Dor crônica no Brasil: apagando o incêndio. Com um conta-gotas.

Dor crônica no Brasil: apagando o incêndio. Com um conta-gotas.

A educação em dor não é apenas uma espécie de higiene mental politicamente correta. Ela é terapia com fins analgésicos e desestressantes. E se bem-feita e em conjunto com outros aportes (ex.: exercício), há evidências de que ela “funciona” nesses sentidos, e melhor do que fármacos. Contudo, educar gente em dor num país continental como o Brasil requer “sair da caixa”, abandonar os enfoques pedagógicos convencionais e criar soluções massivas, que talvez atentem para pouco, mas atinjam muitos.

É melhor esperar por menos, que de repente ficar sem esperança.

Há pouco mais de um mês, o blog recebeu um correio anunciando a abertura de um programa de reabilitação para pacientes com dor crônica, oferecido por um grupo de pessoas ligadas ao Hospital Albert Einstein. Dizia o seguinte:

“Definida a data para início do nosso novo grupo! Faremos a sessão de avaliação no dia 10/09, às 18h. Programa GRATUITO voltado para pessoas que sentem dor há mais de 6 meses. O programa tem a duração de 10 semanas, um dia por semana. As atividades acontecem toda segunda-feira, das 18h às 22h na sede da pós-graduação do Albert Einstein, na av. Paulista. Equipe composta por médico, psicólogo, fisioterapeuta, educadora física e enfermeiras, todos com especialização em dor. As inscrições são gratuitas, mas as vagas são limitadas! Para se inscrever, envie um e-mail para reabilitadores@gmail.com.”

Dez pessoas com dor crônica seriam selecionadas dentre todos os que se inscrevessem manifestando ter essa condição, para participar de um programa que iria recuperá-las ou coisa parecida.

Gratamente surpreso, mas também curioso, eu fui atrás de mais informações. A maneira em que a coisa era apresentada parecia mais com um esquema de pirâmide, desses em que, num momento dado, os caras no topo fogem para as Ilhas Virgens, onde por sinal ninguém o é, enquanto os da base ficam chupando o dedo com cara de idiota.

Mas não era. Repassei de imediato o correio aos seguidores do blog, que juntando todas as redes sociais (Facebook, Instagram & Cia) já são muitos. Uma iniciativa louvável… a do Centro de Educação em Saúde Abram Szajman do Instituto Israelita Albert Einstein, claro. A minha, a de divulgar, é uma obrigação, afinal, o objetivo do blog dorcronica é educar em dor as pessoas nessa condição para elas controlarem melhor seus destinos enquanto pacientes.

Logo depois, porém, fiquei melancólico.

Dez pessoas apenas participariam do tal programa… que demora 10 semanas, um dia por semana. E o alvo é a dor crônica…

Suponhamos que no Brasil houvesse mais 200 iniciativas do gênero. (Atuamente deve haver pouco mais de uma centena de Clínicas de Dor, as mais indicadas para emular a iniciativa do Einstein e talvez uns 10 hospitais com pretensões e recursos semelhantes.) E se, ao invés de 10 alunos-pacientes, esses clones do Einstein “formassem” 10 vezes mais deles?

Quanto dá isso? 20 mil pessoas.

Achei pouco. O Brasil tem 210 milhões de habitantes. E se aquele programa fosse oferecido duas vezes ao ano?

As contas, por favor? 40 mil pessoas.

Poxa, um exército!, você talvez ache. Mas o Brasil continua tendo 210 milhões de habitantes.

Então vejamos a coisa por um outro ângulo.

Um levantamento via internet (27.345 “residentes representativos”) realizado no Brasil em 2017, estimou que a prevalência da dor lombar crônica primária foi de 59,85%, da artrite reumatoide primária foi de 59,78% e na osteoartrite primária foi de 69,02%. Metade dos entrevistados com dor crônica experimentou dor diária e a intensidade da dor média (nos últimos 3 meses) foi moderada em 57,28%.

Uma outra pesquisa em dez artigos realizada na mesma época, viu a prevalência da dor crônica variar entre 29,3 e 73,3%, afetando mais mulheres do que homens e mais localizada na região lombar.

Como nos EUA 45% da população (ou 133 milhões) registram ao menos uma dor crônica, e na Europa (15 países) e Israel ao menos 46% reportam dor constante – 54% dor intermitente e 59% dor em dois dos últimos 15 anos, eu posso grosseiramente, muito grosseiramente, estimar que a prevalência da dor crônica no Brasil deveria andar entre os 40% e 50%, por baixo.

Fiquemos com 40%, a proporção mais conservadora. Até onde eu sei, 40% de 210 milhões são 84 milhões.

Mas eu não vou cometer o abuso de calcular qual a proporção de 40 mil (pacientes-alunos) em 84 milhões de brasileiros com dor crônica. Seria um golpe baixo. Para tornar o cálculo ainda mais conservador, justo etc., então eu resolvi, de uma canetada, apagar a metade da população brasileira com dor crônica.

Sobraram 42 milhões. E o que significam 40 mil alunos-pacientes em 42 milhões de sofredores?

0,1% mais ou menos.

Moral da história: iniciativas visando educar gente em dor como a antes comentada são louváveis por ser bem intencionadas, republicanas e de um simbolismo danado – e porque seguramente os professores do programa vão aprender muito analisando as reações dos  pacientes-alunos etc. como se estes estivessem num laboratório, o que pode ser ótimo para a ciência e etcétera, etcétera. Mas um país do tamanho e complexidade do Brasil, ações do gênero, sozinhas, vira e mexe, aportam quase nada.

Então, deveriam desaparecer? Claro que não! Deveriam, sim, ser incentivadas outras iniciativas, talvez mais toscas e menos “científicas”, porém mais práticas e produtivas do ponto de vista educacional. Iniciativas criativas que atingissem mais gente, mais rápido e com maior efetividade. Você não precisa se pautar pela “medicina baseada em evidências” – e ficar esperando pelos resultados de pesquisas de laboratório que custam milhões e demoram anos – para mostrar ao João ou à Maria coisas simples e cientificamente despretensiosas tais como: o papel do “psicológico” na percepção da dor, a diferença entre dor aguda e dor crônica, ou a baixa utilidade dos anti-inflamatórios no caso desta última.

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