensamentos de morte e suicídio. O diabo é que esse tipo de conversa não é comum em consultórios públicos – nem o Silvio Santos consegue tirar a roupa e ao mesmo tempo falar disso entre 5 e 7 minutos, que é a duração média da consulta típica no SUS?  – nem tampouco nos consultórios privados (ganha um pirulito quem me apontar médicos interessados em saber se você quer se atirar do Edifício Itália ou se intoxicar com uma superdose de SuperMac´s), mesmo você pagando US$ 100,00 ou mais pela consulta.

De qualquer maneira, como a dor e a depressão estão inter-relacionadas, faz sentido tratá-las concomitantemente. Essa iniciativa costuma incluir aconselhamento psicológico, treinamento de relaxamento e terapia comportamental, bem como o uso de antidepressivos de baixa dose. De novo, porém, isso pode ser caro e absolutamente inviável para pessoal de baixa renda.

Outra chave para o tratamento da depressão e da dor lombar é o exercício aeróbico regular, que estimula os níveis de serotonina no cérebro e estimula a liberação de endorfinas de bem-estar para aliviar tanto a depressão quanto a dor. Ainda uma terceira alternativa, muito badalada recentemente, é o mindfulness. Acho desnecessário comentá-la aqui toda vez que ela já virou lugar comum, você encontra opções e versões em qualquer esquina.

Em síntese, um regime de exercícios, juntamente com medicação e psicoterapia, parece ser uma maneira potencialmente eficaz de tratar tanto a depressão quanto a dor lombar. Não é um desfecho muito espetacular, porém é o que há de melhor pelo momento.

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