Dor crônica: pondo ordem na casa

Dor crônica: pondo ordem na casa

Para você, paciente ou mesmo profissional da saúde, na prática talvez importe pouco saber se é dor crônica ou dor psicogênica, ou ambas. Afinal, dor é dor. Porém, dor crônica e dor psicogênica são duas condições distintas e merecem tratamentos também distintos.

“Ordem e simplificação são os primeiros passos para o domínio de um assunto”

Thomas Mann

Dor crônica ou dor psicogênica? Ou dor crônica e psicogênica? A dor de sensitização central é crônica? A dor nas costas crônica é doença ou dor?

Para você, paciente ou mesmo profissional da saúde, na prática talvez isso importe pouco. Afinal, dor é dor. Ou não é? Bem, dor crônica e dor psicogênica são duas condições distintas e merecem tratamentos idem. E se a dor de sensitização central for mesmo crônica essa condição deveria ser assim classificada pelos médicos nos seus exames, e pelos planos de saúde, nos seus protocolos.

Em síntese, na prática, a nomenclatura das dores crônicas é uma balbúrdia. Faltam códigos apropriados e isso dificulta as pesquisas, as publicações, o ensino sobre dor (quando existe), as estatísticas epidemiológicas da dor crônica, as políticas das instituições pagadoras (planos de saúde, INSS) e sobretudo o entendimento do médico, do fisioterapeuta, do farmacêutico etc., ao colaborar na recuperação de um paciente com dor.

O anterior, todavia, pode mudar em breve. Em cooperação com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um Grupo de Trabalho da International Association for the Study of Pain (IASP), recentemente enviou ao Conselho Executivo da OMS um sistema de classificação “… aplicável em uma ampla gama de contextos, incluindo medicina para dor, cuidados primários e ambientes com poucos recursos.”

Uma síntese do resultado desse trabalho, que envolveu uma dúzia de cientistas de diversos países e foi liderado por Rolf-Detlef Treede, um acadêmico alemão – por mim resumida e traduzida livremente ao português – já está disponível no blog. Se o caro leitor for um profissional da saúde, bom seria que o divulgasse entre seus colegas. E se for um paciente com dor crônica, alerte o seu terapeuta para se informar também. Ele precisa.

Trata-se de um único código universal de diagnóstico para a dor crônica, juntamente com outros códigos relativos aos grupos mais comuns e clinicamente relevantes dessa condição. Por exemplo,

“Em condições como fibromialgia ou dor lombar inespecífica, a dor crônica pode ser concebida como uma doença por si só; em nossa proposta, chamamos esse subgrupo de “dor primária crônica”. Em seis outros subgrupos, a dor é secundária a uma doença subjacente:

  1. dor crônica relacionada ao câncer,
  2. dor neuropática crônica,
  3. dor visceral secundária crônica,
  4. pós-traumática crônica e pós-cirúrgica crônica,
  5. cefaleia secundária crônica e dor orofacial e
  6. dor musculoesquelética secundária crônica.

Essas condições são resumidas como “dor secundária crônica”, em que a dor pode, pelo menos inicialmente, ser concebida como um sintoma”.

Pela primeira vez, então, a dor crônica é reconhecida oficialmente como sendo, além de um sintoma em certas ocasiões, também uma doença em si mesma. Fora isso, a Comissão também destaca que essa classificação…

“…leva em conta não apenas a intensidade da dor, mas também a incapacidade e o sofrimento relacionados à dor, além de fatores psicossociais que contribuem para a experiência da dor.”

Dessa forma, é confirmada a definição de dor dada pela IASP no sentido de ser “uma experiência sensorial e emocional desagradável”. Mas aponta também para o trecho à continuação que costuma passar desapercebido:

“Muitas pessoas relatam dor na ausência de dano tecidual ou qualquer provável causa fisiopatológica; geralmente isso acontece por razões psicológicas. Geralmente, não há como distinguir sua experiência daquela devido a dano tecidual se levarmos o relatório subjetivo. Se eles consideram sua experiência como dor e se relatam da mesma maneira que a dor causada pelo dano tecidual, ela deve ser aceita como dor. Essa definição evita amarrar a dor ao estímulo. A atividade induzida no nociceptor e nas vias nociceptivas por um estímulo nocivo é a dor, que é sempre um estado psicológico, embora possamos perceber que a dor tem, na maioria das vezes, uma causa física próxima.”

Quem ler com atenção e tiver um mínimo de conhecimento sobre o tema “dor” percebe de imediato o apoio da IASP a um modelo biopsicossocial da medicina. Uma ironia, aliás, sendo isso algo que boa parte de seus associados, na prática, enfim… não pratica.

*O sistema de classificação em pauta foi publicado em uma série de artigos na edição de janeiro de 2019 da revista PAIN.

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