Dor crônica? Ora, vai um comprimido aí?

Dor crônica? Ora, vai um comprimido aí?

Se você já desistiu de um tratamento medicamentoso prescrito com receita e tudo, já imagina o que vou lhe dizer: que isso foi um erro. E provavelmente foi. Porém, às vezes não é. As regras para “tomar remédios” não são infalíveis que nem o Papa. O seu fígado também importa.

“Não é uma realidade fácil de enfrentar, mas assim como sua dor crônica não se desenvolveu da noite para o dia, nem a solução para encontrar alívio se desenvolverá em um ou dois dias.”

Um artigo que li na internet me chamou a atenção. O título era sugestivo: “A importância da adesão ao tratamento médico”. Gostei dele. Do título, quero dizer. De fato, uma das principais causas da prevalência da dor crônica – estimada entre 35 e 40% no Brasil – é a desistência. Continuei a ler.

Bem, o assunto não era a desistência em geral, mas limitada a pacientes com diabetes e hipertensos, média de desistência nos 50%. E limitada também ao tratamento: medicamentoso, exclusivamente. Remédios, drogas, essas coisas.

“No caso de doenças crônicas, apenas cerca de metade dos pacientes toma a medicação corretamente em 80% do tempo. E a adesão diminui na medida em que o número de medicamentos, de doses e do tempo do tratamento aumenta, bem como se há interferência nas atividades, no estilo de vida e nos hábitos alimentares, se existem efeitos colaterais, se o paciente vê a sua doença de uma forma pessimista e, até, se a interação com o profissional de saúde é deficiente.” – rezava o artigo, por sinal patrocinado – notei depois – por um laboratório farmacêutico multinacionalíssimo.

E a reza estava certa – em se tratando de diabetes e hipertensão. Informativamente falando, mais ou menos como focar no torresmo numa feijoada. E o restante dessa culinária é que também deveria ser comentado, sem sair do tema do tratamento.

Na dor musculoesquelética, quando provocada por doenças ainda inexplicáveis – dor nocioplástica, chama isso agora, desculpem – como a fibromialgia, convém interromper os remédios assim que a dor permitir movimentos o suficiente para se exercitar. Na Alemanha, por exemplo, onde quem dá as cartas é uma comissão de 12 cientistas (EULAR), nenhum medicamento foi licenciado pela ANVISA de lá para a fibromialgia. Os tedescos apontam o exercício como o melhor tratamento nesse caso. E não é por eles consumirem mais joelho de porco que os americanos.

Disso o artigo não tratava. E ele também deixava de mencionar outra questão importante em se tratando de persistência/desistência de tratamentos medicamentosos:

“O mesmo medicamento na mesma dosagem pode causar efeitos terapêuticos em alguns e efeitos adversos em outros, enquanto outros podem não ter nenhum efeito. Essa ampla faixa de variabilidade se deve em parte à variabilidade genética. O regime analgésico convencional, baseado no tipo de dor, intensidade, idade e peso corporal da pessoa, não leva em consideração essa variabilidade genética, introduzindo um enorme fator de incerteza.”1

“Venenos e remédios costumam ser a mesma substância dada com intenções diferentes.”

Peter Mere Latham, médico e educador inglês do século XIX.

Ou seja, gostemos ou não, às vezes o tratamento medicamentoso recomendado não funciona como previsto ou até dispara efeitos colaterais antes do previsto. (Sim, em geral todos os analgésicos têm efeitos colaterais se tomados além de um tempo – que no ibuprofeno, por exemplo, parece ser de 10 dias na menor dose.).

Enfim, nada contra criticar a desistência de tratamentos medicamentosos, que era o fulcro do tal artigo. Obviamente, analgésicos, opioides etc. são necessários. Porém, apenas enquanto o forem, convém agregar. Fora do estabelecido na bula e/ou do prescrito pelo médico, em termos de doses e tempos, seus efeitos adversos podem ser piores que a própria doença.

(Mas isso você já sabia. Então porque continua se medicando para se livrar de uma dor persistente?)

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